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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Transparência e eleições presidenciais

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Creio que seria elementar que o Estado português e a comunicação social portuguesa, por razões óbvias de transparência, exigissem aos seus candidatos presidenciais que esclarecessem os contactos, os negócios, as reuniões e as parcerias que estabeleceram com agentes de poderes externos

Plot against America’, clássico de Philip Roth de 2004 trazido agora para os écrans televisivos de uma cadeia americana, é uma ficção política com grandes laivos de realismo que me parece útil recordar quando nos aproximamos de eleições presidenciais em Portugal num mundo cada vez mais marcado pelo confronto geopolítico entre o velho Ocidente e o novo pretendente à hegemonia mundial, a China de Xi Jinpeng.

Nesta matéria como em todas, a história é uma indispensável professora que, se for mal interpretada, pode no entanto conduzir-nos a esperar aquilo que por natureza não se repete. A China de Xi Jinpeng trata das suas minorias e os seus dissidentes de forma que lembra aquilo que Hitler fez antes da guerra, ao mesmo tempo que constrói uma agressiva política externa que parece não conhecer limites ou prioridades, mas não podemos por isso esperar que proceda necessariamente como Hitler em todo o domínio estratégico.

A União Europeia parece ter finalmente acordado, embora como se estremunhada, um olho fechado e outro semiaberto, ciente pela primeira vez de que para além dos chorudos negócios e das canções de embalar da moda, há realidades que se podem revelar mais determinantes.

O ritmo com que a China avança é avassalador, conquistando aliados ou tributários com dinheiro, intriga ou pelo poder bruto da força quando se torna necessário, sendo notável a forma como se recompõe de derrotas episódicas para se afirmar no momento seguinte, algo que me dei conta em particular na Ásia do Sul.

A rede de alianças da China comunista abarca uma enorme diversidade e vai da corrupção de dirigentes políticos e de negócios à cooperação financeira e de infraestruturas passando pela solidariedade de ditaduras e pela lógica política elementar de unir os que por qualquer razão se opõem aos que ainda dominam o presente sistema económico mundial.

A aliança com a Rússia de Putin é a mais falada e controversa – abundam as conjecturas sobre os seus limites ou solidez – mas não é a mais relevante. A aliança com a Turquia é mais estrutural e global (e passa por enquadrar a relação sino-paquistanesa), mas nada tem a dimensão económica, política e militar assumida pelo pacto Irano-Chinês de que alguns detalhes foram postos a circular durante o Verão passado.

Nestas circunstâncias, creio que seria elementar que o Estado português e a comunicação social portuguesa, por razões óbvias de transparência, exigissem aos seus candidatos presidenciais que esclarecessem os contactos, os negócios, as reuniões e as parcerias que estabeleceram com agentes de poderes externos, a começar, naturalmente, por aqueles que são mais determinantes: a China e o Irão.

Poderíamos aqui, aliás, inspirar-nos numa promessa feita por uma então deputada europeia e agora candidata presidencial, que ainda se encontra visível na web, e cito:

Comprometo-me, igualmente, a publicar mensalmente, no meu site, a lista de entidades externas com quem reúno para discutir matérias relacionadas com a minha actividade parlamentar, excluindo apenas ocasionalmente activistas de direitos humanos e/ou denunciantes de actividades ilegais aos quais essa divulgação poderia ser prejudicial.’

Ironicamente, as únicas coisas a que a candidata presidencial e a imprensa que faz a sua publicidade (nenhuma parece fazer a sua cobertura), apenas tratam exactamente dessas acções em que ela se pretende apresentar como preocupada com os direitos humanos, mas não das essenciais em que trata com a República Islâmica do Irão ou com o Partido Comunista da China.

Por exemplo, publiquei aqui no jornal Tornado a história da utilização do gabinete da então deputada europeia Ana Gomes pela publicamente identificada agente dos serviços secretos iranianos, Anne Singleton, para desenvolver as suas actividades de perseguição dos dissidentes iranianos na Europa a mando das autoridades iranianas.

Anne Singleton, no escritório da então eurodeputada Ana Gomes (Fotografia retirada do website de Anne Singleton, iran-interlink.org)

É uma história interessante porque tive conhecimento dela através do blog da dita ‘Anne Singleton’ que publicitava o seu relatório de actividades no Parlamento Europeu no dia 5 de Dezembro de 2017 com a sua fotografia no escritório de Ana Gomes.

Pois, certamente por coincidência, a lista de ‘transparência’ dos contactos da candidata presidencial no seu site consultada no dia 26 de Setembro de 2020, salta do relatório mensal de Novembro de 2017 para o de Janeiro de 2018… Certamente por lapso, desapareceu o mês de Dezembro de 2017 nos registos de transparência da senhora candidata presidencial! E com esse ‘lapso’, desapareceu a utilização do gabinete da senhora deputada por Anne Singleton!

A senhora candidata presidencial faria um enorme serviço à transparência se publicasse a lista dos seus contactos com as autoridades iranianas e com os seus agentes enquanto foi investida de funções públicas diplomáticas e políticas.

O mesmo se aplica às autoridades chinesas e muito em particular ao Partido Comunista da China. Neste último caso, seria mesmo extremamente elucidativo que ela fizesse públicas as declarações que proferiu na altura.


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