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João de Sousa

Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Pelé num documentário novo. Novo?

Pelé se deixou comandar em toda sua vida pública por um comportamento politicamente subserviente. Por isso mesmo, refilmá-lo para dizer o mesmo não tem sentido.

Filme Pelé

A Netflix, que é uma exibidora no sistema streaming e muito boa tecnologicamente, tem querido ser também uma produtora de cinema. E nisso ela sempre procura o mais comercial possível. No caso do filme Pelé, que foi lançado recentemente como uma das suas produções, me parece que eles não acertaram no caminho. Ou será que eles são contra Pelé?

O filme é um documentário dirigido por dois norte-americanos, e também pelo menos parte da equipe técnica é norte-americana. Isso já me parece uma escolha errada, pois nesse caso do jogador Pelé – assim como no da peça de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida, quando recebeu sua primeira filmagem por um estrangeiro – o mais acertado seria mesmo colocar uma equipe brasileira para fazer o filme. O documentário da Netflix não apresenta nenhuma novidade sobre o jogador. Tudo que ele diz, naturalmente, já foi dito em outros filmes ou reportagens. Não há nada que o público já não saiba.

E há um grande destaque do comportamento de Pelé com seu relacionamento em 1970 com o ditador Médici durante a Copa de 70 no México. O filme relata a maneira subserviente, como um jogador da fama que foi a de Pelé, tratou com o presidente de então, Médici, o mais truculento e nazista certamente do período da ditadura. Inclusive é lembrado o boxeador Cassius Clay e de como ele se comportou do ponto de vista político. Democraticamente. Alguém comenta que Muhammad Ali tinha segurança, que não seria torturado nos Estados Unidos numa possível prisão – o que não aconteceria no caso de Pelé. No meu entender, a questão não seria assim porque sabemos que qualquer polícia do mundo é capaz de torturar. Ninguém está a salvo. E Pelé é uma pessoa que se deixou comandar em toda sua vida pública – pelo menos na vida pública – por um comportamento politicamente subserviente. É conhecido. E por isso mesmo me parece que refilmá-lo para dizer o mesmo não tem sentido.

Se os produtores e o diretor queriam fazer um documentário novo, seria diferente. Pelé tem milhões de assuntos para serem filmados. Por exemplo, por que não selecionar as cenas realmente geniais feitas pelo jogador e documentadas e mostrá-las com requinte de técnica? Eu gostaria de ver um filme onde essas cenas fossem entrecortadas por comentários de grandes especialistas na área de futebol. Seria inclusive um filme de muita beleza e ao mesmo tempo um filme educativo para quem quer saber o que é o futebol. E ao mesmo tempo se deliciar com a beleza das jogadas de Pelé.

Olinda, 26. 2. 2021

 


 

O cinema de Alex Viany

Nos anos 1950, Alex Viany foi no Brasil um dos mais importantes críticos de cinema com atuação no Rio de Janeiro. E além de ser excelente crítico fez cinema como profissional de excelente qualidade. Conheci Alex Viany pessoalmente durante o 1º Festival Internacional de Cinema, no Rio em 1965, do qual participei junto com Fernando Spencer. Mas já conhecia bastante o seu trabalho. Ele era um crítico que olhava o cinema e o mundo com uma visão marxista. Como jornalista, foi correspondente nos Estados Unidos. Seu nome verdadeiro era Almiro Viviani Fialho.

O ator Jorge Gomes, os diretores Alex Viany e Humberto Mauro e atriz Elke Maravilha

Em 1979, Alex Viany realizou o documentário Humberto Mauro – Eu Coração Dou Bom e conseguiu registrar com esse filme a presença de um cineasta realmente excepcional. Ele fez uma entrevista com Humberto Mauro – que, na época, tinha 82 anos – e o cineasta conseguiu se expressar num sentido que deixou bem claro o valor dele como um grande criador cinematográfico. E Humberto Mauro atuou não só como diretor, mas também em vários outros setores do cinema, fazendo papéis de ator e também como administrador na área do cinema educativo.

Mas o importante é que Viany utilizou com precisão momentos de filmes feitos por Mauro. E destacou as trilhas musicais que ele usou para acompanhar seus filmes. Fica bem claro o conceito filosófico que Humberto Mauro tinha acerca da importância do cinema para o País. Considerando dos anos 50 para trás, sem dúvida Humberto Mauro foi uma das principais figuras do cinema brasileiro. Um momento a se destacar nesse documentário são os vários minutos em que se encaixa o curta famoso A Velha a Fiar.

Em 1954, Alex Viany dirigiu o longa Rua sem Sol, um filme que teve uma produção com razoáveis recursos e foi o primeiro longa da empresa Cinedistri. No elenco fazendo o papel central temos a atriz Glauce Rocha e como segundo personagem feminino a cantora Doris Monteiro, que fez grande sucesso nos anos 50. Glauce era atriz de teatro e depois participou do filme de Glauber Rocha Terra em Transe. Apesar de ser cantora, Doris Monteiro muito jovem fez uma cega que dependia da sua irmã Marta (Glauce), com bastante naturalidade e verdade.

Embora fosse marxista e ligado ao Partido Comunista do Brasil, Viany viveu muitos anos nos Estados Unidos e esse filme mostra que suas influências são realmente do cinema norte-americano. Não se sente nada de uma possível presença da forma de fazer cinema na época dos italianos. Rua sem Sol tem a cara de um cinema noir, onde o drama social vem da trama psicológica, mais do que da construção social. Ângela Maria, que já era uma cantora de grande fama, faz a interpretação de duas canções. Nesse sentido, Viany não foge ao que era costume nos filmes dos anos 40 e 50.

Mais um filme de Alex Viany, que está em exibição no site Making Off, é Sol sobre a Lama”, realização de 1963 que eu não pude rever, porque o filme baixou com defeito no som. Mas me recordo um pouco do que vi há mais de 40 anos. Em Sol sobre a Lama, Viany já mostra um outro tom social na construção de uma produção. O tema – a Feira de Água dos Meninos em Salvador – é declaradamente sociológico e a trama criada pelo cineasta começa com um estupro, criando, assim, cria o clima de representação da sociedade em que vivem aqueles personagens.

Os cineastas Alex Viany e Orson Welles e o poeta Vinícius de Moraes, durante a visita de Welles ao Brasil, em 1942

Outro filme de Viany que fez bastante sucesso foi Agulha no Palheiro. Um cineasta, sem dúvida, que marcou a história do cinema brasileiro.

Olinda, 1. 3. 2021

 


 

Sombras do terror

Há anos que eu não vejo um filme efetivamente programado para o comércio cinematográfico. E vi hoje The Terror, que no Brasil ganhou o título de Sombras do Terror. Está em exibição no site Making Off. Esse filme foi realizado nos anos 60 e lançado em 1963. E nessa época eu já o vi. Pelo que me lembro, gostei.

É uma obra especial, dirigida pelo famoso cineasta especialista no gênero terror Roger Corman. Mas na realidade teve uma direção coletiva. Talvez ou certamente foi uma questão de produção. Como deveriam ter uma verba pequena acertaram com Roger Corman que ele colocaria o nome como diretor do filme, mas não precisaria dirigir senão uma parte dele. O resto do filme foi dirigido por Francis Ford Coppola, Jack Hale, Monte Hellman, Jack Hill, Dennis Jakob e Jack Nicholson. Esse é também o ator principal e faz a parceria romântica com a atriz Sandra Knight. Consta que cada um deles dirigiu um trecho do filme. Isso são certamente pequenas estórias da História do cinema norte-americano. Hollywood é assim.

Mas The Terror, mesmo com essa direção coletiva, consegue ter uma unidade na narrativa e se apresentar como algo de uma direção unitária. Talvez quem dê essa continuidade seja a presença do ator Jack Nicholson, que ainda estava no começo da carreira, mas já se mostra um ator com muita expressividade. E tem ainda o grande Boris Karloff, que faz um personagem não tão tradicional para seu caminho cinematográfico. É interessante como se coloca esse nome tão genérico num filme que tem força no roteiro romântico. Os grandes filmes de terror em geral capricham mais no tom cadavérico dos personagens. O grande personagem feminino desse The Terror só vai se transformar em figura trágica depois de apresentar um grande beijo entre Sandra e Nicholson.

Talvez mais do que a presença do ator Jack Nicholson, o que marca essa obra de Roger Corman é a muito boa fotografia e os cenários que se misturam em um grande castelo numa região montanhosa e bela. A música é densamente explícita para a criação do clima de mistério.

Olinda, 5. 3. 2021

 


 

Tokyo.Sora, A estreia de Hiroshi Ishikawa

O cineasta japonês Hiroshi Ishikawa nasceu em 18 de maio de 1963. Na sua vida profissional, já fez curtas e assim foi premiado como “melhor diretor” no New Montreal Film Festival. Mas seu primeiro longa-metragem é esse filme Tokyo.Sora, que está à disposição do espectador no site Making Off.

É um filme belo. Mas não é parecido com nenhum filme norte-americano. É uma obra com características claras de um cinema japonês. De muito boa qualidade. É um filme suave, com mais de duas horas de projeção. Com uma fotografia cinza. E que vai tomando o espectador aos poucos. Mas não é para quem gosta de cinema movimentado, violento. Quase não tem estória. Entretanto, tem muito drama. No contexto, parece com o famoso cineasta japonês Yasujiro Ozu, que fazia filmes extremamente dramáticos, mas sempre como se não contasse uma estória.

No começo, Tokyo.Sora mostra durante uns 20 minutos uma moça botando suas roupas para lavar numa dessas lavanderias automáticas, e a narrativa vai aos poucos se desenvolvendo. A moça é a atriz Yuka Itaya, é ela que mantém a narrativa viva. Essa moça se encontra com alguém que quer criar uma estória e para isso quer contratar moças que vão lhe contando trechos de vida. Mas a maneira como se encontram é desapegada. Ninguém realmente conta nada. Tudo vai acontecendo com muitos poucos diálogos. A moça se veste com uma saia curta e vai para a rua vender maçãs. Não sei se era real ou apenas para criar um momento. O que vale é que a cena consegue criar uma sequência de leve sensualidade.

Quem for ver o filme e não quiser saber do final pare de ler esta crônica.

Pois gostei tanto do final, que me deu vontade de contar. Quando faltam uns 30 minutos para o final, o escritor recebe um telefonema e nele fica sabendo que a jovem Yuka morreu atropelada. E não se sabe se foi um acidente ou se ela se deixou atrair pelo carro que a atropelou. É um choque para o espectador. E o que o diretor irá fazer durante 30 minutos do filme e finalizar? É belo e também suave o que ele cria para ocupar esse espaço. Não vou contar.

Também a música é pouca e suave durante todo o desenrolar das cenas. Quem criou o roteiro musical foi Yoko Kanno. Não o conheço, mas pelo que ouvi posso dizer que se trata de um bom compositor.

Olinda, 7. 3. 2021


por Celso Marconi, Crítico de cinema mais longevo em atividade no Brasil. Referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

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