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Segunda-feira, Fevereiro 6, 2023

Racionais MCs: documentário traz o grito da periferia contra a violência e o ódio

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Os quatro componentes dos Racionais, com tudo contra, conseguiram transformar o grupo num dos mais importantes da música popular brasileira.

Contar a trajetória dos Racionais MCs não é tarefa simples pela complexidade de sua obra e da vida dos quatro integrantes do grupo de rap de São Paulo. A cineasta Juliana Vicente consegue tal façanha com maestria ao mostrar a vida na periferia como ela é, na maior cidade do país, em 116 minutos.

A história de vida de Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock, integrantes do grupo, mistura-se com a vida infernal da periferia em grandes cidades como São Paulo. E o inferno está na ausência do estado e, portanto, de políticas para o atendimento das necessidades das pessoas, ainda mais dos jovens, sem espaço para expressar os seus desejos, as suas necessidades.

O documentário Racionais: Das Ruas de São Paulo Pro Mundo (2022), na plataforma de streaming Netflix, conta a vida do grupo e a falta de tudo na periferia. Falta de investimentos em tudo. O que sobra para a juventude é a rua para expressar toda a sua potencialidade, seja com a cultura, seja de outras formas menos enobrecidas.

A história contada nas entrevistas com os integrantes do grupo é um panorama da história dos jovens pretos e pobres de todas as periferias das grandes cidades. Denota também a força do movimento hip-hop, de origem estadunidense, que se espalhou ao conquistar a juventude dos bairros operários de todo o mundo.

O encadeamento dinâmico dado ao filme aponta as consequências da mentalidade escravocrata fortemente presente na sociedade brasileira e como os policiais de hoje agem tal qual os capitães de mato de outrora, ou até pior, por se acharem “autoridades” inquestionáveis; principalmente nas periferias onde agem com ódio visceral.

Veja o trailer de Racionais: das Ruas de São Paulo pro Mundo

O rap é a expressão musical do hip-hop que deu perspectivas de vida a uma juventude que não possuía nenhuma. Nítida a necessidade de políticas públicas que marquem com a presença do estado nas periferias de forma distinta da repressão, pela violência policial.

O documentário mostra como o ódio dos policiais ao grupo foi nutrido pela porrada de suas canções com poemas diretos e contundentes. Um soco no estômago da consciência de uma sociedade dominada pelo racismo e pelo ódio de classe. Em mais de 30 anos de carreira, os Racionais colecionam conflitos com a polícia paulista como a violência desmedida ocorrida na Virada Cultural paulistana, em 2007.

Como em Diário de Um Detento (1995), de Josemir Prado e Mano Brown

“Vários tentaram fugir, eu também quero
Mas de um a cem, a minha chance é zero
Será que Deus ouviu minha oração?
Será que o juiz aceitou a apelação?
Mando um recado lá pro meu irmão
Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão”

“É um dia de felicidade muito grande pra mim. A cidade acordou leve, a quebrada acordou leve, naquela paz, há muito tempo que não sentia isso, momento único”, disse Mano Brown sobre a eleição do presidente Lula, na pré-estreia do filme na Cinemateca de São Paulo, dia 16 de novembro.

rapper fala da importância da eleição de um presidente comprometido com os mais pobres, com a juventude, com as mulheres, a população negra, os povos indígenas, com as pessoas LGBTQIA+. Alguém que valoriza a cultura e combate as desigualdades e o preconceito.

Fórmula Mágica da Paz (1995), de Edi Rock e Mano Brown  e a ideia de resistência do grupo

“É muito fácil fugir, mas eu não vou
Não vou trair quem eu fui, quem eu sou
Eu gosto de onde eu vou e de onde eu vim
Ensinamento da favela foi muito bom pra mim”
(Fórmula Mágica da Paz, de Edi Rock e Mano Brown)

“São heróis os quatro, são pessoas que amam, pessoas que fazem, são instrumentos da cultura hip-hop, que mudou gerações e vão continuar mudando, a música dos caras é muito honesta, muito sincera, pra produzir Oitavo Anjo, uma música que fala bastante com as pessoas também, tudo isso aprendi com eles, fazer, a escrever. No fundo, no fundo é só deixar o coração falar, foi isso que o Brown me falou nos anos 90”, conta Dexter.

Como na canção Marighella (Mil Faces de Um Homem Leal, 2012), de Mano Brown, onde o grupo canta que “essa noite em São Paulo um anjo vai morrer/ Por mim, por você, por ter coragem em dizer” sobre o revolucionário Carlos Marighella, assassinado pela polícia da ditadura (1964-1985) em 4 de novembro de 1969. A música faz parte da trilha sonora do filme Marighella (2019), de Wagner Moura.

Fica clara a influência dos Racionais sobre os rappers que vieram depois deles e que esse gênero musical ganhou nuances brasileiras com a mistura de sons, mantendo a pegada firme, dura e direta do rap. Talvez por isso tenha colado tão bem nos corações e mentes dos jovens que sonham com uma vida digna, em meio à miséria quase absoluta. Porque o sonho empurra a humanidade para a luta.

Vida Loka parte 2 (2002), de Mano Brown

“Pode rir, ri, mas não desacredita, não
É só questão de tempo o fim do sofrimento
Um brinde pros guerreiro, zé povinho eu lamento
Vermes que só faz peso na Terra
Tira o zóio, tira o zóio, vê se me erra
Eu durmo pronto pra guerra e eu não era assim
Eu tenho ódio e sei que é mal pra mim
Fazer o que se é assim? Vida loka, cabulosa
O cheiro é de pólvora e eu prefiro rosas
E eu que, e eu que sempre quis um lugar
Gramado e limpo, assim, verde como o mar
Cercas brancas, uma seringueira com balança
Desbicando pipa, cercado de criança”

Racionaisdas Ruas de São Paulo pro Mundo nos remete a compreender mais do que o mundo do hip-hop, mas toda a vida sofrida, e ao mesmo tempo esperançosa, onde há muito pouco para se ter esperança de algum futuro. Mas a vida brota em todos os cantos e o canto dos Racionais nos leva à resiliência e a entender o papel da cultura e da arte na vida das pessoas. A necessidade de sobreviver mesmo que no inferno. Porque Periferia É Periferia (1995), de Mano Brown:

“A revolta deixa o homem de paz imprevisível.
Com sangue no olho, impiedoso e muito mais.
Com sede de vingança e prevenido.”

O documentário tem a força da arte com vontade de mudar o mundo. Mostra que os quatro componentes dos Racionais com tudo contra conseguiram transformar o grupo num dos mais importantes da música popular brasileira. Também mostra a necessidade que a humanidade tem de viver com arte.

A cineasta

Fotomontagem/Divulgação

Juliana Vicente é diretora, roteirista, produtora e fundadora da Preta Portê Filmes. Iniciou sua carreira com o curta Cores e Bota (2010), exibido mundialmente em mais de 100 festivais. Integrou o grupo do Berlinale Talents (2015), no Festival de Berlim, mesmo ano em que foi premiada com a coprodução A Terra e a Sombra, no Festival de Cannes. É criadora e diretora da série Afronta! (2017), disponível na Netflix.


Texto em português do Brasil

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