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Sábado, Setembro 25, 2021

«Os homens têm pilinha, as meninas têm pipi»

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

O título é retirado de uma frase de Um Polícia no Jardim Escola, o filme.Da pilinha de António Lobo Antunes, despudoradamente e livremente partilhada diante de uma plateia de jovens ainda não adultos, às declarações em catadupa das alegadas vítimas de assédio, à promoção do menosprezo pelas mulheres em certas culturas e à segregação e perseguição de géneros ainda considerados singulares pela homofobia e pela transfobia – que o digam lésbicas, homossexuais, bissexuais, transgéneros de todo o mundo, mesmo do ocidental e dito livre e desenvolvido –, desaguando nas declarações do cardeal Manuel Clemente, que aconselha a que, “nos casos em que não possa ser declarada a nulidade do casamento anterior, deve ser proposto ao casal em situação irregular viver sem a prática de relações sexuais”, material em que lhe falta obviamente experiência e bom senso na pronúncia, o sexo tem chegado nos últimos dias a nossas casas (pelo menos ao nosso conhecimento) como se fosse uma coisa nova e original e não uma coisa mais antiga que o tempo (quem acredita nisso, dos tempos de Adão e Eva e dos seus filhos de cujo incesto descendemos).

Uma olhadela pelas capas das revistas mundanas, um zapping pelos canais televisivos, de telenovelas aos telejornais, ele aí está, transformado em coisa sórdida, banal e condenável, por líderes de opinião, por líderes religiosos, por líderes de audiências, por líderes.

O que podia ser extraordinário e excepcional, elevado, romântico, arrebatado, incomparável, fluente e imaginativo no encontro entre os seres, passa a figura de perseguição e ao patamar de um moralismo medieval e circunspecto, dos novos fundamentalistas, dos novos extremistas, dos novos inquisidores que, estimulados pelo desnorteio em que o mundo anda, mostram a sua verdadeira face (incapazes de dar a outra, mesmo quando a vida os esbofeteia). Pior: são aplaudidos por alguns que veem na repressão a saída mais airosa. (Normalmente são os mesmos que espancam o cônjuge com quem vivem).

Não sendo puritanos, deixemos o sexo para quem o faz, com a idade própria, sem tabus, e sobretudo sem coações. Sei que alguns de vocês concordarão comigo.

Há dias li que a cultura ocidental considera inconcebível aceitar a violência dentro do casamento. Não há mentira mais vergonhosa e os cemitérios e as urgências dos hospitais são o lado visível de uma guerra imunda da falta de princípios aqui mesmo, no mundo ocidental!

O mesmo artigo dizia que esse tipo de violência é uma prática normal entre muçulmanos ultraortodoxos, o que é igual mentira, mas que interessa a muitos propagar. Não se generaliza nenhum dos dois campos – o ocidental e o outro, que aliás nem lhe está oposto, pois os muçulmanos não são o mundo oriental, não sei se já notaram.

Numa época como a nossa, em que a liberdade sexual conduz, inevitavelmente, ao nivelamento dos comportamentos – um país que conheça a sua sexualidade e a legitimidade com que a interpreta, combate mais facilmente os violadores, os pedófilos, os traficantes que escravizam crianças, mulheres e homens para fins sexuais, denuncia o agressor, seja padre ou vilão de rua – devemos unir-nos para denunciar todos os tipos de extremistas e extremismos.

Há anos, no nosso País, escondiam-se termos como masturbação ou sexo oral e havia um bom punhado de “balés roses”. Se pensarmos bem, até a vida sexual do pequeno ditador dessa época, era uma coisa obscura, ao gosto de um bordel de bairro pobre com alguma lenda e pouca alegria e onde se entrava ao abrigo das sombras, com botas de elástico e polícias políticos a defender as proximidades da enxerga do prazer.

O sagrado e o profano sempre estiveram aptos a lutas entre si, disparatadas e sem sentido. O que para uns era o mal para outros parecia bem – e nessa luta se cavaram ilusões e narrativas, incapazes de acertar com a dignidade merecida aos seres humanos. As religiões quiseram muitas vezes tomar conta do mundo sexual. Até porque nelas residia a estrutura legislativa da moral para os povos que tentava organizar. Exceção maior feita ao Kamasutra que entretém, dispõe bem e é de extrema utilidade.

Um parente meu, que já não pode vir aqui desmentir-me, dizia-me que os padres eram celibatários de pais para filhos.

A homossexualidade – a homoafetividade – faz enorme sentido na história. Repare-se por exemplo na sua presença no budismo (chegou a ser prática sagrada na China e no Japão) e do hinduísmo.

Para o catolicismo, o tropeção aconteceu a dado passo, ao interpretar o sexo como coisa apenas recomendável para a procriação, aliás uma errada e lamentável interpretação das escrituras feita numa fase das muitas em que foram interpretadas. Esta interpretação deixa-nos entender muitas das denúncias feitas sobre o comportamento dos clérigos, pelo menos, os que praticam e não procriam, sim, porque os há de todos os tipos.

Parece nojento, mas a verdade é que a pilinha de Lobo Antunes anda pelas bocas do mundo (salvo seja). E que o cardeal-patriarca é apontado por muitos como um senhor estranho que fez uma viagem no tempo e que bem precisa agora do apoio do Dr. Emmet Brown e do jovem Martin Seamus McFly (vejam o filme O Regresso ao Futuro, por favor).

A história do ser humano é feita do que dele fica, como sedimento de aprendizagem e evolução, da sua linguagem simbólica.

Reparem como fica sempre muito pouco para aprender com aqueles que nos querem reprimir.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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