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João de Sousa

Quarta-feira, Outubro 5, 2022

Uma estratégia europeia para a frente Sul

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A nossa Europa está a desenvolver uma mentalidade isolacionista em relação à sua vizinhança meridional, levando a que esta apenas pareça existir sob a forma de embarcações de refugiados, e não como uma realidade humana complexa nossa vizinha a necessitar de uma atenção urgente.

O presente fenómeno de transformação do jihadismo de força irregular, que na Europa se faz notar apenas pelos esporádicos massacres terroristas, em movimento imperial dominado pelas potências tradicionalmente rivais do Irão e da Turquia não parece estar a ser entendido pelos responsáveis europeus, e menos ainda integrado no quadro global dos desafios que enfrentamos.

Na sua vizinhança, a China não hesita em usar a força para se afirmar, como demonstrou com a ocupação do mar do Sul da China, mas noutras paragens, a China aposta num cenário de penetração suave no mundo inteiro, incluindo na Europa. O seu instrumento fundamental é o dinheiro com que compra posições estratégicas e corrompe as elites políticas, bem como o aparelho institucional usado integralmente para essa penetração.

A China trata com mão de ferro as suas minorias muçulmanas, nomeadamente as do Turquestão Oriental onde detém em campos de reeducação um número estimado entre um e três milhões de habitantes, o que mostra como a sua relação aparentemente boa com as potências jihadistas é meramente instrumental e tem como único ponto comum o combate ao Ocidente.

A Rússia sem capacidade económica mas com alguma capacidade militar tem uma lógica de penetração quase exclusivamente baseada na força, tanto a Ocidente como a Sul. Com minorias muçulmanas mais significativas do que as chinesas, a Rússia desenvolve uma estratégia selectiva em relação ao jihadismo, aliando-se a umas facções – no plano interno, tem uma grande dependência do Emirato Checheno, e no externo tem uma aliança sólida com a Teocracia iraniana – mas combatendo outras, como o faz na Síria ou na Líbia.

A Turquia com Erdogan resolveu responder ao desafio lançado pelo seu eterno rival iraniano copiando o modelo de expansão jihadista com base em alianças tácticas e pontuais estrategicamente contraditórias. A Turquia rivaliza e alia-se com praticamente todos os actores mundiais num delicado equilíbrio que me parece difícil de manter a prazo.

Erdogan conseguiu em Ancara o acordo da aliança irano-russa para desencadear a limpeza étnica no Curdistão sírio, manteve a Europa quieta com a mera ameaça de deixar partir os refugiados sírios para território europeu e conseguiu a neutralidade da Administração Trump (que despediu mesmo os seus dois homens chave no aparelho de defesa e segurança por estes discordarem desse passo) por razões que a razão desconhece.

Erdogan desenvolve agora uma manobra mais arriscada ao enviar forças para a Líbia em defesa da fação jihadista acolitada em Trípoli e Misrata, aparentemente desafiando Moscovo que estaria do lado do Exército Nacional apoiado pelo Egipto.

Poderá Moscovo estar a medir as vantagens de poder trazer a instabilidade ao flanco Sul da Europa contra as desvantagens de deixar clãs jihadistas rivais dos seus aliados tomar posições no Norte de África? Ou trata-se apenas de assumir a sua incapacidade para se fazer respeitar pela Turquia?

A potência que mais fielmente reproduz o Jihadismo moderno e que de longe é a mais perigosa, a teocracia iraniana, continua a prosseguir a sua expansão e a contar com uma quase neutralidade ocidental, com a excepção, até ver, da Administração Trump.

Apesar dos violentos protestos de que é alvo no mundo árabe, que sofre a ocupação pelos seus Guardas Revolucionários Islâmicos, protestos que são igualmente violentos dentro de portas, a teocracia prossegue a sua expansão baseada numa sólida aliança com a Rússia e numa ‘síndroma de Estocolmo’ ocidental.

A teocracia iraniana tem-se revelado extremamente eficaz na manipulação estratégica internacional conseguindo manter realidades virtuais fictícias antagónicas de acordo com o seu público-alvo, e isto é assim desde que tomou o poder há quarenta anos.

Em 1979, fazendo dos diplomatas americanos reféns, conseguiu negociar a sua libertação com ambos os pretendentes às eleições de 1980, obtendo as armas que necessitava para a sua guerra com o Iraque. Ainda no mesmo ano, instigou um golpe de Estado jihadista na Arábia Saudita com o argumento de que a Coroa era corrupta e estava nas mãos do Ocidente, ao mesmo tempo que conseguiu convencer esse mesmo Ocidente que o Jihadismo era obra da mesma Arábia Saudita.

De lá para cá o Irão não mudou em nada a sua estratégia mas nunca deixou de ter uma sólida base de apoio de ocidentais dispostos a acreditar em toda a sua desinformação, mesmo que esta se tenha revelado repetidamente falsa.

A Europa tem de enfrentar ambos os imperialismos jihadistas que se erguem a Sul, apoiando o mundo árabe que lhe quer fazer face. É verdade que no Médio Oriente só Israel se pode considerar uma plena democracia, e que uma política de democratização é algo de complexo e arriscado de pôr em marcha.

Não há no entanto alternativa se a Europa não quer ver estender-se no seu território a guerra que o imperialismo jihadista desenvolve. Quanto mais depressa a Europa o entender, melhor.

Foi neste contexto que participei numa reunião interparlamentar árabe de apoio ao Ahwaz (zona árabe conhecida por Arabistão ocupada no século XX pelo Irão) que teve lugar no Kuwait promovida pelo Dr Abdullah Fahad Al-Enzi, presidente do Comité Político do Parlamento o Kuwait, reuniu dezenas de antigos parlamentares e alguns parlamentares no activo no dia 21 de Dezembro no Kuwait.

Dr Abdullah Fahad Al-Enzi, presidente do Comité Político do Parlamento o Kuwait, com Paulo Casaca

Na minha qualidade de único não-árabe convidado para a conferência fiquei muito impressionado com o caminho que está a ser feito no Golfo, especialmente pelos países de regime mais livre, como o Koweit e o Bahrain, tentando encontrar uma nova base para o encontro internacional árabe fundado nos direitos humanos, na não discriminação e no desenvolvimento desafiando o imperialismo teocrático e a sua manipulação religiosa.

Foi um princípio de que espero venhamos a ter desenvolvimentos positivos.


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