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Domingo, Outubro 17, 2021

PS, a mãozinha e Pacheco Pereira

João Vasco AlmeidaA “mãozinha” não é uma mãozinha. António Costa, durante o 21º Congresso do PS, este fim-de-semana em Lisboa, disse: “Gosto muito do emblema da mãozinha, mas o maior disparate que se pode fazer é, em nome do emblema da mãozinha, sacrificar a gestão de uma cidade”. Só este Secretário Geral e Mário Soares podiam dizer isto. Costa teve no Congresso, como no governo, a amabilidade de estar acima de suspeitas sobre o seu pendor social e democrata. Nenhum militante suspeitará de que é menos à esquerda do que o PSD.

Mas o símbolo “da mãozinha” não é da mãozinha. É um punho erguido. Significa resistência pacífica e solidariedade perante a opressão. Não é um cromo doirado na colecção de cromos icónicos. Costa pode ser iconoclasta e até tem no pathos legitimidade. Só que o seu amigo Pacheco Pereira foi à FIL, só aparentemente alinhado, dizer uma coisa simples: o programa do PS não tem nada socialista lá dentro. Disse o historiador: “No PS há centro-esquerda, mas não há socialismo”.

A mãozinha apareceu no discurso de Costa para justificar o apoio do PS a Rui Moreira, actual presidente da Câmara do Porto e putativo sucessor de si mesmo. Está visto que vai a votos apoiado pelos socialistas. Mas Rui Moreira ainda não mereceu que se chame, ao punho, a manita…

O socialismo na gaveta do PS, no tempo de Soares, e o punho na gaveta, de Costa, são sinais de tempos em que o mundo se radicalizou tanto à direita que os líderes dizem estas coisas para justificar que percebem o que se passa e até pedem desculpas por não conseguir cortar a direito.

Pacheco Pereira pode ir à FIL justificar a mão frouxa: o PSD já não liga pevide à social-democracia e a esquerda à esquerda do PS ou é conservadora ou vive no caos em que estava a cabeça de Trotsky – ou treinava forças militares feras ou se dedicava ao pacifismo.

A mão que regulará o mundo - propaganda proletária
A mão que regulará o mundo – propaganda proletária

Pode ser um pormenor, esta questão simbólica. É, decerto, parte de uma estratégia de comunicação política de Costa, dizendo que a cidade e o país estão à frente do partido.

Mas não é uma mãozinha. É um punho fechado e erguido, ainda por cima o esquerdo, da paz e da sabedoria, do ser solidário e da velha deusa Ishtar, dos republicanos espanhóis e da união dos trabalhadores contra o domínio do patronato e do grande capital que os explora. É mais idólatra que a rosa, finalmente cortada pelo PS em Lisboa nos últimos dias, com a confrangedora ida a palco de Guterres,  que só pedia que o deixassem em paz.

A legitimidade do Governo e o trabalho de Costa, que se têm batido por uma sociedade mais justa, mais capaz e mais livre, não merecia o dislate da mãozinha. Estejamos atentos, portanto. A única coisa que ainda divide o PS de Costa do de Assis é bem capaz de ser o punho de um contra a mão estendida de outro.

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