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Domingo, Dezembro 5, 2021

O Terramoto Trump

José Mateus
Analista e conferencista de Geo-estratégia e Inteligência Económica

terremoto

Bem vistas as coisas, não há razões para surpresa, excepto a de uma confiança cega na inércia. As “revolucionárias” propostas de Trump não têm nada de novo (excepto o tom tonitruante deste seu proclamador) e, de um ponto de vista conceptual, enquadram-se perfeitamente na escola geopolítica da “fortaleza América”. Quem não apreciava o intervencionismo em todos os azimutes da escola trotskisante dos neo-conservadores está servido com o Donald…

Mas tão pouco há surpresa de um ponto de vista da conjuntura global. A posição americana, das últimas 7 décadas baseia-se no célebre relatório sobre o “containment” à URSS (enviado da embaixada americana em Moscovo por George Kennan a 22 Fevereiro 1946) e desenvolveu-se no quadro da guerra fria.

Foi nesse quadro que o ‘patrão’ do OSS e criador da CIA “Wild Bill” Donovan alimentou os “pais da Europa”, utilizando para os financiar o canal da European Youth Campaign (criada pelo American Committee on United Europe que Donovam também criara e dirigia), como bem, já há anos (19 Setembro 2000), revelou Ambrose Evans-Pritchard no seu  “Euro-federalists financed by US spy chiefs”.

Ora, depois da queda do Muro e da implosão da URSS, a mudança na conjuntura estratégica global tornou desnecessária e obsoleta a matriz de  política externa definida por Kennan e Donovan… Ademais, no pós 11 de Setembro (com razão ou sem ela, isso aqui não tem interesse), os europeus (França e, sobretudo, Alemanha…) revelaram-se aliados timoratos e pouco confiáveis. Portanto, era só uma questão de tempo até surgir a quebra da inércia…

Os Democratas podiam tê-lo feito nos anos Obama. Ainda ensaiaram uma tímida “mudança para o Pacífico” mas faltaram-lhes argumentos conceptuais e coragem política. E, sobretudo, não souberam ver o “link” entre isso e a fidelização do seu eleitorado popular que, assim, os abandonou e deu a vitória a um Trump que tinha visto a brecha e a soube aproveitar.

A proposta disruptiva de Trump acaba com a garantia automática de segurança (derivada do tratado NATO, para a Europa, e de outros tratados na zona do Pacífico) e diz de forma brutal uma coisa simples: se querem guarda-chuva têm de o pagar, acabou o tempo do guarda-chuva gratuito. De facto, a opinião pública americana há muito que está farta de pagar a segurança da Europa, coisa que considera inútil (depois de 1989/90) e injusta (pois a Europa tem mais habitantes que os EUA e um peso económico equivalente).

Com este trumpiano “cada um que trate de si e depois logo se vê”, todos os “aliados” (que supunham como eternamente garantida a protecção do guarda-chuva americano) sentiram o chão fugir-lhes debaixo dos pés e o terreno à sua volta abrir fendas. Curiosamente, nas últimas semanas, as despesas militares dos Estados da União Europeia deixaram de ser consideradas uma espécie de pecado mortal e voltaram ao topo da agenda. Até a “pacífica” Alemanha já fala abertamente de “rearmamento”, um assunto, até há pouco, tabu…

Curiosamente e talvez por nunca ter entrevisto nem antecipado a possibilidade de vitória de Trump, o Governo Português continua a insistir na “tradição” de cortes no investimento na Defesa… Uma decisão em “contratempo” e cujos custos estratégicos, políticos e económicos se irão, brevemente, começar a revelar.

É tempo de Portugal abandonar uma política de Defesa arcaica (reveladora de um vazio estratégico e de uma incapacidade conceptual), forjar uma política de Defesa inteligente e começar a preencher o vazio estratégico que há décadas nos impede de ter uma estratégia que garanta desenvolvimento e segurança. Tanto mais que António Costa é um dos pouquíssimos políticos actuais com capacidade para o perceber e é… primeiro-ministro.

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