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Sábado, Setembro 18, 2021

Pe Maubere: “Timor está numa situação gravíssima. Salvai-nos dos ditadores!”

M. Azancot de Menezes
PhD em Educação / Universidade de Lisboa

No dia 27 de Agosto de 2020, o porta-voz da Câmara Eclesiástica da Diocese de Díli, rejeitou uma notícia que circulava pelas redes sociais segundo a qual a Igreja Católica apoiava a manifestação contra o Presidente da RDTL, contudo, o Padre Maubere não esconde a sua indignação em relação à situação vivida no país.

Independentemente do posicionamento oficial da Igreja Católica nesta matéria, circula uma mensagem por telemóvel, atribuída ao Padre Domingos Maubere, com o seguinte teor:

Por favor informem o mundo que Timor está sob o terror das Forças Armadas Timorenses. Neste momento estão a cercar a casa da Sra. Ângela que está preparando uma manifestação contra o Presidente, acusado de violação da Constituição. Timor-Leste está numa situação gravíssima. Salvai-nos dos ditadores!”

As posições do Padre Domingos Maubere em relação à vontade de unir os timorenses e de combater a incoerência e a injustiça são conhecidos de longa data, desde a Convenção com a diáspora timorense realizada em Portugal ainda antes do referendo em 1999, na tentativa de unir os timorenses, lembro-me muito bem disso.

Este tipo de posicionamento repetiu-se no dia 19 de Maio de 2020 quando este sacerdote esteve no Parlamento Nacional, em Díli, ao ter tomado posições muito duras, acusando alguns deputados de falta de maturidade política. Nesse dia, profundamente emocionado e triste, as palavras do Pe. Maubere foram (muito) contundentes:

O mundo e a solidariedade internacional devem estar a rir-se do comportamento infantil dos deputados; está a viver-se o terceiro ano de impasse político quando se devia estar a resolver os problemas do povo”.

 

Presidente Lu Olo acusado de não respeitar a constituição de Timor-Leste

O problema em análise é que Ângela Freitas, porta-voz de um recém criado Movimento, acusou o Presidente da República de estar a violar a Constituição da RDTL.

Após ter publicitado que prepara uma manifestação pacífica em desacordo às posições assumidas pelo Chefe da Nação, Ângela passou a ter a sua casa cercada por um grupo de militares, uma medida musculada que não está a agradar a uma grande parte da sociedade.

O clima de instabilidade política em Timor-Leste, após alguma aparente acalmia, portanto, assumiu contornos mais visíveis no final de Agosto e início de Setembro de 2020. A casa de Ângela Freitas, líder do Partido Trabalhista (PT) e ex-candidata presidencial está agora “cercada” por elementos das Forças Armadas e gerou-se um clima de tensão acrescida que divide partidos políticos e a própria Igreja Católica.

Ângela Freitas tem o apoio de António Ai-tahn Matak, um dos líderes mais tenebrosos da Frente Clandestina na luta contra o regime indonésio, bem como de outros seguidores, onde se inclui Lucas Soares Colibere.

Militares a rondar a casa de Ângela Freitas

Em posição diametralmente oposta ao Movimento intitulado“Resistência Nacional de Defesa da Justiça e Constituição de Timor-Leste”, está a Bancada Parlamentar que inclui a Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (FRETILIN), o Partido de Libertação Popular (PLP) e o Kmanek Haburas Unidade Nasional Timor Oan (KHUNTO). Na opinião destes três partidos com assento parlamentar, o “grupo de Ângela Freitas é subversivo”.

Segundo alguns analistas esta tese segundo a qual o Movimento “Resistência Nacional de Defesa da Justiça e Constituição de Timor-Leste” se trata apenas de “um grupo” não é tão linear como aparenta ser porque um pouco por todo o país, apesar de não ter havido envolvimento das lideranças nem orientações oficiais nesse sentido, tem havido contestação pública às posições oficiais do Presidente Francisco Guterres no sentido de que não estará a haver o distanciamento partidário necessário, como está explanado na constituição da RDTL.

Efectivamente, tem havido conferências de imprensa e pontos de vista vários com a implicação de cidadãos afectos a diversas franjas políticas, económicas e religiosas da sociedade, onde se incluem militantes e simpatizantes do Conselho Nacional para a Reconstrução de Timor-Leste (CNRT) e do Partido Democrático (PD).

Inclusivamente, uma célula da Brigada Negra (comando especial das FALINTIL que no passado se responsabilizava por actividades de guerrilha urbana em Timor-Leste e na Indonésia) realizou a semana passada uma Conferência de Imprensa, com cobertura televisiva, a manifestar o seu descontentamento em relação à imparcialidade do Presidente da República e ao incumprimento inconstitucional.

A Constituição da República Democrática de Timor-Leste (RDTL) é muita explícita no que diz respeito à liberdade de reunião e de manifestação dos cidadãos nacionais na medida em que, em conformidade com o seu Artigo 42º:

  1. A todos é garantida a liberdade de reunião pacífica e sem armas, sem necessidade de autorização prévia.
  2. A todos é reconhecido o direito de manifestação, nos termos da lei.”

Se o teor da mensagem enviada pelo Padre Domingos Maubere for realmente verdadeiro e corresponder à realidade, estamos a experimentar momentos maus que não favorecem o clima de paz e diálogo.

É preciso não esquecer, se não houver bom senso, em caso de crise absoluta, incontrolável, poderemos assistir à divisão da liderança militar e da cúpula da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) que integra oficiais da FRETILIN e do CNRT, portanto, com consequências muito perigosas que poderão descambar em outra guerra civil e em nova intervenção militar estrangeira no país.

Timor-Leste já conheceu momentos muito conturbados, com sangue derramado, recomenda-se por isso muita ponderação de todas as partes, colocando em primeiro lugar os interesses da Nação e do seu martirizado povo.


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