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João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

O que está por trás da arma feita com o gesto das mãos?

Muita gente anda espantada como a representação de algumas ideias, consideradas toscas, ganharam tanta força recentemente. Que a maioria da população concorda com a frase “bandido bom é bandido morto”, já se sabe há algum tempo. Mas daí a arma feita com os gestos das mãos virar uma onda no país e, pior, ser um dos principais símbolos do candidato que lidera as pesquisas para a Presidência da República parece um absurdo para alguns.

No esforço de entender como isso se deu, algumas respostas vão surgindo. Uma delas é dizer que há uma ascensão das ideias fascistas na sociedade. Sugere que a violência se legitima como prática social e se apoia na ampliação do clima de intolerância que insiste ganhar o tom de “novo normal” do Brasil. Fatos recentes como o assassinato de Moa do Katendê e da jovem que teve uma suástica marcada por canivete em seu corpo parecem corroborar essa compreensão.

Não se pode negar o crescimento do fascismo, mas também não é possível atribuir a ele a resposta única ou principal para o fato da arma ter se tornado um símbolo na proporção que virou. Acreditar nisso é deixar de considerar outros fatores.

De acordo com o “Atlas da Violência 2018”, do Ministério da Saúde, o Brasil registrou, em 2016, a marca de 62.517 mortes violentas intencionais. 71,5% das vítimas eram negras ou pardas. Na lista divulgada pela ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública, o Brasil é o país com o maior número de cidades entre as 50 mais violentas do mundo. Ao todo, temos 19 municípios que figuram nesse ranking.

Na última década, vimos cair por terra uma formulação antiga da esquerda no país. Para o combate à violência, a resposta padrão era de que a diminuição da desigualdade social, a geração de emprego e os investimentos em educação eram as principais formas de enfrentar isso. No entanto, durante os dois governos Lula e o primeiro de Dilma, período em que mais se avançou no país nessas três esferas, os índices de violência cresceram vertiginosamente.

O dado curioso é que as regiões norte e nordeste, que registraram um maior salto social e econômico durante aquele período, foram as que mais sofreram com a onda de violência. Das 10 cidades com as maiores taxas de homicídios por 100 mil habitantes, todas são dessas duas regiões do país.

A crise carcerária do início de 2017 no Amazonas, Rio Grande do Norte e Espírito Santo revelou outra questão: a atuação de organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho em outros estados além de São Paulo e no Rio de Janeiro. Tal fato mudou completamente a dinâmica em cidades que há bem pouco tempo eram consideradas extremamente tranquilas para viver e, agora, presenciam crimes com armas pesadas.

Estamos diante de uma realidade absolutamente nova, na qual a definição constitucional de atribuir aos estados a responsabilidade pela segurança pública não consegue dar conta do problema. O programa de governo apresentado por Haddad e Manuela já observa isso. Propõe, entre outras coisas, planos nacionais de redução de homicídios, polícia militar federal para atuar em todo país e a liberação para a Polícia Federal atuar contra o tráfico de drogas e o crime organizado.

O símbolo da arma feita com os dedos expressa a busca de parte da população por uma solução liberal. Essa também é a principal proposta de Bolsonaro, jogar para as mãos da população uma atribuição que é a do Presidente da República: liderar a criação de políticas públicas. Armar a população só aprofunda o problema, uma vez que pode aumentar o já elevado número de homicídios no país.

Se apropriar disso é apenas uma das formas de tentar esconder o que já virou sua principal marca: a falta de propostas, de conhecimento sobre os entraves do Brasil. Seja em segurança, economia ou qualquer outro tema!

 

Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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