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João de Sousa

Segunda-feira, Julho 4, 2022

Sidney Poitier foi um gigante das telas

Sidney Poitier foi mais do que um ícone por seu ativismo pelos direitos civis e por ter “pavimentado o caminho” para os atores negros seguirem. Ele foi um mestre de seu ofício e um dos maiores artistas de todos os tempos. Quem não chora a passagem do brilhante Sidney Poitier?

As homenagens foram torrenciais para celebrar sua carreira pioneira como a primeira estrela masculina negra na história do cinema americano, como uma figura proeminente no movimento dos direitos civis e como o recebedor de inúmeros prêmios por suas muitas contribuições de atuação e direitos humanos. Isso inclui o Prêmio da Academia por Melhor Ator, por Uma Voz nas Sombras, em 1964 – o primeiro artista negro a ganhar um Oscar desde que Hattie McDaniel ganhou o de Melhor Atriz Coadjuvante por E o Vento Levou, em 1939 -, um título de cavaleiro britânico, em 1974 e a Medalha da Liberdade, em 2009. “Inovador” é a palavra mais usada para celebrar a vida de Poitier, e ninguém pode negar que ele merece isso.

Mas me magoaria pensar que ele é principalmente lembrado em termos solenes como uma figura importante porque ele “pavimentou o caminho” para outros atores negros seguirem, embora é inegável que ele o fez. Como Denzel Washington colocou quando ganhou seu Oscar de Melhor Ator por Dia de Treinamento, em 2002, o primeiro homem negro depois de Poitier a vencer o prêmio, “Eu sempre estarei perseguindo você, Sidney. Eu sempre estarei seguindo os seus passos. Não há nada que eu prefira fazer…”

Mas focar tanto em sua importância histórica parece bastante obediente, e não há necessidade de ser obediente se tratando de Sidney Poitier. A principal coisa para se lembrar é que ele foi uma fabulosa estrela de cinema. Ele era incrivelmente bonito, inteligente, magnético, gentil, suave, bem-humorado e, mais notavelmente, capaz de transmitir um núcleo de força ética séria diante de todo tipo de ataque, o que o fez idealmente adequado a papéis de protagonista. Ele tinha um maravilhoso brilho de fúria justa, e que voz – um rouco e expressivo barítono, que fez linhas de leitura memoráveis. Apenas ouça ele interpretando um trabalhador braçal pedindo um grande café da manhã depois de não ter uma refeição adequada em dias, em Uma Voz nas Sombras – a gravidade de seu pedido, com apenas uma ponta de antecipação alegre, morando em montes de ovos, salsichas e torradas e galões de café e suco de laranja – “Eu disse espremido fresco!”

“Inovador” é a palavra mais usada para celebrar a vida de Sidney Poitier, e ninguém pode negar que ele merece isso.

Foi maravilhoso ver Poitier se humanizar em filmes com momentos terrenos de humor e apetite, porque caso contrário ele poderia parecer quase muito bom para ser verdade. É bem sabido que ele era filho de agricultores pobres de tomate das Bahamas, e ele gostava de contar a história de ter chegado na América com três dólares em seus bolsos e trabalhado como zelador no Teatro Negro Americano, só para que ele pudesse colocar um pé na porta lá. Mas, desde o princípio, nos filmes, ele sempre parecia como um príncipe no exílio – bem, se príncipes já foram os seres superiores que foram anunciados para serem, isto é. Ele era divino, mesmo com uma camiseta branca e jeans, e ninguém, a não ser Cary Grant, podia usar um terno com tanta distinção sem esforço como Poitier.

Suas muitas perfeições o fizeram útil à indústria do cinema americana em um momento conturbado. A era dos direitos civis dos anos de 1950 e início de 1960 tinha os estúdios de Hollywood experimentando com tentativas de fazer grandes estrelas de cinema do talento negro. Dorothy Dandridge foi uma tentativa brevemente bem sucedida e outra foi o grande amigo de Poitier, Harry Belafonte. Poitier se tornaria, em última análise, a primeira realmente grande e duradoura estrela de cinema negra, não apenas por causa de seu tremendo carisma e talento, mas também porque ele poderia ser crivelmente escalado como o “Santo de Ébano”, uma figura de virtude e dignidade impecáveis, como em um dos seus mais famosos papéis, Adivinhe quem vem para Jantar? O diretor Stanley Kramer admitiu que a estratégia dessa comédia sobre uma proposta de casamento interracial foi para apresentar um homem negro tão perfeitamente admirável, que apenas um racista poderia se opor a ele como um genro.

Sidney Poitier em Adivinhe quem vem para o jantar, de 1967

Em última análise, a estratégia que ajudou a fazer dele uma grande estrela cada vez mais alienou membros sinceros da comunidade negra e tornou-o obsoleto como protagonista nos anos de 1970, embora ele continuou com uma carreira bem sucedida como diretor.

Não foi bem lembrado por críticos da personalidade de estrela de Poitier que ele na verdade interpretaria papéis bastante variados em sua carreira. Ele não era sempre escalado como um brilhante, afluente, internacionalmente aclamado médico fazendo trabalho altruístico para a Organização Mundial da Saúde, que também é a figura da sensibilidade e compreensão como noivo, como em Adivinhe quem vem para Jantar? Em Sementes de Violência (1955), ele interpretou um estudante do ensino médio difícil, que é o líder de delinquentes juvenis, fazendo o idealista novo professor (Glenn Ford) desejar ter escolhido uma profissão diferente. Em Acorrentados (1958), ele interpretou um condenado rural desesperado fugindo da prisão algemado a um racista branco (Tony Curtis). Em O Sol Tornará a Brilhar (1961), ele interpretou o papel eletrizante que ele originou na Broadway como um homem de família da classe trabalhadora irritado e frustrado lutando contra todas as probabilidades para fazer uma vida melhor para si e para sua família.

Poitier foi um forte candidato ao estrelato desde o seu primeiro papel, em O Ódio é Cego (1950), um filme noir coestrelado por Richard Widmark. O escritor e diretor Joseph Mankiewicz viu cedo em Poitier muitas das qualidades que definiriam sua personalidade de estrela, como sua habilidade de projetar uma inteligência questionadora e uma força moral que podem suportar tremenda pressão. Poitier interpretava o primeiro médico negro em um hospital municipal urbano que tem a má sorte de tratar um par de prisioneiros feridos em um assalto fracassado, um dos quais morre. Seu irmão, um racista cruel, interpretado por Widmark, culpa o médico e vai implacavelmente no ataque contra ele. (Widmark, famoso por sua habilidade de roubar cena interpretando psicóticos assustadores em filmes noir, foi na verdade um gentil ex-professor que se desculpou profusamente depois de praticamente cada take por todos os terríveis insultos que teve que lançar nele.)

Poitier memoravelmente interpretou cenas intensas de ansiedade e insegurança em O Ódio é Cego, como quando ele confessa para sua esposa a pressão financeira e emocional de saber que ele tem que ter sucesso como médico depois que ela o apoiou durante toda a escola de medicina, ou ele transmite sua consciência de que ele tem apenas um real apoiador no hospital – os outros administradores vão estar olhando para cada possível erro dele. Mas esse foi o primeiro de muitos filmes em que Poitier sofreu ataques racistas mordazes, verbais como físicos, com o que se tornaria sua marca registrada, estoicismo de olhos ardentes,  para o crescente descontentamento de muitos na comunidade negra. Poitier disse que sua própria mãe, quando ela finalmente assistiu O Ódio é Cego, se levantou e gritou para a tela, “Acerte-o de volta, Sidney! Acerte-o de volta! Você nunca fez nada para ele!”

James Baldwin reportou no livro The Devil Finds Work que audiências negras se irritaram com aspectos do comportamento de Poitier nas telas que pareciam projetados para aplacar o público branco. Por exemplo, no final de Acorrentados, depois que os condenados cortaram suas algemas e se tornaram amigos, o personagem de Poitier consegue correr rápido o suficiente para pegar um trem de carga em movimento que vai o levar para a liberdade, mas seu companheiro não consegue. De acordo com Baldwin, o público branco liberal aplaudiu quando Sidney, no final do filme, pulou do trem para não abandonar seu amigo branco… O público do Harlem ficou indignado e gritou, Volte para o trem, seu tolo!

Foi em 1967 que o dramaturgo negro Clifford Mason escreveu um editorial, publicado no New York Times, exigindo saber “Porque a América branca ama tanto Sidney Poitier?” Mason acusou que toda a carreira de ator de Poitier era humilhante:

Em todos aqueles filmes ele tem sido uma vitrine , para quem é dado um terno limpo e uma pureza completa de motivação para que, como um cachorrinho maltratado, ele tenha toda a simpatia do seu lado e todos aqueles brancos malvados são apenas tantos Simon Legrees.

Ironicamente, 1967 foi a ano em que Poitier começou a fazer filmes que pareciam ser uma resposta às acusações contra ele. Em No Calor da Noite, em que ele interpretou Virgil Tibbs, um detetive de homicídios da Filadélfia designado para ajudar um policial rural do Mississipi fora de sua profundidade (Rod Steiger), o personagem de Poitier exige respeito dos fanáticos brancos o chamando de “garoto” e, pior, dizendo de que de onde ele vem, “Todos eles me chamam de Senhor Tibbs!”

A linha se tornou parte do marketing do filme, e o título de sua sequência, tão memorável à sua maneira quanto o famoso tapa ouvido em todo o mundo. Quando Poitier como Tibbs foi estapeado por um dono de plantação branco, ele estava questionando e imediatamente o estapeou de volta, a palavra adiantada circulou que o filme era imperdível apenas por aquela cena sem precedentes. Poitier afirmou que ele insistiu na resposta violenta de seu personagem para a violência na cena.

De acordo com o diretor de No Calor da Noite, Norman Jewison, que continuou amigo e admirador de Poitier pela vida toda, alguns dos preconceitos dos bastidores foram tão dramáticos quanto o que estava acontecendo nas telas. Poitier tinha inicialmente deixado claro que ele não faria o filme, ambientado no Mississipi, em qualquer lugar do Sul. A participação de Poitier no movimento dos Direitos Civis era amplamente conhecida, e ele e seu amigo de toda a vida, Harry Belafonte, tinham sofrido ameaças no Delta do Mississipi quando estavam entregando fundos para o Comitê de Coordenação de Estudantes Não-Violentos (SNCC, na sigla em inglês), em 1964.

Em deferência aos desejos de Poitier, a maior parte do filme foi filmada ao longo do Rio Mississipi, mas em Illinois. A exceção foi uma sequência ambientada em campos de algodão, que Jewison precisava e não conseguia chegar ao Norte. Na pequena cidade do Tennessee escolhida como a locação de quatro dias, foi impossível conseguir um quarto para Poitier no único hotel da cidade, que trazia um sinal na porta dizendo “Apenas Brancos.”

Todo o elenco e equipe tinham que viajar para um Holiday Inn próximo que acomodaria Poitier, mas eles ainda foram submetidos a terrorismo racista pelos moradores, que dirigiam para lá em caminhonetes para gritar, buzinar e geralmente levantar o inferno. Alarmado, Jewison reuniu os maiores membros da equipe para vigiarem o quarto de Poitier. Como Jewison conta, ele assegurou a Poitier, “Não se preocupe, Sidney. Nós temos isso sob controle. Nós vamos protege-lo. Tudo vai ficar bem.”

E Poitier respondia, “Eu tenho uma arma sob meu travesseiro, e eu vou explodir o primeiro cara que entrar por aquela porta.”

Isso acontecia no auge da carreira de ator de Poitier. Em 1967, três de seus maiores sucessos que o definiram como estrela foram lançados: No Calor da Noite, Ao Mestre com Carinho e Adivinhe quem vem para Jantar? Sua firmeza da vida real, se fosse mais conhecida, poderia ter feito uma diferença em sua reputação na época.

A outra grande área de frustração na carreira de ator de Poitier envolvia cenas de amor, ou a falta delas. Seu tremendo fascínio como um protagonista romântico foi tratado com tanta ansiedade como se fosse dinamite. Por exemplo, em Uma Voz nas Sombras, Poitier interpretou um faz-tudo itinerante chamado Homer Smith em frente a um bando de freiras que a princípio pedem sua ajuda com alguns biscates, mas acabam exigindo que ele construa uma capela para elas. Lança-lo em uma narrativa com freiras foi uma das muitas maneiras engenhosas de impedir Poitier de romances na tela ou interações físicas entre ele e quaisquer coestrelas atraentes.  Uma Vida em Suspense (1965), por exemplo, apresenta Poitier como um estudante universitário se voluntariando para cuidar de uma linha direta de suicídio, tentando salvar a vida de uma mulher que telefona (Anne Bancroft) que tomou uma overdose e quer falar com alguém antes de morrer.

Mesmo quando filmou projetos com casos de amor incluídos na narrativa, Poitier ficaria muitas vezes com raiva e desapontado em descobrir que eles eram reescritos ou editados mais tarde para remover qualquer conteúdo sexual. Uma cena de beijo entre seu personagem e uma mulher cega analfabeta e abusada (Elizabeth Hartman) a quem ele está ajudando em Quando só o Coração Vê (1965) foi cortada. O autor do romance autobiográfico que foi o material de origem para Ao Mestre com Carinho, E. R. Braithwaite, não gostou da versão cinematográfica de grande sucesso por causa do que ele considerou sua sentimentalidade excessiva, mais o modo tímido que evitou o romance que ele havia escrito sobre um colega professor, que era branco.

E mesmo quando Poitier conseguiu interpretar um personagem com uma vida sexual, como em Paris Vive à Noite (1961), sobre a cena de jazz em Paris e dois casais envolvidos nela, um negro e um branco, isso também foi diluído. O material de origem era na verdade sobre casais interraciais. Tal contexto cultural transmite como Adivinhe quem vem para Jantar? poderia ter sido considerado controverso ou ousado. Em sua primeira cena, Poitier e sua noiva branca se beijam apaixonadamente no banco de trás de um táxi, deixando atônito o taxista.

Mas mesmo que tenha feito seus personagens celibatários em filmes, não há modo de fazê-lo menos maravilhoso do que ele era. É um prazer particular agora ir para trás e ver os filmes de Poitier, fora do cadinho de seu próprio tempo de grande estrelato, apenas para assistir quão facilmente ele controla a tela e para demorar-se em seus presentes deslumbrantes. Um número de seus principais filmes, como Uma Voz nas Sombras e Ao Mestre com Carinho, podem representar pico do liberalismo sentimental, mas eles também são fascinantes como veículos estelares. E agora que a questão da imagem estelar “perfeita” de Poitier é menos tensa e dolorosa, se apenas porque ele “pavimentou o caminho” para um número de estrelas negras de Hollywood representando uma gama muito mais ampla de comportamentos e características humanas, incluindo todas as suas falhas e fragilidades, nós podemos deleitar-nos com seu raro requinte.


por Eileen Jones é crítica de cinema na Jacobin e autora de Filmsuck, USA. Ela também apresenta um podcast chamado Filmsuck, no Jacobin | Texto em português do Brasil, com tradução de Luciana Cristina Ruy

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

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