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Quinta-feira, Setembro 29, 2022

Que tal um samba de Chico Buarque para o Brasil dar a volta por cima?

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

O que pode um gênio como Chico Buarque em tempos tão sombrios, onde fica difícil vislumbrar a esperança? Quando parece impossível de acontecer é que acontece. E Chico volta a mostrar toda a sua genialidade em descrever o tempo vivenciado com uma categoria impressionante, sem deixar de prever um futuro carregado de esperança na capacidade de superação de todo o mal. Sabendo que é preciso ir muito além.

Que tal, portanto, “puxar um samba porreta/Depois de tanta mutreta/Depois de tanta cascata/Depois de tanta derrota/Depois de tanta demência” canta Chico Buarque em Que Tal Um Samba?, partilhada na internet para divulgar seu novo disco, depois de cinco anos longe da música.

Período no qual lançou o romance Essa Gente (2019) e o livro de contos Anos de Chumbo (2021), quebrando uma regra estabelecida por ele de intermediar lançamentos de livros e discos.

Que tal esse samba meio chorinho, meio música cubana, esse samba sincopado. E que tal uma poesia com a certeza de que tudo passa, inclusive todo esse mal que parece se eternizar, mas que tem prazo de validade determinado para ser enterrado definitivamente.

A melodia de um samba e uma poesia para deixar para trás “toda derrota”, todo 7 a 1 e “toda a demência” fascista, fruto da mentalidade escravocrata enraizada na casa grande. Mas tudo pode ruir e o novo surgir do ruído de quem vive do trabalho e sonha com uma vida decente.

Essa elite dominada pelo ódio de classe, pela misoginia, pelo racismo e pela LGBTfobia. Essa parte da elite que pensa ser europeia e odeia o Brasil e o povo brasileiro. Essa elite que odeia o samba, o funk, o rap, e toda a expressão popular da cultura desta nação.

Uma gente que não mede esforços para tentar mostrar a sua “superioridade” na base da força. E tome porrada em quem discordar. Uma elite que já não disfarça a sua mentalidade escravocrata.

Então, que tal um samba para recuperar a delicadeza e o sentimento humanitário escondidos pela baba fascista. “Um samba pra alegrar o dia/Pra zerar o jogo/Coração pegando fogo/E cabeça fria/Um samba com categoria, com calma”.

Um samba que cante a alegria, a mudança e porvir, cada vez mais sobressalente. Um samba “para espantar o tempo feio”. Mas não basta cantar esse samba. Tem que caminhar junto com todo mundo que já aderiu à mudança. Um número cada vez maior de pessoas que voltam a sonhar com uma vida tranquila, em paz.

E com esse samba, fazer um filho para ver crescer “num bom lugar, numa cidade legal”. A infância protegida pela família, pela sociedade e pelo Estado. As crianças na escola, nas praças e nos parques e em segurança. A infância longe do trabalho, dos abusos e da violência.

Um samba para desfazer a ideia de que é natural tão poucos terem tanto e a imensa maioria não ter nem o que pôr no prato para se alimentar e alimentar os filhos.

Justamente um samba, o gênero musical genuinamente brasileiro mais popular do país. Renegado e menosprezado pela mesma elite defensora da eugenia.

Com este samba, mais uma vez, Chico Buarque entra em cena para resgatar a poesia, a música e o sentimento de que toda gente que vive do trabalho pode transpor o “tempo feio” e recuperar a delicadeza, o sonho e a vontade de viver e deixar viver.

Que tal um samba de Chico Buarque para sacudir toda a poeira espumante do ódio e dar a volta por cima para reconstruir o mundo da cultura da paz, da delicadeza, da generosidade, do respeito e do sentimento de fraternidade, não como retórica, mas como fundamento. Para resgatar o Brasil do desastre de um desgoverno sem rumo e sem prumo.

Então vamos cantar:


Texto em português do Brasil

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