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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

90 Poemas de Gunter Kunert

Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Reencontro a edição num acaso de estantes desarrumadas, e que já nem arrumo: vou descobrindo, ao acaso, algo de um antigamente feliz: éramos todos jovens, ninguém tinha morrido. Morreu, porque partiu cedo demais, o jovem Mário Botas, de cujo lirismo onírico tenho saudades.

Com seis desenhos de Mário Botas e um ensaio de João Barrento, foi publicado em 1983 na colecção de Poesia da editora fundada por ele, apáginastantas este volume de Kunert, poeta da RDA ainda não conhecido em Portugal, e que um grupo de colegas da FCSH, da Universidade Nova, traduziu, nas suas reuniões regulares de divulgação de autores contemporâneos. Reencontro a edição num acaso de estantes desarrumadas, e que já nem arrumo: vou descobrindo, ao acaso, algo de um antigamente feliz: éramos todos jovens, ninguém tinha morrido. Morreu, porque partiu cedo demais, o jovem Mário Botas, de cujo lirismo onírico tenho saudades.

O que mais me chamou a atenção, foi ver como os poemas deste autor não perderam actualidade. Viveu na RDA até 1979, e depois fixou-se na Alemanha Federal. Viveu um pós-guerra doloroso,  de memória e sofrimento, e tem na sua escrita poética ora uma esperança, nunca completamente assumida, ora uma visão objectiva, por vezes de quase narrativa, da vivência de uma morte adiada, mas presente. No poema CLÁSSICOS II, em conversa ficcionada com MARX, termina deste modo:

tropeçamos

guiados pela tua palavra

de escuridão em escuridão

barbeados e empregados

e sem salvação.

(trad. R.F.)

 

Este é um poema em que já se perdeu o sonho da utopia que transformaria o mundo e os homens.

Mas logo no primeiro, da abertura do livro, se vê como desconfia dela, e do seu futuro:

Sobre alguns que escaparam

Quando o homem

foi retirado

Dos escombros

Da sua casa

Bombardeada, 

Sacudiu-se

 E disse:

Nunca mais.

Pelo menos não já.

(trad. Y.C.)

 

Ora estamos, depois da Guerra Fria, em várias espécies de guerras, em que o horror nos é mostrado pela televisão, todos os dias, e já. Não são na Europa, que sofre atentados de guerrilheiros, de que se defende como pode, mas são em África, no Oriente e se calhar um dia destes na Ásia.

Em O SOL BRILHA de novo a memória regressa e apaga o riso das crianças que brincam:

O sol brilha. Das janelas

Do prédio novo as mulheres olham

As crianças que brincam. No céu

Passa um avião, nos

Rostos perpassa uma sombra.

Elas Lembram-se.

(trad.Y.C.)

 

Contudo o amor é possível, se não sempre, em momentos especiais e raros. Disso nos fala Kunert em NASCE O DIA: sai de um encontro amoroso, percorre as ruas vazias “ao amanhecer do dia claro”, vai caminhando ao longo de ” longas muralhas de casas, junto às fachadas de pedra”, saído dos braços da mulher com quem esteve, do “seu quarto, da porta e da casa”. Um homem só, que não tem casa, nem quarto, nem, por pequeno que seja, um raio de sol na vida. A morte não lhe sai da alma, embora a última estrofe aluda a um sonho possível:

Sair assim um dia do mundo,

Ao encontro do frio,

 Serenamente sentindo o sangue quente,

Bem ciente de ter vivido bem.

(trad. Y.C.)

 

Adiante falará, em APONTAMENTOS A GIZ, daqueles para quem 6 milhões de mortos é um número e não esconde a consciência que tem de que continuam “bem vivos os zelosos assassinos /ainda e sempre”.(trad. J.B.)

É neste momento, como foi outrora, uma leitura necessária, a deste poeta, falecido em 2019 aos 90 anos. Fechou-se um século, abriu-se uma nova era, mas não se deve perder a memória do que foi o horror, que estará ainda e sempre à espreita, vestido de outras roupagens, insidioso, oportunista, sem escrúpulos e sem medo.

Gunter Kunert

90 Poemas

 

apáginastantas

1983


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