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Terça-feira, Outubro 4, 2022

Um Festival com espaço para os novos talentos

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

70º FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE SAN SEBASTIÁN

Na secção ‘Novos Realizadores’ o Festival de San Sebastián programa um conjunto de primeiras e segundas obras produzidas no último ano. Por isso, os nomes dos autores são quase totalmente desconhecidos. Mas isso não invalida que os trabalhos apresentados sejam vistos com alguma atenção porque, como já aconteceu muitas vezes ao longos das diferentes edições, pode-se estar perante autores de que se vai ouvir falar muito nos próximos anos. Este é um dos espaços de descoberta do festival basco.

Desta feita são 15 os filmes apresentados, a saber:

  • “Jeong-Sun” de Jeong Ji-Hye / Coreia do Sul;
  • “A Los Libros y a Las Mujeres Canto” de Maria Elorza / Espanha;
  • “Carbon” de Ion Bors / Moldávia, Roménia, Espanha;
  • “Chevalier Noir” de Emad Aleebrahim Dehkordi / França, Alemanha, Itália, Irão;
  • “Den Store Stilhed” (O Grande Silêncio) de Katrine Brocks / Dinamarca:
  • “Fifi” de Jeanne Aslan e Paul Saitillan / França;
  • “Foudre” de Carmen Jaquier / Suíça;
  • “Grand Marin” de Dinara Drukarova / França;
  • “La Hija de todas las rabias” de Laura Baumeister / Nicarágua, México, Países Baixos, Alemanha, França, Noruega, Espanha;
  • “Miyamatsu to Yamashita” de Masahiko Sato, Yutaro Seki e Kentaro Hirase / Japão;
  • “Nagisa” de Takeshi Kogahara / Japão;
  • “Pokhar Ke Dunu Paar” (Noutros lados da lagoa) de Parth Saurabh / India;
  • “Secaderos” de Rocío Mesa / Espanha, EUA;
  • “Something you said last night” de Luis de Filippis / Canadá, Suíça; e
  • “Garbura” de Josip Zuvan / Croácia, Sérvia.

Como se pode verificar, trabalhos procedentes dos quatro cantos do mundo e muitas co-produções. Encontra-se até um filme com produção de sete países!

Os filmes desta secção estão a ser apreciados por um júri constituído pela cineasta romena Alina Grigore, pelo programador italiano Paolo Moretti, pela crítica cinematográfica espanhola Paula Arantzazu Ruiz, pela escritora argentina Selva Almada e pela cineasta indiana Ashmita Guha.

 

Cinema da América Latina sempre presente

O cinema latino-americano tem sempre um lugar destacado na programação do festival.

Nesta edição para a abertura da secção foi escolhida uma obra de um nome maior do cinema chileno: Patrício Guzmán, um autor politicamente comprometido. Apoiante de Salvador Allende, viu-se obrigado a sair do seu país em 1973 quando aconteceu o golpe de estado de Pinochet. Desenvolveu grande parte da sua carreira em Espanha, Cuba e França. O documentarista octogenário obteve o prémio de melhor guião no Festival de Berlim de 2015 com ‘El Botón de Nácar’. Dois dos seus filmes, ‘Nostalgia da Luz’ e ‘A Batalha do Chile’ figuram nas listas dos melhores documentários de sempre. Em 2019 deslumbrou-nos com ‘La Cordillera de los Sueños’.

Agora apresentou em San Sebastián “Mi País Imaginario”.

Diz Patricio Guzmãn: “Outubro de 2019, uma revolução inesperada, uma explosão social. Um milhão e meio de pessoas manifestaram-se nas ruas de Santiago pedindo mais democracia, uma vida mais digna, uma melhor educação, um melhor sistema de saúde e uma nova Constituição. O Chile tinha recuperado a sua memória. O acontecimento de que estava à espera desde as minhas lutas estudantis de 1973 finalmente materializou-se”.

Para o encerramento de ‘Horizontes Latinos’ goi programado um filme de temática muito diferente: “La Piel Pulpo” de Ana Cristina Barragán. Uma co-produção de Equador, Grécia, México, Alemanha e França, com fortes preocupações ambientais.

Isis e Ariel têm 17 anos, são irmão gémeos e vivem com a mãe e com a irmã mais velha, Lia, numa praia repleta de moluscos, pássaros e répteis. Os adolescentes cresceram isolados do continente, numa relação fraternal que supera os limites do comum e com um vínculo transcendental com a natureza.

Os outros dez filmes da secção “Horizontes Latinos” são:

  • “1976” de Manuela Martelli / Chile;
  • “Carvão” de Carolina Marcowicz / Brasil, Argentina;
  • “Dos Estaciones” de Juan Pablo González / México, França, EUA;
  • “El Caso Padilla” de Pavel Giroud / Espanha, Cuba;
  • “La Jauría” de Andrés Ramírez Pulido / França, Colômbia;
  • “Ruido” de Natalia Beristain / México;
  • “Sublime” de Mariano Biasin / Argentina;
  • “Tengo Sueños Eléctricos” de Valentina Maurel / Bélgica, França, Costa Rica;
  • “Un Varón” de Fabián Hernández / Colômbia, França, Países Baixos, Alemanha; e
  • “Vicenta B.” de Carlos Lechuga / Cuba, França, EUA, Colômbia, Noruega.

Cinema com aroma e paladar

San Sebastián, cidade famosa pela cozinha e pelos cozinheiros (muitos deles, e ouvimo-lo das suas bocas, gostam pouco dessa coisa dos “chef’s”). San Sebastián cidade famosa pelo cinema.

Desde há anos o festival promove o encontro desses dois mundos. E não se fica pela mera exibição de filmes em que a comida e a cozinha têm uma presença importante. O cinema e a degustação podem ocorrer de seguida no mesmo espaço em jantares com sessão de cinema incluída.  80 euros é o preço da experiência, só que os bilhetes postos à venda muitas semanas antes do início do festival voam em poucos minutos. Por isso, ao comum dos mortais resta a visão dos documentários e filmes de ficção que, nesta 70ª edição, são os seguintes:

  • “Mibu. La Luna en un plato”, estreia como realizador de cinema do actor e produtor teatral catalão Roger Zanuy. O filme conta a história e as fontes de inspiração do restaurante Mibu, um templo gastronómico que emocionou alguns dos maiores cozinheiros do mundo que aparecem no documentário: Ferran Adrià, José Andrés, Massimo Bottura, Joan Roca, Andoni Luis Aduriz, Oriol Castro e Albert Raurich, entre outros.
  • de Alfred Oliveri (Buenos Aires, 1969), que já mostrou os seus filmes em ‘Culinary Zinema’ em 2018 e 2019, pode ser visto “Virgilio”, um documentário sobre Virgilio Martínez,. O restaurante Central, situdo em Lima, capital do Perú, é considerado o melhor da década na América Latina e, em 2022, figura como número 2 na lista ‘The World’s 50 Best Restaurants’.
  • “La Huella, Historia de un parador de playa” de Alessio Rigo de Righi, italo-americano radicado na Argentina. Uma viagem a uma pequena aldeia uruguaia onde, desde há 20 anos, três amigos tiveram a ousadia de construir um hotel de praia ao estilo dos anos 50 do século passado;
  • Xiao shan he” (Nostalgia), segunda longa-metragem  do realizador e guionista chinês Peng Chen. O filme é uma ficção em que a cozinha e a comida assumem um importante papel através da jovem protagonista, uma rapariga que regressa à sua aldeia natal e se reencontra com a avó e os amigos de infância; e
  • Tsuchi wo kurau junikagetsu / The Zen Diary”, uma ficção do japonês Yuji Nakae que conta a história de um escritor que vive só nas montanhas. Ali cozinha comida ‘zen’ com os legumes que cultiva e os cogumelos que colhe nos bosques. Um retrato do que pode ser viver na natureza, rodeado pelo cheiro da terra.

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