Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quarta-feira, Julho 28, 2021

O triplo assassínio de Sarah Halimi

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O primeiro assassínio de Sarah Halimi ocorreu em Abril de 2017 e teve uma repercussão mediática que, significativamente, não chegou a Portugal.

  1. Sarah Halimi

O primeiro assassínio de Sarah Halimi ocorreu em Abril de 2017 e teve uma repercussão mediática que, significativamente, não chegou a Portugal. A história é contada em muito lado, aqui – Vu d’Israël.L’affaire Sarah Halimi, le début de la fin pour la communauté juive en France ?, por exemplo. Uma senhora de 65 anos, Sarah Halimi, única habitante judia de um edifício no Norte de Paris foi assaltada e agredida por um vizinho que a torturou e assassinou lançando no final o corpo pela janela gritando ‘Allahou Akbar”.

Depois de recursos vários, quatro anos depois, o Supremo Tribunal de Justiça francês considerou em Abril deste ano que o assassino não deveria ser julgado dado que, comprovadamente, teria fumado marijuana e não se encontraria na posse das suas plenas capacidades mentais antes de consumar o assassínio.

Como foi denunciado por diversos juristas (aqui – Affaire Sarah Halimi, la Cour de cassation aurait-elle dû juger autrement?, por exemplo) o Supremo Tribunal de Justiça contrariou com esta decisão uma longa jurisprudência que considera o consumo de estupefacientes como circunstância agravante do crime e nunca como factor de inimputabilidade.

É também necessário ter em conta que não se tratou aqui de proteger alguém por razões de compadrio. O assassino, jovem emigrante desempregado, foi múltiplas vezes condenado por tráfico de estupefacientes e dificilmente pode ser tido como figura influente a proteger.

A relação entre o crime, individual, social e político, e as várias formas de loucura é um tema de enorme importância, havendo cada vez mais razões para crer na relação próxima entre as duas realidades, mas ninguém se lembrou ainda de considerar que Hitler deva ser postumamente absolvido dos crimes que cometeu em virtude de qualquer conclusão tirada sobre o seu estado mental.

Eu, por exemplo, considerei no meu livro sobre terrorismo que deveríamos considerar o jihadismo como uma psicopatia, sem por isso me ter passado pela cabeça inocentar os seus actores.

A única razão coerente e compreensível para esta actuação da justiça francesa é a de fazer constar que a vida humana não tem toda o mesmo valor e os actos para lhe pôr fim não devem ser sancionados da mesma forma, sendo o antissemitismo uma desculpa e não uma agravante para o crime em causa.

  1. O branqueamento do antissemitismo

A decisão do Supremo Tribunal francês é assim o segundo assassinato de Sarah Halimi, colocando em questão a inimputabilidade da justiça e os limites do Estado de Direito.

Mas trata-se antes disso do assassinato da memória de Sarah Halimi, da dor incomensurável para os seus familiares e para todos os membros da comunidade judaica de colocar em causa do direito à vida de todas as vítimas potenciais do antissemitismo.

A forma como tem sido tratada a agressão feita pelos movimentos jihadistas a partir do território de Gaza a Israel é sintomática desse branqueamento do antissemitismo. O disparo indiscriminado de centenas de mísseis contra um país é um acto de guerra que é ditado pelas mesmas razões e circunstâncias que levaram o jihadista emigrado em Paris a assassinar Sarah Halimi. É a lógica do ódio financiada e incentivada pelas potências jihadistas, a começar pela teocracia iraniana e infelizmente apaziguada pelo Ocidente.

A ideia de que Israel não deveria reagir ao ataque e que qualquer reacção é por definição criminosa só se pode entender à luz de uma ideologia antissemítica.

  1. O terceiro assassinato de Sarah Halimi

Mas para além do antissemitismo há as vítimas árabes da Palestina. O jihadismo tem um absoluto desprezo pela vida dos que considera serem seres de menor importância, a começar por mulheres e crianças.

O Ayatollah Khomeini, na primeira jihad contra o Iraque, fez de uma criança que se teria feito explodir contra um veículo de guerra iraquiano o símbolo celebrado em cartazes difundidos por todo o lado. Turmas inteiras de crianças vindas de estratos desfavorecidos da sociedade foram utilizadas para fazer saltar minas e possibilitar assim ofensivas do exército iraniano.

Os jihadistas em Gaza fazem exactamente o mesmo. Atiram propositadamente mísseis a partir de zonas residenciais para que as retaliações provoquem vítimas civis, que a seguir apresentam perante a imprensa internacional como vítimas do sionismo.

Dão recompensas a quem recuperar os lançadores de mísseis sabendo que a probabilidade de serem atingidos em retaliação são grandes. Na presente ofensiva, de acordo com dados publicados pelas Forças de Defesa Israelita, entre os mil e quinhentos mísseis disparados contra Israel, centenas caíram ainda em Gaza, provocando numerosas vítimas.

Os jihadistas utilizam os cidadãos árabes dos territórios que controlam como carne para canhão que serve para alimentar o ódio e a propaganda antissemítica e é esse mesmo antissemitismo que lhes dá cobertura ao apresentá-los como vítimas de Israel.

É um terceiro crime hediondo que não é menos revoltante que os anteriores.

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -