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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

2016, o Ano das Facas Longas

Mendo Henriques
Professor na Universidade Católica Portuguesa

Com a execução de Ernst Röhm, o líder nacional e socialista das SA, ficou completa a separação de águas entre o Hitler eleito democraticamente e o Hitler totalitário. Com o apoio das grandes instituições alemãs, do exército, da finança e da academia, a noite das facas longas foi decisiva na marcha para a guerra e o Holocausto.

Estamos no séc. XXI. No mundo real da democracia, assaltada pelo terrorismo islâmico. No mundo da globalização onde tudo está em relação com tudo. No mundo da internet onde as informações chegam em tempo real a quase todos. No mundo em que também existe União Europeia e não só nacionalismos à solta. Contudo, apesar destas diferenças, 2016 foi o ano das facas longas em que se sucederam escabrosos processos políticos internos no Ocidente.

Radicalismo

Na Inglaterra, Estados Unidos e Brasil e ainda na Turquia, veio ao de cima o radicalismo pequeno burguês a que alguns chamam de populismo; um tal radicalismo renasce quando as classes médias são empobrecidas pelos poderosos e agrava-se quando a globalização já não responde às crises internas.

Na Grã-Bretanha, Cameron caiu no referendo de junho perante as facas longas do seu partido, entre as quais Boris Johnson, Michael Gove e Theresa May e o pequeno burguês Nigel Farage, do UKIP. A população desempregada das províncias da Inglaterra deu-lhes a sua confiança.

Em troca, a população nada recebeu. Agora que vieram ao de cima as contas do Brexit, a fração da classe política inglesa eleita pela população para gerir o país hesita entre o brexit duro e o mole ou não fazer nada.

Nos EUA, tudo indicava que Hillary Clinton venceria, apoiada por Wall Street e os media. Teve mais 4 milhões de votos do que Trump mas perdeu. Bernie Sanders tinha soluções de paz para a infra-estrutura americana a deteriorar-se enquanto Hillary prometia novas guerras. Perante tal escolha, o eleitorado, vendo 45 milhões de desempregados e 12 a 15 milhões de pessoas sem abrigo – votou por Trump.

Foi uma reação desesperada à situação interna dos EUA, com dívida pública crescente e despesas gigantes de guerra. A dívida pública é de 19,7 milhares de milhões de dólares em 2016, e a previsão para 2020 é de US $ 23,3 milhares de milhões. O PIB é estimado em US $ 16,9 milhares de milhões em 2016, e a previsão para 2020 é de 18,5 milhares de milhões. As pretensões imperiais dos Estados Unidos não só saem caras, como minam a segurança nacional.

As relações de poder entre Wall Street, o Congresso, o Pentágono e as agências de segurança ditarão a evolução do governo dos bilionários. No governo federal, o presidente não faz o que quer, mas o que pode, conforme os interesses do complexo militar-industrial que condiciona os dois partidos.

Os media mentiram

No Brasil, as facas longas dos parlamentares Temer e Cunha, aliados de longa data de Dilma, ergueram-se contra uma presidenta de um partido com suspeitos e corruptos, mas que, ela própria, não era alvo de investigação. Os media afirmaram aos quatro ventos que a economia brasileira estava mal por culpa exclusiva de Dilma, omitindo até a gravidade da crise internacional.

Os media brasileiros garantiram que bastaria depor a presidenta eleita, para a economia voltar a crescer. Muitos acreditaram e foram para as ruas gritar ‘Fora Dilma’. Agora, a mesma media confessa que a economia está a desabar. A confiança dos mercados em Michel Temer e na volta de investimentos, empregos e rendimentos é nenhuma. Os media mentiram!

Na Turquia, o presidente neo-islâmico Erdoğan utilizou o golpe de 15 de julho para lançar um contragolpe. Desde então, as facas longas continuam a expurgar os apoiantes Gulenistas e Curdos nas forças armadas, tribunais, universidades, órgãos de comunicação e ministérios.

A democracia em mau estado

Deixamos 2016 com a democracia em pior estado. A opinião pública, cada vez mais desarticulada pelos próprios media que lhe deveriam dar voz, influencia cada vez menos os governos. Pelo contrário, crescem os elementos autocráticos em nações como a Hungria e a Polónia e a ronda de eleições de 2017 irá mostrar o peso do estado de emergência como política de Estado.

As elites conservadoras da Europa que queriam a vitória de Hillary e de Cameron ficaram desorientadas em 2016 com o triunfo das facas longas. Estas não precisaram de matar, como nos anos 30, salvo as exceções na Turquia; bastou-lhes encontrar novos agentes para os poderes de sempre.

Receberam o apoio popular pelas mesmas razões dos alemães dos anos 30: a situação interna prevalece sobre a situação internacional; a resolução da crise social e económica afigura-se mais importante que a segurança entre as nações.

Golpes de teatro

Nestes últimos dias de 2016, o ano dos golpes de teatro, ainda temos a crise em aberto do Médio Oriente em que um Putin intervencionista está à espera de lidar com um Trump mais isolacionista e protecionista.

As elites europeias desorientadas com as escolhas do Brexit e de Trump têm urgentemente de mudar de políticas e defender os valores europeus em vez da taxa de juros do Banco Central Europeu. Só assim poderão criar um terreno de diálogo para a segurança internacional, aproveitando o facto de que, para Trump como para Putin, a guerra é má para os negócios.

Por opção do Autor este artigo respeita o AO90

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

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