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Quinta-feira, Julho 25, 2024

“Retratos Fantasmas”, filme do brasileiro Kleber Mendonça Filho, na secção de documentários do Festival de Valladolid

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

A secção ‘Tiempo de Historia’ é a área de programação especialmente dedicada pela SEMINCI à exibição de documentários. Não obstante, esse tipo de filmes estão, presentes noutras secções do certame, desde logo na secção oficial onde podemos encontrar este ano Les Filles d’Olfa (As Quatro Filhas) de Kaouther Ben Hania, prémio ‘Golden Eye’ para o melhor documentário no Festival de Cannes.

Depois de ter competido na secção oficial de Cannes, Retratos Fantasmas, do cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, aparece agora em Valladolid em ‘Tiempo de Historia’.

Este realizador já esteve na SEMINCI em 2016 com Aquarius (aqui designado por ‘Doña Clara’).

Recorde-se que Aquarius foi um filme premiadíssimo em vários festivais o mesmo tendo acontecido com Bacurau (2019) que, entre outras distinções, obteve o Prémio do Júri no Festival de Cannes.

Depois de ter passado em Cannes, de ter encerrado o Curtas de Vila do Conde e de ter estreado em Portugal no passado mês de Julho, Retratos Fantasmas foi escolhido como representante do Brasil na corrida ao Oscar do melhor filme internacional.

Nele, Kleber Mendonça Filho mostra ao espectador a sua cidade natal, Recife, através de uma ‘viagem’ no tempo pelos cinemas da capital pernambucana. Sete anos de trabalho e pesquisa que redundam no retrato de uma cidade através dos cinemas que nela existiram. Retratos Fantasmas é um comovedor exercício de cinefilia e de resgate da memória.

As outras longas de ‘Tiempo de Historia’ são:

  • Arsenie. An Amazing Afterlife de Alexandru Solomon (Roménia/ Luxemburgo). O filme, que estreou no Festival de Karlovy Vary, conta não só a história de vida de um monge ortodoxo romeno, místico e pintor, que morreu no ano da queda do regime de Ceauşescu, mas também ‘o culto que nasceu depois da sua morte’;
  • Între Revoluții (Entre Revoluções) de Vlad Petri (Roménia / Croácia / Qatar / Irão), Prémio FIPRESCI no ‘Berlinale Forum’. Este documentário fala-nos de duas amigas que com a sua luta contribuíram para algumas mudanças nos regimes do Irão e da Roménia;
  • La Estafa del Amor, um filme rodado em dois fins de semana por Virgínia García del Pino na Cineteca de Madrid, sobre um grupo de pessoas que discute sobre ‘a detenção de um sedutor profissional’;
  • Malqueridas de Tana Gilbert (Chile / Alemanha). Vencedora da Semana Internacional da Crítica de Veneza, a primeira obra da realizadora foi construída a partir de vídeos gravados ilegalmente por mulheres detidas nas prisões do Chile;
  • My Worst Enemy (O meu pior inimigo) e “Where God is Not” (Onde Deus não está), ambos de Mehran Tamadon (França / Suíça). Dois filmes que se complementam e que giram em volta do mesmo tema, a repressão no Irão, embora construídos de forma diversa e com abordagens distintas. Presentes no Festival de Berlim, o segundo ganhou o Prémio Ecuménico;
  • Notre Corps (O Nosso Corpo) de Claire Simon (França). Presente no Festival de Berlim o filme passa-se numa clínica ginecológica de Paris e convida o espectador a acompanhar as mulheres que ali procuram ajuda;
  • The Mother of all lies (A Mãe de todas as mentiras) de Asmae El Moudir (Marrocos, Arábia Saudita, Quatar, Egipto). Esteve no Festival de Cannes conquistou o prémio para o melhor realizador na secção ‘Un Certain Regard’ e foi co-vencedor do “Golden Eye”, com “As Quatro Filhas”, documentário que está na secção oficial desta SEMINCI. Candidato de Marrocos aos Oscares, The Mother of all lies é uma interessante e dramática abordagem da memória individual e colectiva que parte de uma simples pergunta: ‘Porque é que eu só tenho uma fotografia da minha infância?’;
  • Un Volcán Habitado de David Pantaleón e José Víctor Fuentes (Espanha). Estreada no Festival Visions du Réel (Nyon) esta é uma história intimista, fraternal e emotiva centrada nos acontecimentos que se sucederam durante a erupção vulcânica de 2021 na ilha espanhola de Palma, nas Canárias;
  • Youth de Wang Bing (China). Presente na secção oficial de Cannes o filme acompanha os jovens procedentes dos meios rurais que constituem o grosso da mão-de-obra das fábricas das áreas industriais chinesas;
  • Zinzindurrunkarratz de Oskar Alegria (Espanha). Um caminho, uma velha máquina de filmar e um burro. Oskar Alegria, com a sua super-8, regressa aos caminhos que os seus avós percorreram nas montanhas de Navarra, para registar os ecos de um mundo que já não existe.

 

O júri de “Tiempo de Historia”

O júri de ‘Tiempo de Historia’ é formado pela produtora Montse Triola, pela artista e cineasta Gala Hernández López (premiada nesta secção no ano passado com a curta La Mecanique des Fluides) e por Dario Oliveira, fundador do Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde e do Porto/Post/Doc, certame que dirige desde a fundação.

 

‘Punto de Encuentro’, a procura de novos talentos

O espaço de programação dedicado à divulgação de trabalhos de realizadores em início de carreira recebe na Semana de Valladolid a designação de ‘Punto de Encuentro’. Aqui o espectador tem oportunidade para contactar com abordagens menos comuns, tanto nos temas tratados como nas opções estéticas e formais. Nele são divulgadas primeiras e segundas obras de autores quase todos jovens e, cada vez mais, mulheres.

Nesta edição a presença de cineastas mulheres é esmagadora.

Recorde-se que em 2019 o vencedor de ‘Punto de Encuentro’ foi o luso-suíço Basil da Cunha com O Fim do Mundo.

Nesta 68ª SEMINCI são quinze as longas-metragens que integram este ciclo. A secção integra ainda cinco curtas-metragens.

De entre os títulos selecionados para esta edição sobressai The Quiet Migration, produção dinamarquesa realizada por Malene Choi, uma cineasta nascida na Coreia do Sul mas que cresceu na Dinamarca. Agora com 50 anos, a mais velha dos concorrentes desta competição, Malene Choi foi a vencedora de ‘Punto de Encuentro’ em 2018 com The Return e em 2019 pertenceu ao júri desta secção.

The Quiet Migration, a sua segunda longa-metragem, foi distinguida com o Prémio FIPRESCI da secção Panorama do Festival de Berlim deste ano e tem algo de auto-biográfico. De facto, o personagem central é um jovem rapaz coreano que vive numa zona rural da Dinamarca e que foi adoptado, quando menino, por uma família de agricultores dinamarqueses. Este é um filme sobre gente que tendo nascido num país e crescido noutro sente que não pertence a lado nenhum.

Destaque também para Sweet Dreams de Ena Sendijarević, realizadora bósnia radicada em Amesterdão. A trama do filme decorre na Indonésia, numa altura em que o domínio holandês se aproxima do fim e aborda os acontecimentos que decorrem da morte inesperada do dono de uma plantação de açúcar. Um drama de época que evoca o passado colonial holandês. Swett Dreams, distinguido em Locarno com o prémio de melhor interpretação (Renée Soutendijk) vai ser o candidato dos Países Baixos ao Oscar de melhor filme internacional.

As restantes longas-metragens de ‘Punto de Encuentro’ são:

  • Animal de Sofia Exarchou (Grécia, Austria Roménia);
  • Arthur & Diana de Sara Summa (Alemanha), estr treado na secção Discovery do Festival de Toronto;
  • Gasoline Rainbow dos irmãos Bill Ross IV e Turner Ross (EUA), um ‘Easy Rider na América pós-Trump esstreado na secção Orizzonti do Festival de Veneza;
  • Hello Darkness do duo australiano Soda Jerk (as irmãs Dan e Dominique Angeloro), um filme ‘inclassificável’, uma história que se diria surrealista composta a partir de 300 excertos de vídeos;
  • Hoard, primeira obra de Lina Carmoon (Reino Unido), duplamente premiada na Semana Internacional da Crítica de Veneza;
  • Muyeres de Marta Lallana (Espanha), a história de um homem que abandona tudo e percorre as montanhas das Astúrias para preservar a a cultura das velhas mulheres que ali moram. Grande Prémio do Júri e Prémio da melhor fotografia no Festival de Xangai;
  • Negu Hurbilak do colectivo Negu (Espanha), menção especial no Festival Locarno, inspirada numa canção Mikel Laboa, o patriarca da música basca, conta a história de uma jovem ligada aos grupos independentistas bascos que se esconde numa aldeia junto da fronteira com a França quando a ETA anuncia o fim da actividade terrorista;
  • On the Go, um ‘road-movie’ de María Giséle Royo e Julia de Castro (Espanha), menção especial do Júri da Juventude do Festival de Locarno;
  • One Last Evening de Lukas Nathrath (Alemanha), estreado no Festival de Roterdão;
  • Sirocco et le royaume des courants d’air de Benoît Chieux (França / Bélgica), um filme de animação, Prémio do Público no Festival de Annecy;
  • Stepne de Maryna Vroda (Ucrânia / Alemanha / Polónia/ Eslováquia). Esta é a primeira longa-metragem de uma realizadora ucraniana que, em 2011, ganhou a Palma de Ouro de Curta-Metragem do Festival de Cannes. “Stepne” estreou no Festival de Locarno ponde obteve o Prémio para amelhor realização e o Prémio da Crítica;
  • The Cage is looking for a bird de Malika Musaeva (Mónaco / Rússia), exibido no Festival de Berlim, um filme passado na Tchetchénia, país natal da realizadora;
  • The Feeling that the time for doing something has passed de Joanna Arnow (EUA), exibido na ‘Quinzena dos Realizadores’ de Cannes.

 

O júri de “Punto de Encuentro”

O Júri de ‘Punto de Encuentro’ formado pela britânica Helen de Witt, comissária de eventos relacionados com o cinema de autor e independente, por Pucho, vocalista e líder da banda madrilena ‘Vetusta Morla’ e pela portuguesa Ana Isabel Strindberg, programadora do Indielisboa e directora de Portugal Film.

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