do avesso

A Batalha que nos espera

Alexandre Honrado, Historiador, Professor Universitário; investigador da área de Ciência das Religiões

Arauto de uma religião nova, o grupo ugandês que se afirmou como a seita dos adeptos de Nabassa Gwajwa (a jovem que se dizia ressuscitada e reenviada por Deus à terra para nos salvar ou, pelo menos, indicar o caminho da salvação), tornou-se de festivamente apologético num grito de bando feroz e quase indomável.

Os seus membros, mostraram comportamentos progressivamente radicais. Os noticiários, mesmo assim, pouco falaram dos seus excessos.

Aqui no ocidente praticamente ignorámos o que se passou com os seus desmandos. Esses radicais, de etnias Hima e Tutsi, no entanto, tornaram-se tão incómodos que deram trabalho permanente à polícia ugandesa, que procurava defender os inocentes que eles perseguiam.

Enquanto isso, o cristão australiano Dennis Michaèl Ronan incendiou a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém e a seita apocalíptica Aum, do “messias” Shoko Asahara, atacou o metropolitano de Tóquio com gás sarin.

Também uma seita cristã, liderada por duas norte-americanas, foi expulsa de Israel por promover desacatos e anunciar o fim do mundo, de uma forma mais do que expressiva: fundamentalista, violenta, imoral e ilegal. Seitas como A Casa da Oração e O Templo de Salomão, foram convidadas a retirar-se dos seus acampamentos perto do Monte das Oliveiras, em Israel, pois as suas posições radicais e fundamentalistas descambavam em pontuais acções violentas, que, progressivamente, preconizavam o pior.

A seita americana Concerned Christians levou o mesmo caminho, depois de ir até Jerusalém pregar o fim do mundo e promover a ressurreição dos mortos com actos violentos e desacatos variados.

Um relatório do FBI – chama-se Projecto Megiddo, se alguém tiver curiosidade de aprofundar o que digo – denuncia os riscos de violência vindos de organizações religiosas que alegadamente armazenam armas em esconderijos secretos tendo em vista efectuar atentados contra bases do exército americano, delegações da ONU, instituições judaicas, a comunidade negra norte-americana e as minorias sexuais nos EUA com o mesmo discurso fundamentalista onde se alicerça a campanha do Republicano Donald Trump às eleições americanas, agora em curso.

Enquanto muitos se divertiam na copa do Mundo brasileira, Israel protagonizava um “massacre atroz” no bairro de Shajaya, na periferia leste da cidade de Gaza, onde foram mortos pelo menos 62 palestinianos civis – a lista divulgada referia o nome e a idade dos assassinados e incluía 17 crianças, 14 mulheres e 4 idosos; mortos pelos bombardeamentos do exército israelita.

Já que falámos na Copa do Mundo, e por falar em Brasil, mesmo que as notícias não “abram” os serviços noticiosos em nenhum País do mundo, é assustador verificar os detalhes sobre os ataques sofridos pelas religiões de matriz africana em vários lugares do Brasil.

Quem as ataca são as religiões evangélicas, principalmente, as chamadas neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus. Estes ataques, infelizmente, não são nenhuma novidade na história dos conflitos religiosos no país.

Desde a sua fundação, no século XVIII para o século XIX, o candomblé, por exemplo, sempre foi alvo de perseguições, violências físicas, morais e psicológicas de igrejas católicas, estado, polícia, justiças e grupos fanáticos incentivados pelos órgãos de comunicação.

O genocídio de Srebrenica nunca foi esquecido. Recentemente, revisitámos alguns dados sobre o conflito, quando o ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic foi condenado a 40 anos de prisão pela sua responsabilidade no genocídio em Srebrenica, em decisão histórica do Tribunal Penal Internacional da Ex-Jugoslávia, em Haia, na Holanda.

Cabe apelação da sentença. O maior crime cometido na Europa depois da Segunda Guerra Mundial está bem patente na lista de muçulmanos bósnios mortos, que podemos ler no Centro Memorial de Potocari, no leste da Bósnia-Herzegóvina.

A disputa entre sérvios cristãos ortodoxos, croatas católicos romanos e bósnios muçulmanos teve início em Abril de 1992 e deixou um rasto de aproximadamente 200 mil vítimas. O conflito só chegou ao fim em Dezembro de 1995 quando os sérvios, com a capital ameaçada, assinaram o Acordo de Dayton, na cidade de Paris, estabelecendo o armistício.

Na China, desde 20 de Julho de 1999, mais de 100 mil praticantes do Falun Gong – que na realidade não se reclama como uma religião, mas como prática avançada de valores da mente e do corpo – incluindo mulheres grávidas, idosos e crianças em tenra idade, têm sido enviados para campos de trabalho forçado sem julgamento; milhares foram ilegalmente encarcerados, por períodos até superiores a 18 anos; e milhões de pessoas inocentes foram detidas e presas arbitrariamente, quase todos sob condições desumanas.

Milhares de praticantes foram detidos e severamente torturados com drogas prejudiciais causadoras de danos ao sistema nervoso em hospitais de saúde mental. Outros milhares foram assassinados na prisão, enquanto incontáveis outras mortes estão ainda sem explicação.

Em entrevista publicada há um par de dias na imprensa portuguesa, Ziauddin Sardar, reformista muçulmano, que esteve em Lisboa a convite da Fundação Champalimaud, acredita que se um grupo terrorista for destruído outro ocupará o seu lugar. Isto, até se atacar a ideologia na base do extremismo, o wahhabismo saudita. Riad e os terroristas usam as mesmas leis, diz.

Sabemos que os terroristas do El (ISIS) fazem dos tipos da Al-Qaeda e dos Talibãs meninos barbudos de coro, só que a música que cantam tem a letra do credo salafista radical que opera uma limpeza religiosa à sua volta por razões evidentes: os interesses de quem organiza cenários de guerra tornam-se mais fortes quando uma ideia une o povo que enfileira os corpos que batalham.

 

O petróleo como fé

À falta de uma ideologia uma religião serve perfeitamente. Mas não há aqui nada de religioso no conteúdo. No mundo ocidental, joga-se o interesse económico do domínio de uma zona rica e fundamental para o modelo capitalista dos nossos dias, com o petróleo como fé.

No mundo do médio oriente, Arábia Saudita, Qatar, Koweit à cabeça,  o financiamento de grupos como o EL/Isis para dominar territórios como o da Síria e do Iraque, serviam o mesmo fim: a garantia da defesa do interesse económico pelo domínio de uma zona rica e fundamental para o modelo capitalista dos nossos dias, com o petróleo como fé.

Durante o período de 1525 a 1648 a Europa foi assolada por guerras religiosas. É importante reconhecer, porém que, ainda que a religião tenha sido usada como motivo das guerras também havia muitas outras razões, dentre elas terras, dinheiro e economia, poder político, recursos naturais e várias outras.

Mas o que aqui fica descrito não tem mais de trinta anos. É a nossa história mais do que recente – e não a velha história -, que parece ganhar o bolor do esquecimento e divorciar-nos da realidade à medida que se distancia de nós.

O que aqui fica são dados. Não se desmentem, a História registou-os. A opinião, se ma pedirem, é que há muita batalha pela frente.

Alexandre Honrado

Alexandre Honrado

Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

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1 Response

  1. 5 Abril, 2016

    […] Continua… […]