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João de Sousa

Sexta-feira, Setembro 30, 2022

Requiem

Garcia Pereira foi suspenso do PCTP/MRPP a 5/10 sob as acusações de “social-­revisionista”, “social-­fascista” e oportunista”. Facto!

Desde então que têm sido publicados diversos artigos no jornal do partido (Luta Popular Online) sobre esta questão e a luta “contra o liquidacionismo”. Facto. Artigos esses que têm vindo a ser publicados de forma cirúrgica e a conta gotas diário, com acusações que extravasam em muito a crítica política, passando já pelos ataques às áreas profissional e pessoal de Garcia Pereira. Facto. Agora até já há apelos à sua agressão ou até mesmo eliminação física. Facto. E isto sob a infâmia de lhe pretenderem atribuir a autoria de pretensos factos que quem o conhece sabe perfeitamente que sempre foi (e sempre será) incapaz de praticar, mesmo relativamente ao mais feroz ou reles dos inimigos.

Até hoje, o meu marido optou pelo silêncio. E eu tentei, com todas as minhas forças, respeitar o seu silêncio, fazendo eco dele. Com muito esforço pessoal pois, como pessoas diferentes que somos em muitas coisas, a minha massa não é a sua nem é meu o seu modo de reagir perante as adversidades. Afinal, existem mais de 20 anos entre nós, 20 anos de idade, de vida muito vivida, de experiências muito diferentes. E da única vez que quebrei esse silêncio com dois comentários que fiz na página de facebook de uma amiga, o que daí resultou foi que essas mesmas palavras foram logo usadas como instrumento de ataque a Garcia Pereira, exigindo que ele se demarcasse totalmente das palavras por mim escritas sob pena de ser considerado, efectivamente, um “anti-­comunista primário”, um inimigo do partido. E tornando claro o cerco: se ele responder, será um provocador a merecer a expulsão do partido; se se calar, é um provocador que permite que o partido seja atacado; se qualquer outro fala, o discurso é encomendado e portanto não passa de um provocador e de um covarde!

No entanto, e embora tenha mantido o meu silêncio desde então, considero que é chegado o momento de o quebrar definitivamente, mesmo contra a vontade de Garcia Pereira que apenas lerá este texto, se o ler, quando for publicado. Não para substituir esse silêncio por palavras de ataque ou cobardes feitos sob a capa do anonimato ou para fazer uso de mentiras como outros o têm feito (a verdade, neste caso, seria tão mais interessante, acreditem, e acabará por ser revelada, um dia!). Tão pouco descerei ao nível de seres inferiores fazendo uso de palavras como traidores, mitra, nojentos, dejetos, masturbação, sonsas, ressabiadas ou ratazanas, entre outras, apesar de alguns destes epítetos escritos em artigos publicados no Luta Popular Online se dirigirem à minha pessoa. Mas aprendi ao longo da minha vida que devemos sempre desprezar quem faz uso deste tipo de palavreado pois regra geral escondem a falta de argumentos sobrando apenas o insulto. E, por outro lado, porque tenho perfeitamente noção que os insultos não foram escritos para me atingirem a mim, mas antes eu sou um veículo para atingirem Garcia Pereira.

Assim, porque falo eu agora? Porque não posso mais manter-me em silêncio quando vejo uma Pessoa como Garcia Pereira ser atacada de forma tão vil, baixa, cruel e, acima de tudo, injusta. Porque não posso mais ficar calada quando percebo que o seu silêncio começa a ser interpretado por vários como concordância com o que tem sido dito sobre ele. Que estas minhas palavras serão deturpadas e usadas, uma vez mais, para o atacar, isso já o sei. Mas a minha consciência e a paz em que preciso de estar comigo própria é superior a quaisquer ataques vis, e é mesmo superior a qualquer pedido do meu marido para que não comente o assunto (que não comentamos entre nós, para alguma infelicidade minha e ao contrário do que muitos pensam).

Garcia Pereira foi suspenso do MRPP. Não contesto nem comento. Não sou, nem nunca fui, militante no MRPP, ao contrário do que acham 99% das pessoas quando me sabem casada com Garcia Pereira. Votei, sim, no MRPP, quando a minha consciência política me disse para o fazer. Por isso não comento a sua suspensão.

As suas falhas políticas podem ter sido várias, mas uma coisa eu sei, assim como todos aqueles que o conhecem. Quaisquer erros políticos (e sublinho o políticos) cometidos, nunca foram feitos com a intenção de deitar abaixo o partido para o qual exerce actividade desde os 19 anos. Sim, desde os 19 anos! Quaisquer erros cometidos, não tiveram nunca a intenção que agora lhe querem dar. Antes pelo contrário! Fosse Garcia Pereira um oportunista e há muito estaria sentado na Assembleia da República. Fosse Garcia Pereira um oportunista e estaria ele muito melhor na sua vida em termos financeiros. Fosse Garcia Pereira um oportunista e teria decerto muitos mais clientes. Sim, porque ao contrário do que muitos gostam de afirmar de forma provocatória e sem conhecimento de causa, no exercício da sua actividade profissional de Advogado, na qual é generalizadamente respeitado não só pela sua combatividade em defesa dos mais fracos mas também pela sua lealdade e superioridade de carácter, se aceitasse abandonar tal postura e tais princípios, há muito que teria a situação, nomeadamente financeira, que os provocadores sempre lhe quiseram atribuir!

garciapereira
António Garcia Pereira e Arnaldo Matos (da esquerda para a direita)

Mas aos olhos de quem mando eu areia? Arnaldo Matos, o ser que se encontra por detrás de todos estes ataques, tem perfeitamente conhecimento das qualidades de Garcia Pereira e da injustiça destes ataques mas é ele quem verdadeiramente os dirige. O mesmo Arnaldo Matos que as gerações mais novas não conhecem mas que foi um dos fundadores do MRPP; o mesmo Arnaldo Matos que fazia telefonemas de Parabéns a Garcia Pereira após várias das suas intervenções no programa semanal em que participava na ETV; o mesmo Arnaldo Matos que aplaudia e elogiava publicamente várias intervenções do meu marido; o mesmo Arnaldo Matos que se deslocou a Évora para ver, ao meu lado, o meu marido receber o prémio de Excelência Política; o mesmo Arnaldo Matos que empurrou o meu marido para a frente das câmaras como figura principal do partido acusando-­o agora de ter tornado o MRPP o partido de Garcia Pereira; o mesmo Arnaldo Matos que criou o slogan “Morte aos Traidores” e que agora o usa contra Garcia Pereira; o mesmo Arnaldo Matos que orientou as decisões tomadas no seio da Direcção do partido e que agora as critica; o mesmo Arnaldo Matos que escreve agora textos cujo estilo é absolutamente inconfundível mas que os dá a assinar a outros seres que nunca os conseguiriam escrever. E tanto mais haveria a dizer! E será dito, um dia!

E perguntamo-­nos, porque continua Garcia Pereira calado? Na verdade, um Homem que é acusado com mentiras e insultos tão baixos mas que se recusa a desmenti-­las (por enquanto) para que não exista, em seu nome, uma cisão no partido no qual sempre militou, um Homem que se recusa a receber actos de solidariedade por não aceitar que em seu nome o MRPP, que agora o trata desta forma, seja atacado, não é de todo sinónimo de cobardia ou sinal de concordância com os ataques e mentiras perpetrados. É antes uma qualidade hoje muito esquecida e muito pouco valorizada: Honra!

Garcia Pereira é um Homem de Honra! E Arnaldo Matos sabe disto e usa-­o em seu proveito. E aqueles que aguardam que ele se erga e que venha fazer ataques ao MRPP (incluindo a comunicação social que no entanto vai assistindo ao assassinato de uma figura pública que nunca lhes foi grata em silêncio e sem fazerem a mínima investigação), podem esperar sentados! Mesmo quando não concordava com alguma decisão tomada no seio do Partido, Garcia Pereira sempre a defendeu como sua. E isto apenas fazem os Homens honrados e leais.

Aquando dos 60 anos de Garcia Pereira organizou-­se uma homenagem pela sua vida até então e quando se pediu aos amigos, familiares e camaradas (alguns dos quais aceitam agora pactuar com estes ataques pessoais), as palavras mais apontadas foram honra, lealdade e coerência. E são estas características que lhe são reconhecidas por muitos daqueles que já se cruzaram no seu caminho, mesmo de diferentes quadrantes políticos, da esquerda à direita. São estas características que têm de lhe ser reconhecidas por qualquer pessoa que seja ética e séria. Defeitos, tem vários. Mas são seguramente outros que não o da incoerência e muito menos o da cobardia.

As pessoas que agora o atacam esquecem-­se de que a massa de que ele é feito não foi forjada no MRPP. Nesse partido ele apenas encontrou uma casa para desenvolver os valores que defendia e os sonhos que tinha. A sua massa foi antes forjada no aço do carácter de Pessoas como o avô Pestana Júnior (Ministro da I República, Advogado e combatente republicano) e de Pessoas como a mãe, a D. Maria Emília. A sua massa foi forjada no ferro de carácteres como o de Francisco Pestana Júnior (tio Chico) e o do Coronel Eugénio de Oliveira (nosso querido e saudoso Janito). Pessoas que lhe transmitiram muito bem que os valores e princípios não se vendem, não se trocam, que não se responde às infâmias com ataques igualmente baixos e que nada é superior nem nada é mais importante que ter uma coluna direita.

Garcia Pereira, no meio desta terrível injustiça, continua assim a ser fiel aos princípios em que foi educado e apesar de que parte de mim gostaria (e gostaria muito) que ele reagisse de uma forma bem diferente, não posso, em honestidade, deixar de juntar o meu orgulho ao do Avô Pestana, ao da Mãe Emília, assim como ao do Tio Chico e do Primo Janito que, sei-­o bem, se estivessem hoje vivos, estariam cheios de orgulho dele.

Com tudo o que se está a passar, há apenas uma leitura óbvia. Com o pedido de denúncias sobre ele (ao pior estilo inquisitorial), com as mentiras que agora são publicadas, com as “identificações” entre ele e Belmiro de Azevedo, com os ataques baixos a resvalar para a crueldade (como o de se exigir que ele se venha retratar do que a mulher escreveu há dias no facebook onde se “masturba com as amigas”, mostrando que não está do lado das “ratazanas de esgoto”), com os “deletes” das suas fotografias e vídeos do jornal do partido, aquilo a que se assiste não é mais nem menos que a um assassinato público de uma Pessoa em todas as suas vertentes: política, profissional e pessoal.

É um objectivo que fica a cada dia mais claro: mediante o recurso à infâmia mais degradante não apenas para o enlamear política mas também profissional e pessoalmente, aniquilar totalmente o “inimigo”, obrigá-­lo à difícil decisão de demissão do Partido onde militou uma vida inteira e em nome do qual passou para segundo, terceiro e quarto plano todas as outras áreas da sua vida.

Na verdade, há muito quem saia a perder. Sai a perder o partido. Saem a perder os camaradas que com ele militaram, alguns dos quais lhe chamam agora cobarde aceitando no entanto assinar textos que nem sequer foram eles que escreveram, mas sim Arnaldo Matos, e onde se criticam decisões nas quais eles próprios participaram. Sai a perder o pretenso pai que disse um dia que ele era um filho para ele. E, em última instância, sai a arena política do País a perder.

Mas talvez eu, como sua mulher (há 10 anos), os filhos (com grande ênfase nos filhos) e os seus Amigos (os verdadeiros que nunca o abandonaram) possamos agora recuperar o tempo que, embora com admiração e respeito pela sua opção de vida, nos foi na verdade roubado.

Por tudo isto, por muito mais que aqui não disse e por tudo o que fica nas entrelinhas, e se quisesse agir como aqueles que aqui critico, poderia pensar em terminar este texto com o título do livro de Boris Vian, “Hei-­de cuspir-vos na campa”, mas não consigo sequer dar-­me a esse trabalho de o fazer, ou sequer, de o sentir. A minha educação não foi essa e disso sinto-­me orgulhosa.

Termino antes lembrando as palavras do próprio Arnaldo Matos, aquando da homenagem organizada a Garcia Pereira pelo seu 60º aniversário, no passado ano de 2012. (Nota do Editor: ver vídeo abaixo)

Texto de  Sandra Pereira Vinagre, Investigadora na Universidade de Lisboa

Nota do editor:

Este artigo perdeu as partilhas, iniciais, do facebook por razões técnicas, tendo estas atingindo o número de 1,1K.

À autora, e aos leitores que procederam às partilhas, pedimos as nossas sentidas desculpas.

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