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João de Sousa

Quarta-feira, Outubro 27, 2021

O que pode piorar?

DESESPERADAMENTE CALMA

Enquanto degustava o meu cigarro… imaginário (como sabem eu não fumo), pensava na situação da minha vida, fiz uma visita mental à despensa e ao congelador tentando calcular os mantimentos… notei que o congelador mais parecia uma pista de ski. Vou por feijão no fogo, pensei, e acendi outro cigarro… mentalmente é claro…Contei os dias pelos dedos… já não falta muito para o fim do mês. Pensei…

O que pode piorar? Perguntei-me, e outra vez as reticências, estava calma, desesperadamente calma como sempre, falava com o meu íntimo silenciosamente, se alguém me ouvisse diria que estava a enlouquecer…

O país está em fase de transição, as coisas vão mudar, espero que seja para melhor.

O que pode piorar? Pensei outra vez, liguei o facebook, e logo na manchete vejo publicações sobre os escravos negros na Líbia, em pleno século XXl, meu Deus que situação. Africanos escravizados por africanos em África? Don´t match… e a comunidade internacional? E os (in) direitos humanos? Mais abaixo uma campanha sobre a violência contra a mulher, só as mulheres apanham e os homens? Coloquei um like, um pouco mais à frente algo sobre uma cantora Angolana que quando canta tira a roupa toda, nem comentei desliguei o facebook.

Ligo o televisor e as notícias reforçam a minha angústia. Homens adultos oficializando a pedofilia e coroando as meninas com nomes como manga de dez ou novinhas, e a sociedade aplaude e dança as músicas de quem relaxa com as novinhas.

Decidi pensar em algo positivo, o meu casamento? Mas foi casamento ou cumprimento? Ainda continuo aqui empatada. Talvez tenha sido apenas para tirar fotografias…

Aperto outra vez no comando do televisor, o concurso Miss Terra, ajeito a postura no sofá, cruzo os pés e olho atentamente para o concurso com cenário artificial e candidatas com seios de silicone… o que pode piorar? Afinal não estou tão mal assim… Sorrio para mim, comprimindo a barriga que denuncia a minha intimidade com o analgésico à base de cevada.

O natal, está a chegar e com ele alegrias e nostalgias, saudades dos tempos de menina quando eu era a filha da tia Delfina e Neta da avó Filipa e não a mãe dos Setinhos, afinal não é tão fácil assim. Queria montar a árvore de natal, mas lembrei-me da conta da luz, talvez lá para 22 Dezembro para não enforcar o espirito natalino, já se fala em coisas para estrear no natal, enquanto eu só penso no que vamos comer amanhã. E rezo para que o único neurologista do hospital estatal volte logo das férias.

Liguei a rádio e tocava o samba kunanga do amor, levantei empurrei os móveis e comecei a sambar pela sala

Faltam 30 dias para o natal, até lá… O que pode piorar?

A autora escreve em PT Angola

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