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Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

Situação implosiva na Europa

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

A política de sanções decidida pela UE contra a Rússia e a inevitável reacção desta, bloqueio do fornecimento de gás alegando que as sanções impostas pelo Ocidente impedem a adequada manutenção técnica dos componentes da turbina que garantiam a bombagem do gás, estão a impedir o funcionamento do gasoduto North Stream 1, o único que assegurava o envio de gás russo para a Alemanha após o encerramento forçado do seu gasoduto irmão, o North Stream 2.

A estratégia norte-americana é claramente a de impedir que a Europa, graças aos acordos de longo prazo celebrados com a Rússia, continuasse a beneficiar do gás russo a preços baixos e obrigando os consumidores europeus a comprá-lo no mercado à vista a preços extremamente mais altos (chegaram a subir 20 vezes), estabelecidos pela Bolsa de Valores de Amsterdão (que é agora parte de uma grande holding norte-americana) e de acordo com os mecanismos especulativos, que prejudicam especialmente os cidadãos europeus e reduzem fortemente a competitividade da indústria europeia,

A insistência reiterada por Úrsula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, para acabar com a dependência europeia dos combustíveis fósseis russos implica o risco praticamente automático de uma crise económica devastadora na Europa, devido ao disparar dos preços do gás que passou já de 15 euros para mais de 300 euros por megawatt-hora e que apesar de uma recente descida ainda representa um agravamento superior a 1400%, algo a que a nomenclatura de Bruxelas respondeu, como o fez o Alto Representante da UE para a Política Externa, apelando a uma “paciência estratégica”, mesmo que as sanções encareçam a energia ou com o recente anúncio, pelo mesmo Josep Borrell, da suspensão de vistos para os turistas russos (em aparente contradição com Charles Michel, o Presidente do Conselho Europeu, que ainda mais recentemente defendeu a ideia ver a UE a acolher os refractários russos) se deverá traduzir num forte golpe no sector de turismo europeu (especialmente o da região adriática e egeia), que mesmo após a Covid-19 continua a ser uma das mais importantes fontes de receita de muitas regiões.

O único gasoduto que ainda transporta regularmente gás russo para a Europa é o TurkStream, através do Mar Negro e dos Balcãs, fornecendo à Hungria 80% do gás de que necessita ao abrigo de um acordo de longo prazo com a Gazprom, situação que ajuda a explicar as razões pelas quais este país se opõe às sanções da UE (apesar de fazer parte da UE e da NATO) e para o recrudescimento das tensões nos Balcãs, especialmente contra a Sérvia por onde passa o TurkStream, que poderão terminar com o bloqueio deste último oleoduto da Rússia. A interrupção definitiva do fornecimento de gás russo, deixará toda a Europa continental sem energia e dependente do mais caro e mais poluente gás de fracking norte-americano; a produção industrial será fortemente afectada em países como a Alemanha – país onde a ArcellorMittal, o segundo maior produtor mundial de aço, já anunciou o encerramento de um alto forno – o que acarretará uma explosão de desemprego e a consequente agitação social.

Devido à falta de gás, a Europa está a enfrentar o sério risco de ver desparecer a sua indústria de forma permanente; algo que já está a acontecer até na vizinha Espanha com a subida do custo da energia a provocar uma vaga de encerramentos de fábricas onde a produção se tornou economicamente insustentável. Esta desertificação empresarial não atingirá apenas as grandes empresas industriais, mas também pequenos comércios e serviços, onde o aumento dos preços já se traduz na redução de clientes e da facturação, prenunciando mais uma crise, que muito recentemente Joseph Stiglitz anteviu como mais profunda, graças aos aumentos das taxas de juro decididos pelos Bancos Centrais e à falta de capacidade dos EUA e da UE para perceberem que atravessam uma situação de guerra e que isso desprotege as respectivas economias.

Para agravar este cenário, com a aproximação do Inverno as casas dos europeus não poderão ser aquecidas, devido aos prováveis racionamentos energéticos ou sê-lo-ão a um custo muito superior, o que provocará mais insatisfação popular, especialmente nos países onde se registam temperaturas negativas e o aquecimento interior é indispensável. Em todos os casos, a crise energética está a provocar uma grande e rápida destruição de riqueza entre a classe média da Europa, a espinha dorsal das suas sociedades e do projecto de União Europeia.

Confirmando este cenário político-militar cada vez mais explosivo, a nova primeira-ministra britânica, Liz Truss, já se afirmou pronta a manter os milhares de milhões de libras de apoio militar, comprometendo a própria economia interna, enquanto Washington anunciou novos fornecimentos militares de mais 6 mil milhões de dólares, integrados no “pacote de assistência” de 40 mil milhões aprovado pelo Congresso, para garantir a viabilidade da contra-ofensiva ucraniana em curso, mesmo quando, a crer nesta notícia da norte-americana CBS, é cada vez mais notório que parte significativa desses fornecimentos acabam, por via do mercado negro, nas mãos de organizações terroristas e criminosas.

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