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Terça-feira, Janeiro 18, 2022

Os limites do crescimento (de Malthus aos baby boomers)

Arnaldo Xarim
Economista

De forma explícita ou implícita, algumas vezes tenho referido neste espaço a questão do crescimento económico e do seu limite, algo que se pode responder de forma imediata com a ideia que este estará directamente associado e dependente da finitude dos recursos naturais. No entanto, a resposta não será assim tão simples quando equacionamos outras questões como o que determina o limite desses recursos e se será imutável a sua disponibilidade na natureza?

O limite dos recursos regeneráveis resultará da relação entre a sua taxa de utilização e aquela a que ele é regenerado e isto é o que acontece com uma grande parte dos recursos essenciais como a água, o oxigénio, a flora e a fauna; mas atenção que a renovação natural não será uma garantia absoluta se estes estiverem a ser usados a uma velocidade que os vá tornando escassos.

Foi baseado nesta ideia da sobre utilização dos recursos naturais que entre os finais do século XVIII e os princípios do XIX, Thomas Malthus desenvolveu uma teoria do crescimento na sua obra Ensaio Sobre o Princípio da População, onde alertava para a inevitabilidade de uma drástica escassez de alimentos, uma vez que a população crescia em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos crescia em progressão aritmética, e propondo como solução o controlo do crescimento populacional. É esta, em resumo, a essência da chamada teoria malthusiana, que estimou um período de cerca de 100 anos para se atingir o ponto de ruptura, mas o final do século XIX chegou sem sobressalto de maior e até o século XX se completou sem que se vislumbrasse o cumprimento da previsão malthusiana, devendo-se o falhanço ao facto do modelo de previsão se basear em factores quantitativos, não incorporando factores como a inovação e esta constituir um importante factor de mudança na relação qualitativa com os recursos.

O pormenor pelo qual esta teoria é, ainda hoje, muito conhecida prende-se com a ideia de aplicar rápidas e severas restrições ao crescimento populacional, mediante a negação de cuidados médicos e alimentação aos mais necessitados, sob a alegação de que o adiamento da sua morte contribuiria para o aumento do consumo de recursos escassos, sem a menor contrapartida para a sociedade… algo que soa a qualquer coisa familiar, não?

As vantagens qualitativas trazidas pelos processos de inovação não constituem um contributo recente nem qualquer novidade no desenvolvimento humano, pois há milénios que as sociedades humanas o têm feito. A introdução da pastorícia e da agricultura originou inovações muito antes de termos qualquer noção ou conhecimento sobre genética; o apuramento de raças e sementes começou a ser praticado de forma natural e teve um importantíssimo papel no aumento da eficiência na nutrição, permitindo por esta via o sustento de um número cada vez maior de pessoas e revoluções, como a industrial e a digital, trouxeram enormes ganhos de produtividade e abriram novos horizontes para o crescimento humano.

Outra questão preocupante prende-se com a limitação de espaço, seja na vertente habitacional seja na vertente agrícola, sendo esta especialmente sensível face à necessidade de produção de alimentos para os quase 7,8 mil milhões (dados de The World Factbook da CIA) que somos actualmente. Porém, como se pode ver nos gráficos seguintes do Our World in Data, o aumento da eficiência e da produtividade têm vindo a reduzir a área necessária para a produção dos nossos alimentos.

Se aparentamos condições suficientes para a produção de alimentos, as faltas de recursos essenciais dever-se-ão a outras razões políticas e económicas, talvez a questão da sobrelotação populacional resulte também de uma visão enviesada do problema quando tendemos a transpor o modelo ocidental e julgamos que todas as condições de vida diferentes têm que ser piores que a que conhecemos. Claro que as zonas de maior densidade populacional enfrentam problemas acrescidos de poluição, mas até para esses já existem hoje soluções mitigadoras que implicando a reorganização dos espaços urbanos se poderão (deverão) espalhar por todos os continentes.

Outro problema muitas vezes referido é o de a água potável se converter um recurso escasso, o que poderá estar na origem de guerras pela água no futuro, tanto mais possíveis quanto optemos por nada alterar; mas mediante recurso a processos de reflorestação – excelente forma de evitar que a água se perca para os oceanos e de contribuir para a regulação e o controle da temperatura – e a reintrodução da pastorícia como forma de estímulo para o crescimento das plantas, como o propõe o especialista em gestão holística, Allan Savory, talvez se venham a conseguir resultados positivos.

Os processos de desertificação em curso também poderão ser contrariados mediante o recurso à tecnologia de ionização, que já está a ser ensaiada há algum tempo e que se baseia na ideia da existência de um campo eléctrico constante entre a ionosfera e o solo, que bombardeado com iões pode levar à formação de nuvens e à queda de precipitação.

Apresentadas as grandes questões e dúvidas que regular ou pontualmente nos foram assoberbando, avançámos desde a Revolução Industrial até ao período dos baby boomers e da Revolução Digital, registando grandes progressos tecnológicos e na qualidade de vida de uma população mundial em grande crescimento.

a seguir: OS LIMITES DO CRESCIMENTO (do Clube de Roma ao futuro)

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