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Sexta-feira, Agosto 19, 2022

Por “ideologia do perdão”, evangélicas se calam sobre violência

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Reportagem do UOL divulga a criação de um grupo de trabalho composto por 20 mulheres, entre pastoras e líderes evangélicas do Espírito Santo, com objetivo de debater dentro das igrejas a violência doméstica e de gênero, que atinge boa parte dos lares evangélicos.

Muito importante a criação desse grupo de evangélicas, principalmente no momento em que vivemos no país de crescimento avassalador da violência de gênero e doméstica como mostra o 13º Anuário de Segurança Pública (do Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e de forte divulgação do pensamento reacionário de grupos religiosos fundamentalistas”.

Celina cita o crescimento de 4% dos feminicídios e dos estupros registrados em 2018, em relação aos ocorridos em 2017. Além do mais, “comprovou-se mais uma vez que a maioria das violências acontece dentro de casa – e sobre os estupros mais da metade das vítimas têm menos de 13 anos”.

O livro A Igreja Sem Voz – Análise de Gênero e Violência Doméstica Entre as Mulheres Evangélicas, da teóloga Valéria Cristina Vilhena, de 2016, provocou a formação desse grupo. A autora afirma que em seus estudos na Casa Sofia – que acolhe vítimas de violência doméstica e de gênero em São Paulo – 40% das vítimas se identificaram como evangélicas.

Valéria faz uma ressalva porque ela aferiu esses 40% em seus estudos, mas de acordo com ela, esse “número pode ser maior”: “A cada 4 minutos, uma mulher é agredida no Brasil e não se sabe ao certo quantas são evangélicas”.

A criação do grupo se baseia em números sobre o crescimento da população evangélica no país. Pelo Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de cristãos evangélicos cresceu 61% em 10 anos, em 42.310.000 se declararam evangélicos no país. Atualmente estima-se que já representem 30% da população.

Para Andreia Bolzan, líder de célula da Igreja Batista Evangélica Vitória do Espírito Santo, “é preciso discutir” a violência de gênero “no âmbito religioso porque muitas vezes esses temas são tabus e a negação de qualquer assunto impossibilita o tratamento”.

Ela explica que o objetivo do grupo é levar informação para o maior número possível de evangélicos. Valéria relata a dificuldade de enfrentar o problema porque predomina nas igrejas evangélicas a “ideologia do perdão”. E o objetivo do grupo é desconstruir esse pensamento. “O propósito é conscientizar todos os envolvidos nesse tipo de situação: as vítimas, o agressor e os filhos”, afirma.

Em entrevista ao UOL sobre o seu livro, Valéria reforça a existência dessa “ideologia do perdão” e da culpabilização da vítima. Ela conta o que lhe disse uma mulher que abandonou os seus relatos e o atendimento da Casa Sofia alegando que “eu sofro violência, mas ele também é meu pastor – ele é a voz de Deus na minha vida”.

A teóloga assinala também os conselhos de um pastor, relatados por vítimas de violência doméstica, que se definem como evangélicas: “Seja sábia, fique calada, não enfrente”. Além disso, a “teologia passada é a da obediência ao marido”, diz Valéria.

Mas Andreia afirma que o grupo se propõe exatamente a discutir essas questões e enfatizar a necessidade de se combater a cultura do estupro e de se propagar a cultura da paz. “O papel da igreja, assim como o de qualquer grupo social é o de proteger as vítimas, de trazer a consequência para o abusador, de educar os homens”.

Celina conta que na CTB existem muitas evangélicas e evangélicos – o que “nos leva a apoiar os objetivos desse grupo e de levar esse debate para as nossas seções estaduais e para todos os sindicatos filiados à nossa central. É fundamental discutir a violência contra as mulheres, inclusive dentro das igrejas”.


Texto em português do Brasil


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