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Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023

Trump, Portugal e a economia internacional

Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida
Economista, MBA, Pos-graduado em Estudos Estratégicos e de Segurança, Auditor do curso de Prospectiva, geoeconomia e geoestratégia, Doutorando em Sociologia

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A vitória de Trump propaga ainda as suas ondas de choque nos sectores liberais centro-europeus que apoiaram Hillary Clinton durante a campanha. Viram-se, agora, para a possibilidade do candidato eleito não poder aplicar o seu programa impedido pelo sistema político instalado no Congresso. A vitória republicana torna, contudo, essa possibilidade limitada.

Mas o que assusta as elites económicas e políticas do centro europeu no programa de Trump? O racismo anti-minorias? O seu homofobismo? Ou algo mais profundo e substancial do ponto de vista geopolítico e geoeconómico?

O que temem as elites?

Em primeiro lugar a sua ideia de re-industrialização da América, tentando recuperar as mais de 60.000 fábricas que fecharam por causa das facilidades de deslocalização. Trump propõe-se dificultar a deslocalização industrial.

Mas, mais, Trump propõe-se defender a produção nacional aumentando as barreiras alfandegárias e outras. Esta politica proteccionista, capaz de dinamizar a indústria é vista pelos grandes exportadores europeus como um ataque aos seus interesses. À cabeça deste grupo está, obviamente, a Alemanha.

No sentido de proteger a indústria norte-americana Trump anunciou que procurará retirar os EUA do NAFTA, acordo liberal de comércio com o México e com o Canadá que levou à deslocalização de milhares de empresas para o Sul, e que não assinará o TTIP, acordo liberal de comércio com a Europa. Também aqui os interesses dos grandes beneficiários deste acordo na Europa vêem os seus interesses económicos ameaçados? Quem são eles? De novo a França e, principalmente, a Alemanha.

O fim da União Europeia?

Se estes propósitos forem implementados, mesmo que moderadamente, podemos assistir a um renascer dos EUA e ao fim da União Europeia afundada pelo peso de uma crise ainda mais séria na Alemanha, privada de um dos seus maiores mercados de exportação.

Trump também prometeu não atacar o débil sistema de Segurança Social americano que os liberais têm vindo paulatinamente a desmantelar desde o primeiro mandato de Bill Clinton. Na Europa a Alemanha foi pioneira nos cortes da segurança social, política que tem imposto aos restantes membros da zona Euro. A concorrência pela desvalorização salarial e social pode chegar ao fim com grande prejuízo pela Alemanha, a grande promotora desse modelo.

Prometeu ainda regular a actividade e taxar os proventos dos grandes bancos e da actividade financeira especulativa e reestabelecer a separação entre bancos comerciais e bancos de investimento que tinha sido promulgada em resposta à crise de 1929 mas que foi anulada por Bill Clinton. Medida idêntica está em estudo no Reino Unido. A Alemanha ficaria isolada com o seu modelo de banca.

Geopolítica

Na geoestratégia Trump aproxima-se da Rússia e com essa atitude trava o expansionismo germânico para leste a que temos assistido nas últimas décadas, com o fomento da partição da Jugoslávia, com a integração dos países de leste na União Europeia e mais recentemente com o financiamento do golpe de estado na Ucrânia e com a pressão constante contra a Bielorrússia. Face a este perigoso expansionismo alemão Trump afasta-se deste aliado incómodo e prefere estender a mão a Putin.

Por último, Trump parece apontar para uma política mais centrada no Atlântico em que os países costeiros passam a ter uma maior importância e os países interiores uma menor relevância. Trump pretende também reduzir o papel da Nato e afastar-se da guerra da Síria, deixando cair a intervenção europeia nesse martirizado país.

O que vemos então é que o alarido alemão anti-Trump, espelhado na nossa comunicação social, não radica no seu racismo homofóbico e anti-emigração, tudo políticas que podemos encontrar na Europa nomeadamente na França, na Polónia e na Hungria, mas em razões económicas e geoestratégicas.

Proteccionismo

Com isto pretende-se legitimar Trump? Obviamente que não. Mas percebamos que se nos opomos a Trump pelo seu racismo, pelas suas políticas direitistas, pelo seu desrespeito pelos direitos sociais e humanos, o mesmo não acontece com a opinião central-europeia que se opõe a Trump por razões muito diferentes.

A subida do proteccionismo e de grupos de extrema-direita no mundo está a tornar a situação cada vez mais semelhante, ainda que em câmara lenta, à do período que se seguiu ao rebentar da grande crise de 1929 e que desembocou na II Grande Guerra.

Trump, obviamente, não é Roosevelt e na Rússia já não temos o regime socialista. Mas o caminho para a guerra na Europa, provocada pela Alemanha, é uma possibilidade que cresce.

Nota do Director

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