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Terça-feira, Outubro 26, 2021

A cabeça no lugar para entender a sede do rio e a fome de milhões neste mundo

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

A música popular brasileira sempre esteve antenada nas questões da vida do povo. Mas nesta semana está triste porque morreu um compositor bom de música, talvez de bola, mas de vaia sem dúvida. O compositor, cineasta, pintor e escritor Sérgio Ricardo (1932-2020) morreu nesta quinta-feira (23).

Além desse importante artista paulista, nesta edição temos o talento da brasiliense Dessa Ferreira, da pernambucana Duda Beat, do grupo paulista Os Mutantes e do também pernambucano Dominguinhos (1942-2013).

Isso mostra a riqueza e a diversidade da música popular brasileira que mantém os olhos bem abertos, os ouvidos atentos e a cabeça no lugar contra todo ódio que possam jorrar contra a vida e o amor.

Sérgio Ricardo

O paulista Sérgio Ricardo superou as intensas vaias que a sua canção “Beto Bom de Bola” sofreu no Festival da Record, de 1967, quando quebrou o violão e o atirou à plateia. A manchete do jornal Notícias Populares foi: “violada no Palco”. Seguiu em frente e fez carreira mesmo sem destaque na mídia comercial. Como acontece com muitos autores brasileiros, que sobrevivem mesmo invisíveis à essa mídia.

De origem libanesa, João Lutfi, conhecido como Sérgio Ricardo, além de importante atuação na bossa nova, se destacou no cinema com trilhas sonoras como em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha (1939-1981) e em direções de filmes, como “Bandeira de Retalhos” (2018).

Aqui a canção “Calabouço” onde canta:

“Olho aberto, ouvido atento
E a cabeça no lugar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Do canto da boca escorre
Metade do meu cantar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Eis o lixo do meu canto
Que é permitido escutar
Cala a boca moço. Fala!”

 

Calabouço (1973), de Sérgio Ricardo

 

 

Dessa Ferreira

A brasiliense, filha de nordestinos, Dessa Ferreira escolheu morar em Porto Alegre, depois que foi para a capital gaúcha estudar música popular na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  Aqui a sua canção “Pulso”, lançada neste sábado (25), para homenagear o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha e falar de suas raízes africanas e indígenas. “Eu me vejo como uma pessoa negra e de origens indígenas, mas a minha família nunca foi ativista assim. Tudo por conta dessa cultura de embranquecimento, pela busca de ser aceito”, disse ela em uma entrevista.

“Eu sou incessantemente reprovada até mesmo se comprovadamente aprovada
Pois a suposta prova de que não sou capaz é um legado que carrego nas costas!
São marcas profundas, mágoas oriundas de um sequestro da minha capacidade
Sim! Fui violentamente sequestrada da minha cidade
Cidade natal, cidade a qual eu irei morrer sem conhecer
é isso que eles querem ver
nossos corpos alvejados, ou trancafiados…
desamor entre os iguais
números nos jornais”

 

Pulso (2020), de Dessa Ferreira

 

 

Duda Beat

Duda Beat nasceu Eduarda Bittencourt Simões, em Recife. Adotou o sobrenome Beat para homenagear o movimento manguebeat, dos anos 1990. Sua música é uma mistura de sons, indo do brega às canções regionais, passando pelo rock e pela MPB.

“Eu nunca senti desapego por ninguém
Com você experimentei
Não resisti”

 

Bixinho (2018), de Duda Beat e Tomás Troia

 

 

Os Mutantes

Talvez a mais emblemática banda brasileira de rock nasceu em 1966. Já no ano seguinte, Os Mutantes acompanhavam Gilberto Gil no Festival da Record de 1967, com a música “Domingo no Parque”, que tirou o segundo lugar. Eram tempos aguerridos com passeatas contra a guitarra elétrica, forte repressão policial aos movimentos populares e sociais e censura às artes.

Composta por Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias, a banda carregava influência dos Beatles, Jimi Hendrix e muitos outros grandes nomes do rock, participou do tropicalismo com muito talento. Foram grandes enquanto existiram como grupo até 1978, mesmo sem Rita Lee que logo partiu para carreira solo e se mantém até hoje como uma das mais importantes compositoras brasileiras.

A “Balada do Louco” é um grito contra a opressão e o enquadramento das pessoas, principalmente de artistas a modelos preestabelecidos como também contra a usurpação da indústria cultural. Arnaldo Baptista teve problemas com transtornos mentais.

“Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz”

 

Balada do Louco (1972), de Arnaldo Baptista e Rita Lee

 

 

Dominguinhos

José Domingos de Morais se tornou Dominguinhos, um dos maiores nomes da música popular brasileira e um dos principais representantes da música nordestina. Muito influenciado por Luiz Gonzaga, fez o seu próprio caminho com uma carreira sólida deixando centenas de canções para a eternidade.

“A sede do rio quem bebe é o peixe
Deixe, deixe, deixe, deixe
A fome do pão quem como é o chão
Deixe então, deixe então”

 

A Sede do Rio a Fome do Pão (1983), de Dominguinhos


Texto em português do Brasil


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