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Quinta-feira, Janeiro 27, 2022

Orçamento, mais uma vitória da Esquerda

Carlos Narciso
Jornalista

Orçamento aprovado | António Costa e o grupo parlamentar do PS

Depois disto, o documento vai ser discutido na especialidade, é provável que surjam propostas que venham a ser integradas, haverá ainda um debate na especialidade e só depois uma segunda votação final e global, no final de Novembro se tudo correr bem.

Ou seja, embora não seja espectável que os partidos que apoiam o governo venham a causar grandes dores de cabeça ao primeiro-ministro ao longo deste processo negocial, tanto o PC como o Bloco e até mesmo o PAN não deixarão de tentar colocar algumas das suas bandeiras políticas no orçamento para 2017.

António Costa saboreia a vitória

António Costa está preparado para esse “bailado”, ele já mostrou ser bom no tango político e já saboreia a vitória com a aprovação parlamentar que irá viabilizar o orçamento. Na verdade, por cada dia que passa o primeiro-ministro soma vitórias frente a um líder da oposição cada vez mais anímico e sem imaginação para bloquear o avanço da geringonça, talvez lento mas persistente.

A convergência dos partidos da esquerda política em torno deste governo precisa de se manter e precisa de continuar a convencer o eleitorado de que esta é a melhor opção para a governação do país. Esse é o grande trunfo de António Costa que, no entanto, sabe que não poderá esticar demasiado a corda com o PC e com o Bloco. Mas enquanto Costa tem sabido gerir esse entendimento cordial que permite o actual equilíbrio político, Passos Coelho tem-se revelado incapaz de desfazer os nós da camisa-de-onze-varas que Costa lhe costurou… Para o PSD, a única hipótese de voltar a ter influência governativa seria aproximar-se do PS e tentar minar os acordos à esquerda, mas Passos ficou preso a um sentimento de vingança que, neste momento, não tem materialização política possível.

A aparente incapacidade de Passos Coelho

A partir da discussão parlamentar que decorreu nos últimos dias, António Costa construiu um discurso onde realçou a aparente incapacidade da oposição apresentar contributos válidos para serem integrados no Orçamento de 2017, e chegou mesmo a afirmar que Passos Coelho não avançou com uma única ideia para o país e nunca falou dos problemas concretos das pessoas.

A profecia de Passos Coelho de que com este governo “vai ser o diabo” voltou a ser utilizada com ironia pelo actual primeiro-ministro quando afirmou que “a credibilidade da direita esvai-se a cada dia que o diabo teima em não aparecer”.

António Costa disse que a oposição não sabe o que dizer deste Orçamento, acabando por se contradizer sucessivamente, disse o primeiro-ministro lembrando que tanto “acusa o PS de estar capturado pelo radicalismo de Bloco e PCP”, como diz que os dois partidos “já estão domesticados pelo PS”, ou que o Orçamento é “eleitoralista” para depois ser “austeritário”, que umas vezes exigiram que o Governo “reduza a despesa pública” como, depois, criticam o Governo por reduzir a despesa pública, numa sucessão de citações de declarações de diferentes líderes partidários do PSD e do CDS.

Orçamento aprovado, agora é executá-lo

Enfim, política é isto mesmo, oratória e dialética, embora não sejam essas características que importam quando se faz um Orçamento de Estado. O que os portugueses esperam é que o Orçamento seja aprovado, executado e que não magoe mais uma população em grande parte descrente nos políticos e nas políticas, desmoralizada e depauperada pela carga fiscal que imobiliza as famílias e asfixia empresas.

Para o Bloco

Os partidos da geringonça sabem bem desta realidade e foi interessante ouvir Catarina Martins pormenorizar o “trabalho de formiguinha” entre o Bloco e o PS que permitiu chegar a um entendimento sobre um Orçamento que, na opinião da dirigente bloquista, é “um Orçamento do Estado de recuperação de rendimentos e de dignidade”, elaborado “nas margens da chantagem e das restrições europeias”, disse Catarina Martins no seu discurso final desta maratona parlamentar, um discurso muito crítico para as instituições e as regras europeias.

Para o Bloco, Portugal precisa de redução dos juros da dívida e não de mais orientações no sentido da austeridade como as que a Comissão Europeia teima em fazer.

Para o PCP

Ainda mais violento nas críticas à União Europeia, foi o discurso de Paulo Sá, do PCP. Para os comunistas, Portugal precisa de se “libertar dos constrangimentos da dívida” (leia-se, renegociá-la), precisa de “romper com os tratados europeus” e de “romper com o favorecimento do grande capital em matéria fiscal”, e só por estes três tópicos é possível perceber como a vida não é fácil para António Costa, no sentido de garantir a sobrevivência do seu governo.

Para o PSD

Quanto à oposição, no último discurso do PSD, o líder da bancada Luís Montenegro adiantou que o seu partido não irá tentar interferir no Orçamento durante a discussão na especialidade, uma vez que “foram as opções que o Governo decidiu fazer, mas há uma coisa que nós sabemos: este orçamento não tem um rumo”, disse Montenegro, revelando que o PSD não pretende contribuir para melhorar eventualmente o documento orçamental.

A luta política do PSD vai centrar-se no Parlamento onde, durante esta legislatura, Passos Coelho irá voltar a desafiar António Costa para legislar uma descida do IRC e para iniciar uma reforma da Segurança Social, que o PSD diz estar à beira da ruptura financeira.

Para o CDS

O CDS, pela voz de Telmo Correia, encerrou o debate de sexta-feira acusando António Costa de professar uma espécie de radicalismo austeritário: “Os senhores que tanto teorizavam sobre a nossa paixão pela austeridade, como se fosse uma espécie de submissão ao calvinismo radical de origem germânica, o que têm para dizer quando um cidadão que não queira ser penalizado pelas vossas opções o que tem é viver numa casa sem sol, sem vistas, só andar a pé, fumar ou beber nem pensar e nem prazer de uma bebida açucarada lhe resta. Não é calvinismo, mas é o retrato de um monge trotskista, austeridade pura”, disse Telmo Correia numa argumentação bastante inspirada.

Neste discurso, o CDS encontrou um cognome para o primeiro-ministro que, segundo o “baptizado” centrista, passará a ser conhecido por António Costa, o “grande ilusionista”. O que vale ao líder socialista é que o povo gosta de circo, desde que não falte o pão.

Nota do Director

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