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Domingo, Outubro 17, 2021

São Paulo, 467 anos: Caetano Veloso, antes e depois de Sampa

Feita sob encomenda, Sampa poderia ter sido uma espécie de samba-exaltação à “cidade mais cresce no mundo”, à “cidade que não dorme”, à “São Paulo (que) não pode parar”. Mas Caetano não se acomodou.

Caetano Veloso qualificou São Paulo, em Baby (1968), como “a melhor cidade da América do Sul” – e avançou no elogio em Vaca Profana (1986), ao declarar que “São Paulo é como um mundo todo”. Mas, perdoem o clichê, a cidade que chega nesta segunda-feira (25) aos 467 anos é, cada vez mais, a cara de Sampa (1978).

Feita sob encomenda, Sampa poderia ter sido uma espécie de samba-exaltação à “cidade mais cresce no mundo”, à “cidade que não dorme”, à “São Paulo (que) não pode parar”. Mas Caetano não se acomodou. Em vez da bajulação gratuita, a música tece uma ambígua e até mesmo caótica declaração de amor. Caetano olha São Paulo com espanto e admiração, com franqueza e sensibilidade – e a isso acrescenta elementos que remetem às suas próprias (e atribuladas) vivências paulistanas.

O cantor e compositor baiano conheceu a cidade em 1964, com 22 anos, ao acompanhar a irmã Maria Bethânia, que substituiria Nara Leão no show Opinião, no Teatro Oficina. Vir a São Paulo não estava em seus planos. Foi, na realidade, um pedido do pai, José Teles Veloso, receoso de que a filha caçula, de 18 anos, viajasse sozinha para a “cidade grande”.

A princípio, o estranhamento foi de tal ordem que Caetano dizia “não morar, mas simplesmente estar” em São Paulo. Sua visão logo mudou, graças à vida cultural e boêmia na cidade – Chico Buarque era um dos amigos que levavam Caetano para beber nos bares na região central. E é fato que São Paulo, especialmente com os festivais de música da TV Record, nos anos 60, foi decisiva para alavancar a carreira de Caetano.

No final de 1967, ele decidiu ficar na capital paulista, ao lado da mulher Idelzuíte Gadelha, a Dedé. Instalaram-se num apartamento no 20° andar do Edifício Santa Virgília, no número 43 da Avenida São Luís, a menos de 100 metros da Praça da República. “Era gostoso viver no coração de uma cidade grande”, escreveu o cantor no livro Verdade Tropical (1997).

Foi durante a morada em São Paulo, porém, que Caetano recebeu a maior vaia da carreira. Em 15 de setembro de 1968, os estudantes que lotaram o Tuca, o teatro da PUC-SP, não o deixaram terminar a música É Proibido Proibir na final paulista do 3° Festival Internacional da Canção, da TV Globo. Caetano reagiu com um discurso memorável, mas a mágoa ficou.

No mesmo ano, na madrugada de 27 de dezembro, sua estada na cidade chegou ao fim. Fazia duas semanas que o AI-5 estava em vigência, endurecendo ainda mais a já criminosa ditadura militar. Mesmo sem mandado contra ele, Caetano foi retirado de casa pela polícia e posto numa caminhonete com o amigo e parceiro Gilberto Gil, rumo à imediata prisão no Rio de Janeiro. Era o início da ofensiva que os levou, meses depois, ao exílio em Londres. Nunca mais Caetano pisou em sua residência paulistana.

Dez anos depois, já morando num apartamento do Leblon, no Rio, Caetano foi convidado por uma emissora de TV a compor uma canção sobre São Paulo. Assim nasceu Sampa, “gauche na vida”, como seu autor. Lançada no lado B do álbum Muito – Dentro da Estrela Azulada (1978), a música foi gravada originalmente com a Outra Banda da Terra.

Caetano já reconheceu que não esperava o sucesso de uma canção tão cheia de ambivalências e sinceridades. “É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi”, canta o artista, antes de apontar tanto “mau gosto” quanto “um difícil começo” em São Paulo. “É que Narciso acha feio o que não é espelho”, justifica-se.

Mas, claro, não é só. Nenhuma outra cidade brasileira lhe permitiria um retrato tão multifacetado e dinâmico, que inclui citações, diretas ou indiretas, a diversos expoentes da cultura brasileira. A própria melodia de Sampa se baseia em acordes de Ronda, obra-prima de Paulo Vanzolini, da qual Caetano também extraiu – e imortalizou – a imagem da esquina das avenidas Ipiranga e São João.

Nas composições dos grandes sambistas paulistas, a São João parecia fadada à tragédia. É lá que morre, atropelada, Iracema, a musa fictícia de Adoniran Barbosa, na bela e triste canção de 1956:

“Iracema, eu sempre dizia
Cuidado ao travessar essas ruas
Eu falava, mas você não me escutava, não (…)
Você atravessou a rua São João
Veio um carro, te pega e te pincha no chão
Você foi para Assistência, Iracema
O chofer não teve culpa, Iracema
Paciência, Iracema, paciência”.

Em Ronda, a rua vira palco de um crime passional – a mulher traída resolve fazer o acerto de contas com o marido vadio:

“Volto a te buscar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres,
Rolando um dadinho,
Jogando bilhar
E neste dia, então,
Vai dar na primeira edição:
Cena de sangue num bar
Da Avenida São João”.

É Caetano, em Sampa, que subverte essa vocação sombria da São João: “Alguma coisa acontece no meu coração / Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”. O local ficava próximo da antiga rodoviária paulistana, onde Caetano e Bethânia desembarcaram em 1964, ao virem pela primeira vez à cidade. A histórica esquina foi, assim, a primeira impressão forte do visitante baiano em São Paulo.

Na letra de Sampa, a deferência ao concretismo também sobressai. Além “da dura poesia concreta de tuas esquinas”, Caetano exalta a tríade concretista – os irmãos Augusto e Haroldo de Campos (“Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços”) e Décio Pignatari (“Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”).

Mas não faltam menções a ícones originalíssimos da MPB nos anos 60/70. É o caso de Rita Lee (“Ainda não havia para mim Rita Lee / A tua mais completa tradução”), dos Mutantes (“E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho / Nada do que não era antes quando não somos mutantes”) e dos Novos Baianos (“E os novos baianos passeiam na tua garoa / E novos baianos te podem curtir numa boa”).

Sem contar as alusões ao Teatro do Oprimido de Augusto Boal (“Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas”) e ao Teatro de Oficina de Zé Celso Martinez (“Tuas oficinas de florestas”); a obras de Jorge Mautner (“Teus deuses da chuva”) e de José Agrippino de Paula (“Pan-Américas de Áfricas utópicas”); a Vinicius de Morais (“Túmulo do samba”); e ao Quilombo dos Palmares (“Mais possível novo quilombo de Zumbi”). Coisa de gênio!

“Senti em São Paulo uma energia criativa – uma coragem de experimentar e uma inocência diante das experimentações – que no Rio não havia. Fiquei apaixonado por São Paulo”, afirmou Caetano em 2018, quando Sampa completou 40 anos. “Para mim, tem grande significação que a canção Sampa teve muitos paulistanos a me agradecer por eu ter despertado o narcisismo básico que a cidade necessitava para poder seguir e que já parecia quase irremediavelmente perdido”.

Aos que aqui nascem e vivem, aos que aqui chegam e ficam, aos que aqui passam e se vão, Sampa, de fato, diz muito. É inusitado que o criador dessa homenagem tão anticonvencional tenha sido, justamente em São Paulo, vaiado, perseguido e preso. Caetano, no fim, foi bem mais generoso com São Paulo do que a cidade com ele.


por André Cintra, Jornalista   |    Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 

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