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Domingo, Abril 14, 2024

Pensar – Um exercício nunca adelgaçante mas muito saudável

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Alexandre HonradoNo campo do pensamento ou, melhor, da reflexão, há duas vertentes que aprendemos – e que ensinamos.

A primeira prende-se com o acto reflector: pensar é um exercício permanente, que muda a direcção original do que vínhamos pensando. Como a imagem no espelho. Não vale a pena ensinar e sobretudo aprender para ficar igual ao que se era antes do esforço.

Essa mutabilidade e trabalho permanentes impõem o segundo aspecto, a segunda vertente: reflectir tem sempre influência, nos outros e em nós – pelo que exige o melhor da nossa humildade.

Ensinar é sobretudo aprender. E aprender é recordar, revisitar o que se sabe dando-lhe dimensão.

Os investigadores, por isso, não devem ter zonas de conforto, mas aprender formas de sobrevivência nas áreas de conflito em que se vão movendo.

Na história que vivemos, a visita de outros tempos da evolução humana é inevitável. Não tanto pelo mero exercício da História, mas muito mais pelo da construção das ideias que dela herdamos, como necessidade e inspiração. É que o passado ajuda a pensar o presente; muito do que achamos ser crítica não passa de espontâneo juízo de valor, sem outro alicerce que não o da ignorância muito débil e isso é de evitar.

É o que temos encontrado nas análises sobre religião, sobre confrontos ditos religiosos, sobre guerras que brandem a palavra como se soubessem o que contém. É a necessidade de ver a história e o que nos ensina, de modo a repudiar as mentiras que algumas opiniões querem impor-nos como alternativa.

Há dias, li o editorial do Philipe Conrad, na Nouvelle revue d´Histore, apresentando o conteúdo da sua revista construída sobre a ideia do reconhecimento dos povos fundadores da Europa. É um editorial que vem ao encontro do que digo e que faz ressaltar a necessidade de aprendermos para podermos perceber o que nos rodeia. Conrad fala de povos que fizeram a Europa mas que, partindo daqui, foram fazer os Estados Unidos da América, que não se ficou apenas pela recepção de migrantes europeus até aos dias de hoje.

Muitos desses povos fundadores eram migrantes. Do Neolítico à Idade do Bronze, até àqueles que construíram culturas a que chamamos clássicas – gregos, romanos, à cabeça – é de povos da diáspora, da errância, da conquista geopolítica, das movimentações tribais, nacionais, internacionais, de classes ou individuais, cujas razões de movimento foram políticas, económicas, religiosas, étnicas (ou que se deslocaram por mero amor à aventura) que se trata.

Hoje, tememos que a nova Europa saia das novas migrações – mas a realidade está longe de ser inédita. Essas migrações, todavia, não são conflituosas em si – nem sinónimo de violência ou de confronto. Nem ontem nem hoje. Os confrontos vêm de fracturas exactas que os percursos assinalaram, e que resultaram sempre de instrumentalizações e de ideias bem definidas por poucos, usando muitos para obter os seus propósitos.

Escrevi há tempos que, de quando em vez, ocorre-nos o termo apocalipse, apokálypsis, revelação, a propósito de acontecimentos novos, violentos, que alteram o só aparente curso calmo do que nos é contemporâneo. A barbárie ganha terreno em certas alturas, é mais do que certo. E deixa marcas de sangue e cicatrizes sobre a pele sensível daqueles que torna miseráveis. A Europa conhece bem esse sintoma, emergente nos seus mais nefastos momentos de morte, só nos últimos cento e quinze anos viu duas guerras mundiais, as revoluções russa e iraniana, a guerra da Bósnia, os atentados terroristas da Eta, do Ira, dos Baader-Meinhof, das Brigadas Vermelhas, dos separatistas chechenos, entre muitos outros exemplos a que se junta a assustadora escalada da direita e da extrema direita a reocupar estatutos de um poder que se julgava perdido e privilégios que a história escrita pelos mais ingénuos considerava destinados a não se reabilitarem.

A verdade é que a Europa mediática aproveita agora os noticiários oportunos em que os Talibã no Afeganistão e no Paquistão, o Boko Haram na Nigéria, o Al Shabab no Corno de África, cuja ‘ideologia’ é apenas o poder político e o dinheiro, para fazer esquecer o gérmen da barbárie que sempre alimentámos no ocidente e que contagiou todo o globo.

A angústia (de uma faceta cultural, assente em valores) é assistir à emergente nova cultura, desprovida de plataformas, onde o elemento dinâmico é, ao mesmo tempo, desconsolador: uma deriva propulsionada pelo Eu em direcção ao que é insensato, catastrófico, desenfreado, mortal.

A Europa viu o seu declínio em muitos espelhos, também na ideia medíocre de que é nos mercados que se joga o futuro da civilização, e na austeridade que se amordaça os povos e os assalta, para com o seu dinheiro restaurar bancos falidos por erros de estratégia, de gestão e de ambição política míope e cruel. Um percurso doentio, esquecendo o Homem e os seus valores mais elevados, retirando-lhe o pundonor, a auto-estima, a qualidade humana no que tem de mais louvável. Mas outro tanto se passou na América – que aparentemente nasceu dos emigrantes radicais expulsos da Europa no século XVI e das grandes debandadas de europeus (de anglo-saxões e protestantes) no século XIX e que hoje se entende também como o porto de abrigo de muitos asiáticos e latino-americanos que fazem a massa aglutinadora da nova sociedade americana.

As “massas”, essa forma mais ou menos anónima de ideias convencidas de que a sua força está no desinteresse pelas instituições a que se subordinam – e não na capacidade de transformar as mesmas – passeiam-se pelas sombras moribundas do desencanto e permitem que a barbárie ganhe expressão, ao abrigo de falsos biombos que quer dar a mostrar como ideologia profunda ou religião de força feita.

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