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João de Sousa

Quinta-feira, Maio 30, 2024

Ser empreendedor num país serôdio

 

anabela_oliveiraA ideia do empreendedorismo surge-nos hoje, não como uma possibilidade mas quase que obrigação. Multiplicam-se os gurus que afirmam ser esta uma oportunidade de ouro. Acenam com a possibilidade de cada um ser dono da própria vida, ter tempo para si, para a família e bater palmas pela ausência da famigerada figura do patronato, detestável controlador, que mete no bolso os lucros gerados com o trabalho alheio, o nosso trabalho.

Mentira das puras. Daquelas que tentam inutilmente mascarar a precariedade laboral atingida por uma sociedade que passou muito rapidamente de jardim de filósofos humanistas a alcatroado de gestores, para quem os dígitos à esquerda do zero constituem a única medida de sucesso admissível.

Ser empreendedor passou a significar desempregado com nome pomposo. Não é necessário ser um ás em gestão ou economia para perceber que, quando a maioria se transforma em desempregado, cuja única possibilidade, além de imigrar, é empreender, dificilmente irá criar mais do que a sua própria riqueza, a essencial para sobreviver. Falo de jovens mas também dessa geração, a caminho de se transformar em “peste grisalha”, da qual não é aproveitada a prática adquirida em duas ou três décadas de experiência laboral mas que ainda precisa de sobreviver uma mão cheia de anos, sem saber bem como.

Ser empreendedor num país serôdio

Numa sociedade atingida pelo maremoto de uma crise, a qual não se entende bem se é alimentada pela perturbação dos valores comportamentais se da economia, é verdade que há projectos, vencedores de concursos e de dinheiros, que prometem colmatar essa falha. Porém, convinha perceber como são utilizados esses dinheiros, muitos deles pagos por todos nós.

Basta o acesso a um motor de busca para perceber que, de forma quase andrógina, tem crescido o número de associações a prometer o melhor dos mundos a quem passou de “geração rasca” para geração “à rasca”. Desmultiplicam-se em cursos de empreendedorismo, acordados com o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). De permeio, e sempre apoiados pelo mesmo Instituto, vão fazendo mini-formações, de aplicabilidade laboral dúbia, mas ostentáveis nessa coisa tão importante, mesmo que praticamente inútil, que é o Quadro Nacional de Qualificações (QNQ).

Antes da conveniência de saber onde páram os técnicos de muitas destas associações, convinha perceber se estão verdadeiramente habilitados a honrar os compromissos assumidos aquando a assinatura dos protocolos e se cobrem as necessidades que se comprometeram a suprir.

Até prova em contrário, são eles os verdadeiros e geniais empreendedores: estudaram afincadamente o mercado; definiram genialmente o seu público-alvo; procuraram de forma assertiva os parceiros ideais e vendem-nos a ideia de “el dorado” em doses maciças.

Quanto ao candidato a empreendedor, após peregrinação por uma dúzia de cursos; por reuniões, quantas vezes suspensas “porque o técnico só regressa” sabe-se lá quando; ausência de resposta a sucessivas tentativas de contactos, não é difícil de perceber que fica apto a aceitar facilmente um dos poucos empregos que a sociedade lhe oferece, maioritariamente a preço de salário mínimo ou aproximado, quantas vezes com Empresas de Trabalho Temporário de permeio e sujeição a contratos que chegam a ser diários. O que pode ser “simplistamente” resumido a: “para pior, antes assim”.

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