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Terça-feira, Novembro 30, 2021

O regresso da inflação

Arnaldo Xarim
Economista

As recentes notícias que dão conta de uma subida da inflação na Zona Euro tanto trazem de regresso velhos fantasmas como requerem a atenção de governos, bancos centrais e, especialmente, a daqueles que mais irão sofrer os seus efeitos.

Sabemos que a inflação significa um aumento contínuo e generalizado dos preços numa economia e que geralmente os especialistas a classificam em três categorias, em função da respectiva causa: a forçada pelo aumento da procura, a originada pela oferta ou pelo aumento dos custos e a que resulta das expectativas dos agentes económicos.

A inflação pela procura resulta de um aumento do poder de compra que não é acompanhado pela capacidade produtiva instalada, ou seja, quando a procura é superior à oferta; já a inflação pela oferta ou pelos custos ocorre quando os inputs (matérias-primas, energia e mão-de-obra) necessários para a produção de bens e serviços ficam mais caros e este aumento dos custos de produção é transferido para o consumidor final.

A inflação que resulta do efeito psicológico de tendências inflacionárias em períodos anteriores, também é conhecida como inflação pela inércia ou inflação esperada. Este conceito, bem mais recente que os anteriores, surge quando uma economia apresenta inflação pela procura, ou pelos custos, em níveis muito altos, ou por períodos muito prolongados, que leva a que os agentes económicos se acostumem com o processo inflacionário e passem a praticar aumentos sistemáticos de preços, na tentativa de se proteger, mas ao fazerem-no provocam ainda mais inflação.

Contrariamente às duas primeiras, esta não resulta de quaisquer fundamentos económicos, assumindo quase uma origem espúria ao problema do equilíbrio geral, pois não se fundamenta no comportamento da oferta e da procura. Pior, a sua origem e fundamentação psicológica, associadas ao facto de não existir qualquer meio ou forma científica ou empírica de a determinar, veio a transformá-la numa poderosa ferramenta política para a limitação de reivindicações salariais e sociais e para o agravamento das desigualdades sociais.

Para se ter noção do verdadeiro absurdo desta ideia de associar a evolução salarial à inflação esperada, lançada na década de 1980, basta recordar que este é um indicador construído para a produção de projecções macroeconómicas (muito utilizado na elaboração do Orçamento do Estado), cujo resultado deriva mais das expectativas dos governos e de outros agentes económicos que da realidade económica, que a sua utilização conheceu o seu apogeu num período de regressão na evolução das taxas de inflação e que foi prontamente aproveitado pelas associações patronais para antecipar os ganhos resultantes dum crescimento mais reduzido dos salários.

Quando é já um dado adquirido que em Outubro a taxa de inflação na Zona Euro chegou aos 4,1%, começa a crescer a ideia de regresso da inflação e de nova vaga de instabilidade económica (mesmo se os dados mais recentes apontam para que a inflação nacional se mantenha mais baixa), tanto mais que o crescimento da inflação agora registado se deverá fundamentalmente à subida do preço da energia (especialmente dos hidrocarbonetos) que estão a arrastar os preços de matérias primas e os custos de transporte, ideia que o BCE, e a sua presidente, Christine Lagarde, têm procurado contrariar, com o argumento que se tratará de uma tendência passageira, que o tempo confirmará… ou não. Mas esta reacção parece servir mais para justificar a manutenção da política de estímulos que o BCE tem vindo a aplicar, agora que a inflação ultrapassou a famosa barreira dos 2%.

O busílis, de agora e de sempre, é que nunca existiu qualquer fundamentação técnica ou teórica para a fixação arbitrária daquele valor, salvo se tomarmos como aceitável a explicação parcial deixada em 2013 pelo então presidente do BCE, Mario Draghi, e que Rui Peres Jorge referiu no Negócios: «Ao apontar para os 2%, o BCE procurou garantir uma inflação baixa para a Zona Euro e ao mesmo tempo garantir que eventuais “falhas ou erros de medição do índice de preços no consumidor possam ser acomodados dentro da evolução dos preços”. É que já aconteceu noutras regiões considerar-se que os preços estavam a subir quando na verdade caiam. Neste cenário, as decisões do banco central baseadas em indicadores errados poderiam mesmo ser contraproducentes».

Isto dito, voltaremos seguramente a falar no assunto… e nem sequer é difícil vaticinar que não será pelas melhores razões.

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