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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

É Natal: pobre peru!

Luís Fernando, em Luanda
Jornalista, correspondente do Tornado em Angola

 

O velho e pobre peru do Natal

O clã Mayamona, bafejado pelo milagre da reunificação, entendeu que aquela era a melhor oportunidade em anos para se elevar a satisfação ao clímax, pelo que a morte do galiforme aconteceu com o fatalismo tranquilo das catástrofes anunciadas.

Custou muito ao ancião Bento Mayamona e à filha Inês aquele momento do dia, quando o peru foi sentenciado sem direito a qualquer recurso e subiu ao cadafalso, bêbado como uma cuba, a maneira como há muitos anos sempre se soube que morreria um dia, para proporcionar carne tenrinha aos seus protectores a prazo. Teve de ser um matulão residente muitas ruas abaixo, escolhido como quem é incumbido de uma missão ultra-secreta de uma força de elite, a executar os dramáticos passos que acabaram com a vida do desafortunado bicho.

Pai e filha resguardaram-se num ponto afastado do cenário sangrento, de onde se recusaram a sair, quando a criançada em alvoroço festivo lhes foi gritar para não perderem o espectáculo divertido de uma ave ébria às voltas e cambalhotas.

À hora da consoada, Inês e o pai tiveram de lidar, inevitavelmente, com as agruras do reencontro que protelaram pelo tempo que foi possível. Saíram vencedores do desconforto de terem de gravar na memória as macabras imagens do bicho que por anos fez parte do espólio vivo do clã, o peru abatido, o peru por depenar, o peru depenado, o peru no tabuleiro de pança para o ar, o peru tostado, mas os salamaleques em família impediram-nos, como já se sabia que sucederia, de se furtarem à ceia da noite mais aconchegante do ano.

Sentaram-se lado a lado de propósito, para poderem fazer comentários em voz baixa sobre o drama que os corroía silenciosamente. Lamentaram que a vida seja regida por uma cadeia alimentar implacável, com o Homem no topo, e onde a regra é tão simples quanto atroz: morre-se para deixar viver.

Perderam-se pai e filha em milhentas observações sobre a rigidez do princípio existencial, sempre com um tom crítico, áspero, sem coragem, contudo, para dirigir a sua revolta contra algo ou alguém em concreto; pensaram no bife, o comum e corrente bife levado à mesa, e notaram que sempre que um pedaço se estende no prato, inerte, um bovino deixou de viver algures, por uma decisão humana tomada sem outra legitimidade que não seja a de liderar o controverso escalonamento conhecido na Natureza como cadeia alimentar.

Lembraram com lágrimas nos olhos o dia em que o animal lhes tinha sido oferecido por um logístico militar amigo da família, ainda filhote, e as peripécias que foi alimentá-lo de acordo com as indicações deixadas pelo oficial do exército. Não abundando na aldeia criações de peru, na verdade um exclusivo de apenas mais duas ou três famílias, constituiu sempre uma aflição obter quirera de milho, leite desnatado, ovos cozidos picados, verduras, pão com leite e ração rica em proteínas, o luxo gastronómico que a solitária ave requeria para contornar a desnutrição que, em regra, abre caminho a um leque variado de enfermidades e outras complicações.

Comparado com os outros elementos da criação caseira – galinhas, patos, porcos, cabritos, carneiros, coelhos e porcos da índia – o peru viveu sempre num oásis elitista, vendo partir para a degola, indiferente a tudo, os vizinhos territoriais nos assustadiços dias festivos.

As postas apetecíveis a que agora estava reduzido, constituíam o destaque dos muitos pratos servidos na extensa mesa de família para a refeição em homenagem a Jesus Cristo, prontos para seguir o caminho do estômago e assim cumprirem o seu bíblico papel de sustento do Homem, descrito nos Génesis 9, 1-3: «E abençoou Deus a Noé e a seus filhos e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra. E será o vosso temor e o vosso pavor sobre todo o animal da terra, e sobre toda a ave dos céus; tudo o que se move sobre a terra, e todos os peixes do mar, na vossa mão são entregues. Tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso mantimento; tudo vos tenho dado como a erva verde».

in “Silêncio na Aldeia” | 2015

O autor escreve em PT Angola

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