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Terça-feira, Abril 23, 2024

Seven Seconds e a defesa da família branca

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

Assisti a série Seven Seconds (de Veena Sud, disponível na Netflix) em 2018. Foi um ano em que o debate político no Brasil não só estava acirrado, como adentrava caminhos estranhos e obscurantistas. Como agora, em 2022.

Por um lado, a campanha presidencial do Partido dos Trabalhadores defendia conquistas sociais, desenvolvimento com inclusão social, democracia e direitos humanos. Por outro, a de Bolsonaro defendia as armas, a propriedade privada, o poder da religião (sobre a ciência, inclusive) e a família.

A ideia de família exaltada pelo discurso bolsonarista era central naquela disputa. Mas tratava-se de uma ideia muito específica. Não um “grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto” ou um “grupo de pessoas com ancestralidade comum”, como uma busca rápida no Google sugere. Nem mesmo expressava apenas família heteronormativa. Não. Era uma ideia ainda mais limitada, baseada no recorte de cor, cultura e classe social.

Enxerguei em Seven Seconds (e a série é também uma denúncia da discriminação) toda a hipocrisia com a qual estávamos lidando. O enredo gira em torno do drama de uma família negra que perde um filho jovem, atropelado acidentalmente por um policial branco.

Pensando que o garoto não sobrevivera ao acidente, o policial e seu superior decidem abandonar a cena e abafar o caso, livrando, desta forma, a imagem da polícia. Horas mais tarde, entretanto, o garoto é encontrado por passantes, ainda com vida, e levado a um hospital em estado grave. Inicia-se uma jornada tortuosa por sua família negra composta pela mãe dedicada, o pai, um religioso fervoroso, e um tio recém chegado da guerra. Todos trabalhadores. Com a morte do menino o objetivo daquela família se torna descobrir quem causou o atropelamento e, assim, obter justiça.

Desesperada, a mãe do garoto morto empreende sua própria investigação. Ela chega ao policial atropelador e busca despertar em sua esposa grávida, compaixão materna. A esposa, entretanto, exige que o marido tome providências para afastar aquela mãe negra enlutada e sentencia “vamos ter um filho, precisamos nos preocupar com a nossa família, não com a família dela”. Os policiais, todos eles, por sinal, muito “família” esforçando-se para cumprir todos os protocolos da sociedade pequeno burguesa, também se fecham, alheios à dor dos pais que haviam perdido um filho.

Conclusão: além do garoto não ter sido resgatado a tempo de ser salvo, foi negligenciada a justiça e reparação àquela família que, enfim, desmorona.

É só uma série. Mas pensem nas semelhanças dessa história com a vida real, em casos como os de Kathlen Romeu, Evaldo Rosa dos Santos, Emily Victória Silva dos Santos, Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos. Negros, mulheres, homens, crianças, gestantes, gente de família, cujas mortes são normalizadas na opinião dominante.

Na série como na vida, se tratava de uma família padrão. Conservadora até. Religiosos, trabalhadores, militares. Mas não uma família branca de classe média.

Juntando os pontos veremos que discursos reacionários pela vida e pela família, não passam de uma grande falsidade. Eles não apenas reforçam papéis sociais preestabelecidos, e não apenas são usados como artimanha para defender a própria família. Tais discursos, acima de tudo, defendem privilégios para uma cor de pele e para uma posição social.


Texto em português do Brasil

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