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João de Sousa

Domingo, Outubro 17, 2021

Revisando o cinema de Jacques Rivette

A obra do cineasta francês Jacques Rivette e a nova produção de Helder Pessoa Lopes, que contará a biografia do compositor J. Michiles.

Se Jacques Rivette fosse brasileiro, certamente ele seria um paulistano . Isso pela forma de como os paulistanos faziam cinema, nos anos 50, 60 e 70 do século passado. Com uma sofisticação bem presente e também com uma certa dissimulação, que quase seria superficialidade. Isso não significa um cinema sem qualidade, mas com uma qualidade diferente. E Jacques Rivette é um cineasta parisiense que viveu entre os anos 1928 e 2016, cuja produção cinematográfica se deu depois dos anos 1950 e até a sua morte.

Nos anos 1960, quando a ebulição do cinema era bastante grande, não tínhamos a facilidade atual para nos aproximarmos dos filmes. Principalmente aqui no Nordeste brasileiro de onde escrevo. Tínhamos conhecimento do que estava acontecendo no mundo do cinema, mas muito mais por publicações e por notícias que nos chegavam através dos divulgadores das produtoras. Mas os próprios filmes dependiam muito de quanto eles atingiriam de público, para então serem escolhidos, contratados pelas salas de cinema e exibidos. O cinema de Jacques Rivette nunca teve força e atração especial para o grande público, e mesmo como crítico profissional não tenho lembrança de tê-lo assistido a não ser um perdido. Assim é que hoje, quando o site Making Off está colocando à nossa disposição seis filmes desse cineasta parisiense, me parece interessante fazer uma certa revisão. E assim é que vi seus três trabalhos iniciais, “Le quadrille”, “Le divertissement” e “Aux quatre coins”. E três filmes longos “Haut bas fragile”, “L’amour par terre” e “Secret défense”.

Jacques Rivette escreveu durante muitos anos no Cahiers du Cinéma, ao lado de Truffaut, Godard, Rohmer e Chabrol, e formou com eles o movimento conhecido como Nouvelle Vague, que deu novos aspectos ao cinema francês. Foi um crítico de bastante sucesso e certamente foi um cineasta que teve destaque entre os seus companheiros, mas não conseguiu atingir a dimensão dos demais no sentido de divulgação. Tenho a impressão de que mesmo esses três filmes que eu vi agora em suas faces abertas conseguem mostrar: é como acontecia no cinema brasileiro. O cinema carioca sempre conquistou mais fama e divulgação do que o paulistano. Assim, se olharmos para o que fez Truffaut e Godard, temos a ideia de que eles eram carioca e Rivette era um paulistano. Fazia um cinema mais seco e também discreto. Enquanto até mesmo Truffaut fez obras mais encorpadas e densas e mais capazes de chegar a um maior público.

Cena do filme “Haut bas fragile”, de Jacques Rivette

Quando você começa a assistir a um “Paris no verão”, tem a impressão de que vai conhecer um Domingos Oliveira francês, mas, com a continuidade, se chega à conclusão de que o cinema de Rivette tem bem mais consistência, inclusive pela extraordinária produção que ele manteve junto aos seus trabalhos. Sem dúvida, dá a impressão de que a sua produção era bem mais profissional do que mesmo o que conseguiram cineastas tão famosos como François Truffaut e Jean-Luc Godard.

Os três filmes que Rivette chama de “filmes de aprendizagem” são dois médias, cada um deles com 40 minutos de duração, “Le quadrille” e “Le divertissement”. E o terceiro é um curta de 18 minutos de duração. Todos três são “mudos”, isto é, não têm nenhum som, apenas imagens. Não são, porém, cinema mudo como nos primeiros anos do cinema. Um, “A quadrilha”, mostra um grupo de pessoas numa sala e todos em atitude de espera. Como num consultório de um médico, algumas pessoas esperando. A impressão que tenho é que seria melhor se o filme não passasse de sete ou nove minutos, talvez suficientes para mostrar as cenas que o diretor pretendia. Depois disso há um sentimento de repetição. E na última cena, antes um dos participantes dá um beijo numa participante. Talvez o momento mais elétrico desse filme.

Parece que Rivette tentou descobrir uma força na imagem que não dependeria do som para a formação de um produto cinematográfico. O seu cinema posterior rejeita essa ideia e faz do som certamente algo fundamental da obra cinematográfica.

Em “Haut bas fragile”, que no Brasil ganhou o título de “Paris no verão”, temos a junção de uma trama psicológica com uma quase estrutura de um musical. Realmente, temos cerca de sete números musicais e temos a impressão de que o filme quer se apresentar como desse gênero. Embora na verdade não seja. Do ponto de vista do interesse que desperta no espectador, tem mais força talvez para ganhar alguém que goste de jazz e da dança jazzística do que mesmo de quem esteja interessado em acompanhar o possível drama da personagem principal.

Cena do filme “L’amour par terre”, de Jacques Rivette

Dos três longas que vi agora, o que mais me despertou interesse foi certamente “L’amour par terre”, que conta como um milionário contrata duas famosas atrizes para encenarem uma tragédia em sua própria mansão. E temos então as atrizes Jane Birkin e Geraldine Chaplin vivendo essas performances. Esse trabalho mostra com precisão que Rivette é não só um excelente diretor de atores, mas um perfeito metteur em scène. Juntam-se às duas atrizes atores como Jean-Pierre Kalfon, Laszló Szabó e Barbet Schoeder, e temos então uma grande performance com clima teatral, mas claro que se estruturando como obra de grande dimensão cinematográfica. Um destaque seria a cena em que o milionário no final da temporada se despede na porta de sua mansão das duas atrizes. E elas, Birkin e Chaplin, carregando suas malas de viagem, com roupas femininas normais, caminham na frente da mansão de uma forma extraordinariamente comum. Cena que dá bastante força ao filme.

E o terceiro filme, “Secret défense”, se mistura entre ser um simples ‘thriller’ hitchcockiano ou ao mesmo tempo um drama psicológico. Tem como momento fundamental a presença constante da atriz Sandrine Bonnaire. Uma sequência se mostra como ponto especial do filme e é quando a atriz principal vai ao encontro de um personagem que faz parte da trama. Mas o importante não é a estória do “policial”, mas a extraordinária trama que é criada com os trens do metrô parisiense. Cenas com Bonnaire dentro do trem e cenas com ela caminhando pelas estações. Para quem gosta de ver a imagem se movimentar e se construir são momentos excelentes.

Cena do filme “Secret Défense”, de Jacques Rivette

Cinema não é a maior diversão. Continuo a afirmar. Mas o cinema de Rivette traz diversão para um público envolvido com a imagem e o som. E que encontra no jogo sofisticado das cenas desse cinema cultura. Hoje, a internet nos possibilita saber rapidamente tudo que já foi produzido, escrito e criado pela humanidade. Mas não adianta somente sabermos que três mil e quatrocentos e cinquenta podem ser tanto se juntarmos a tal número. Enquanto você não conseguir sentir na sua chamada alma o que é criar, a internet não passará de um mero quebra-galho.

Assim, é preciso conhecer não apenas os filmes que estão sendo feitos na atualidade e no mundo cinematográfico ligado a Hollywood. É necessário conhecer e analisar aquilo que já foi criado não só em Paris, mas onde houver um ponto de produção. Ver e deglutir. E então se pode até esquecer o que já se viu.

Olinda, 09. 07. 2021


 

Biografia de J. Michiles

Compositor J.Michiles (Jan Ribeiro/Secult-PE)

O cineasta Helder Pessoa Lopes está realizando um filme sobre o compositor J. Michiles, com apoio da Prefeitura do Recife. É o quarto filme biográfico com pessoas de longa idade que Helder realiza. Embora Michiles seja o mais moço.

Olinda, 16. 07. 21


por Celso Marconi, Crítico de cinema mais longevo em atividade no Brasil. Referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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