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Sábado, Julho 13, 2024

Os “Filhos dos Lobos” e os “Netos da Linda de Suza”

Rui Galiza
Rui Galiza
Jornalista

O final do ano de 2022 ficou marcado por um acontecimento que motivou inúmeras reflexões sobre o fluxo migratório de portugueses para o centro e norte da Europa nas décadas de 60 e 70, com natural destaque para França, ao ponto de se ter popularizado que Paris seria a segunda cidade com mais cidadãos nacionais.

Em concreto, a morte de Linda de Suza, a 28 de dezembro de 2022, tornou inevitável o recordar desse movimento migratório que o Portugal que cá ficou sempre preferiu desvalorizar, relegando-o para imagens estereotipadas do emigrante pouco instruído que regressava a Portugal todos os anos pelo Verão – os “avecs” – para ostentar um nível de vida de fazer inveja na terrinha.

Não se tratou de um esquecimento total, pois ao nível de um certo folclore celebrativo sempre estiveram presentes. Festas, romarias e monumentos aí estão para o comprovar e, o Dia de Portugal em democracia, celebra também as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Mas até que ponto os conhecemos e refletimos seriamente sobre a sua condição? Ou, por outro prisma, até que ponto o país não poderia beneficiar em incrementar a ligação com esta diáspora?

Para quem por esse mundo que fala português não esteja familiarizado com a personalidade referida, aqui fica um “resumo do resumo”. Teolinda de Sousa, fez parte dos cerca de 1 milhão e 500 mil cidadãos portugueses que deixaram o país clandestinamente durante os últimos anos da ditadura. No seu caso particular, cruzou clandestinamente a fronteira e entrou em França, no início da década de 70, com um filho de 4 anos nos braços.

Tal como a maioria das mulheres portuguesas de então, trabalhou nas limpezas, função que acumulou com o trabalho à noite num restaurante onde cantava pontualmente, mas o suficiente para impressionar um produtor musical que frequentava o estabelecimento. “Afrancesou” o nome, atuou num programa de TV e não mais voltou às limpezas, desenvolvendo uma carreira artística de sucesso muito substancial em França, ao ponto de, simbolicamente, quando a meio da década de 80 Portugal aderiu à então Comunidade Económica Europeia, foi a artista convidada para atuar no Parlamento Europeu, consubstanciando em termos artísticos o que o ministro dos negócios estrangeiros português, José Medeiros Ferreira, deixou expresso em termos políticos, no primeiro discurso proferido no Conselho da Europa após a revolução de Abril de 1974: “Portugal volta por fim oficialmente à convivência com a Europa”.

Mas se a morte da cantora não passou despercebida, o mesmo não se poderá dizer do outro acontecimento que, no final do ano passado, nos deveria ter obrigado a olhar para a diáspora portuguesa em França com um olhar renovado: O apuramento para o mundial de rugby da seleção nacional.

fpr.pt

Na verdade, num país onde o futebol funciona como um eucalipto, as restantes modalidades só recebem uma atenção pontual quando alcançam feitos dignos de destaque. Foi o que sucedeu em novembro de 2022, quando no torneio final de repescagem para o mundial da bola oval, o internacional português Samuel Marques colocou a seleção nacional pela segunda vez entre a elite da modalidade com um pontapé certeiro já nos descontos do jogo decisivo contra os EUA, assegurando a derradeira vaga no torneio.

O Mundial, a disputar em França e com início marcado para o presente mês, vai assim contar com a segunda participação portuguesa, depois de na edição de 2007, os então célebres “Lobos” terem temporariamente apaixonado Portugal. Afinal aqueles rapazes 100% amadores e bem constituídos fisicamente como é próprio do rugby, choraram a bem chorar sempre que cantaram o hino nacional. Mas tal como apaixonaram o país, rapidamente caíram no esquecimento. Talvez porque a evolução do rugby tenha tornado impossível uma equipa totalmente amadora voltar a marcar presença na sua prova maior, numa modalidade que por cá continua ainda hoje, já não tão elitista, mas 100% não profissional.

Consciente desta situação, numa tentativa de voltar à ribalta, a Federação Portuguesa de Rugby (FPR) não teve dúvidas em contratar um treinador francês (Patrice Lagisquet) e a recorrer a um lote de jogadores selecionáveis ao abrigo das leis internacionais que regem a modalidade, crismados entre os (poucos) adeptos da modalidade como “os netos da Linda de Souza”(i)! É que o Samuel do pontapé decisivo chama-se Samuel Batiste Marques, sendo acompanhado na nossa seleção por Jean Sousa, Mike Barbosa, Vicent Pinto, Antony Alves, Steevy Cerqueira, Nicolas Martins, Lionel Campergue, Thibault de Freitas, Joris Moura e Francisco Fernandes, luso-franceses, ou franco-portugueses, que jogam nos campeonatos profissionais e semiprofissionais de França, a “premier league” do rugby mundial. Sem este contributo, os restantes jogadores da seleção nacional, os  “Filhos dos Lobos” (num dos casos, literalmente!), muito dificilmente teriam conseguido chegar lá, apesar de um número substancial  também já evoluir em equipas profissionais, ou semiprofissionais, em França. Tudo junto, entre emigrantes atuais e netos/filhos de emigrantes das décadas de 60/70, a maioria dos convocados da seleção nacional de rugby está por França, o que até dará um certo jeito a uma federação completamente depauperada em termos financeiros…

Mas voltemos aos “Netos da Linda de Sousa”. Em primeiro lugar pouco terão a ver com os seus familiares que fugiram do país (se calhar, sem nunca terem saído do mesmo), nem com uma primeira geração de luso-descendentes, retratados pelo realizador João Canijo, no filme “Ganhar a Vida” (2000), um retrato cru de uma comunidade onde a frase “não estamos no que é nosso” surgia repetida inúmeras vezes como auto-consolação perante a vida dura, e os abusos sofridos no país de acolhimento, em que as jovens mulheres, que até estudavam, acabavam por “casar com o trolha” (o jovem luso-descendente do sexo masculino), de tal forma a comunidade vivia enclausurada sobre si mesma em cinzentos blocos de apartamentos na periferia da grande cidade..

De lá para cá, tudo indica que os “Netos da Linda de Suza” deram passos importantes, deixando para trás as imagens estereotipadas, como o comprovam estudos onde se constata que os resultados escolares das netas e netos da porteira e do operário da Citroen, da sra. da limpeza e do pedreiro vindos de Portugal com a 4ª classe, são hoje equivalentes aos dos franceses nativos e superiores ao da grande maioria das comunidades migrantes, mesmo mais antigas no país(ii).

Regressando ao rugby, alguns dos nomes referidos passaram pelas seleções jovens de França, e mesmo reconhecendo que a língua de Camões não será naturalmente o seu forte (afinal, na maioria dos casos, a ligação a Portugal já se baseia apenas num dos progenitores), ou mesmo que, caso tivessem oportunidade para tal, estariam no mundial a cantar A Marselhesa e não A Portuguesa, a verdade é que, devido às já referidas restrições financeiras da FPR, estes “avecs” pagam do próprio bolso as viagens e hotéis para jogarem e treinarem em Portugal e por Portugal, o que têm feito nos últimos anos, sem qualquer garantia de participação na prova maior da modalidade. Sim, o Jean, o Mike, o Nicolas, etc., têm andado a pagar pelo privilégio de representar um país que tratou mal os seus avós e esqueceu os seus pais, mas que lhes deu a oportunidade para marcar presença no evento máximo daquilo que fazem e que reconhecem, com orgulho, fazer parte daquilo que são.

Apesar dos sacrifícios, não se esperam resultados por ir além numa prova que para Portugal começará com um jogo contra o País de Gales. Curiosamente, nos meus tempos de jovem, quando jogava futebol com os amigos do bairro, um remate que jamais seria golo nem que se montassem três balizas umas em cima das outras, merecia o comentário depreciativo “três pontos para  País de Gales”. Mas a verdade é que esse país britânico da bola oval vai ganhar por bem mais de três pontos o duelo…. Aliás, não é difícil vaticinar que a derrota será a constante da nossa participação já que a sorte que acompanhou o Samuel no pontapé decisivo nada quis connosco no grupo em que caímos.

Outra certeza que podemos ter é que, ao contrário do que sucedeu recentemente com uma seleção de futebol, que apesar de não ter passado da fase de grupos do respetivo mundial, regressou a Portugal em apoteose, com direito a escolta de avião e receção no Palácio de Belém, os Lobos regressão ao anonimato, sendo possível que muitos nem passem por Portugal no final do torneio. Basta relembrar que a FPR nem teve dinheiro para, depois do jogo decisivo que colocou Portugal no mundial, pagar as viagens aos luso-franceses para passarem por Portugal antes de rumarem a França…(iii).

Mas talvez tal fosse pedir demais. Tenho a certeza que os Lobos netos da Linda de Suza já se dariam por satisfeitos pelo reconhecimento do seu esforço e por poderem representar o país que continuam, nem que seja em parte, a sentir como seu, sem que tal diminua o saldo das suas contas bancárias.

Linda foi sepultada em Gisors, cidade da Normandia onde viveu. Foi uma despedida que a comunidade portuguesa pintou de vermelho, com os cravos que floriram na revolução que assinalou o fim do regime marcado pela trilogia miséria-repressão-guerra que os fez deixar “o seu Portugal”. Como sempre acontece nestas ocasiões, o elogio foi unânime. Numa homenagem póstuma, a localidade onde Linda nasceu, decidiu atribuir o seu nome ao centro cultural local.

Talvez fosse uma excelente ideia não deixar morrer a ligação dos descendentes da emigração portuguesa com o nosso país. Tal como no rugby, não teríamos todos a ganhar em manter viva a relação entre o país e as suas comunidades espalhadas pelo mundo?

Numa altura em que a modalidade desportiva que predomina em Portugal insiste em continuar a ser uma verdadeira escola de maus costumes, que também aqui o rugby, dito “jogo de rufias praticado por cavalheiros”, onde no final as equipas se aplaudem mutuamente, sirva de exemplo positivo.

 

Notas

(i) De Lobinhos a Lobos: a geração não espontânea que ambiciona o Mundial 2023

(ii) Trajectoires et origines

(iii) Râguebi: herói não veio a Portugal porque não houve “dinheiro para pagar viagem”

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