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João de Sousa

Domingo, Agosto 14, 2022

Um regresso estrambelhado

Luís Fernando, em Luanda
Luís Fernando, em Luanda
Jornalista, correspondente do Tornado em Angola

Joni Lô, como é sabido, não era esperado nas eleições que vão acontecer naquela terra e que são, há muitos anos, uma espécie de sonho/pesadelo para Sérgio Inocente. E como candidato não aguardado, baralhou as contas mal se meteu em campo.

O nosso velho conhecido Sérgio Inocente tem o desejo antigo de ganhar a presidência para aquele posto elegível, de olho no palácio que, além de quere-lo como uma relíquia arquitectónica fetiche, vale como uma prova de amor infinito à sua Zumba. É dentro desse tesouro de mil paredes que anseia ver a mulher da sua vida entretida com os afazeres de uma primeira-dama do tempo moderno.

Sérgio Inocente geriu um silêncio de semanas enquanto o candidato Joni Lô seguia à frente, falando com todos sobre tudo, dos intelectuais aos de saberes e ocupações menos sofisticados. Aconselhou-se com a própria consciência e, pela primeira vez em muitos meses, voltou a fazer caso ao que lhe chega da mulher. Esta repetiu-lhe à hora do sono, que se julga ser aquela em que os políticos teimosos como Sérgio recuperam alguma lucidez, que correr atrás de Joni Lô com o arsenal de que dispunha era uma aposta suicida:

 – Marido, podes chegar à meta com a língua de fora, deixa-o ir sozinho – advertiu Zumba em três noites consecutivas. Sérgio Inocente respondeu com um seco “achas?”, no último dia das investidas persuasoras e o sumiço que se seguiu confirmou que havia acatado o conselho da mulher.

Quando Sérgio Inocente decidiu retomar a luta pelo palácio, nenhuma palavra aos mais próximos. Nem a mulher Zumba nem a equipa de campanha souberam que o candidato tinha decidido voltar à estrada usando a televisão para faze-lo. De modos que foi surpresa total vê-lo e ouvi-lo aquela noite no programa de entrevistas de grande audiência da TV Kimbo.

Jornalista Frank Mendonça: – Há muito que o sr candidato não era visto em actos públicos. O que andou a fazer todo este tempo?

Sérgio Inocente: – Uma retirada estratégica, a olhar para os outros que andam a correr muito…

Jornalista Frank Mendonça: – E acha que essa estratégia resulta? Ficar parado enquanto os outros conquistam a simpatia do eleitorado? Em política quem não aparece é facilmente esquecido…

Sérgio Inocente: – Você acredita nisso? Anda na política também?

Jornalista Frank Mendonça: – Não sr candidato, a minha vida toda foi fazer jornalismo.

Sérgio Inocente: – Então deixa isso com quem entende da poda. Retirar-se por um tempo é ganhar fôlego para chegar e esmagar os adversários.

Jornalista Frank Mendonça: – Está a querer dizer que o sr vai vencer o candidato Joni Lô, aquele que tudo indica estar em melhores condições para ser eleito neste pleito?

Sérgio Inocente: – Se for travada a fraude que está a ser preparada há muito tempo, eu ganho com uma margem folgada.

Jornalista Frank Mendonça: – Então o sr sabe da fraude e mesmo assim entra no jogo?

Sérgio Inocente: – Temos a nossa estratégia. Tomaremos medidas competentes para impedir que alguém ganhe com fraude. Eles tentarão mas nós não vamos deixar, as medidas que estão pensadas não falham.

Jornalista Frank Mendonça: – E que medidas são essas? É uma ameaça que está a fazer?

Sérgio Inocente: – As medidas eu não digo quais são, mas não é uma ameaça, são só medidas adequadas.

Jornalista Frank Mendonça: – Olha que certa vez, numas eleições, alguém prometeu agir se não ganhasse e a coisa acabou muito mal.

Sérgio Inocente: – Esse alguém foi esse alguém… nós faremos diferente, apenas tomaremos medidas adequadas.

Jornalista Frank Mendonça:- Então nem nós nem os telespectadores vão ficar a saber que medidas adequadas são essas?!

Sérgio Inocente:- Não é preciso, só são medidas adequadas…

Zumba, lá em casa, perdeu a cabeça. Aquele não parecia o seu amor de toda a vida no papel delicado de incendiário de serviço.

 – Corta! Corta! Corta!

Gritou do sofá, como se tivesse nas mãos o comando técnico da TV Kimbo.

O Autor escreve em português de Angola

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