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João de Sousa

Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

A campanha do Bife

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Com a adesão do Bloco de Esquerda à social-democracia é verdade que a campanha política legislativa se tornou bastante maçadora, sobrando apenas trocas de desinteressantes galhardetes e promessas que ninguém leva demasiadamente a sério.

De fora ficou o PCP – dilacerado internamente pela adesão à geringonça – que, convenhamos, quarenta e cinco anos depois do 25 de Abril não escandaliza nem entusiasma quem quer que seja e… o PAN.

Suscitando mais irritação e sarcasmo do que adesão, o PAN conseguiu tornar-se o elemento central da campanha, trazendo para o nosso país grande parte dos debates existenciais que grassam pelo mundo ocidental levando mesmo a que o Governo se partisse em facções pró e anti bife com António Costa a tentar o consenso com uma malograda aposta no peixe.

O bombardeamento começou a propósito de uma tirada de gosto duvidoso algures no espaço das redes sociais sobre a existência de pessoas a mais neste mundo, que foi transformado em prova irrefutável das sinistras ambições do PAN por a pessoa em causa ter sido no passado dirigente do partido.

É verdade que uma facção importante da ecologia contemporânea tem uma lógica extremamente perigosa. A humanidade polui, é má e produz CO2, e no fundo uma limpeza mais ou menos radical seria a solução. E depois, o homem é superior em quê aos animais?

Acho boa ideia que o cidadão se previna contra estas lógicas que inevitavelmente levarão aos mesmos resultados a que levou a doutrina do ‘Lebensraum’ se não lhe fizermos frente, mas não acho boa ideia resumir o debate a isso.

Há formas humanas e positivas de olhar para o bem-estar animal em particular e seguramente para o ambiente, um socio-ambientalismo, ou se quisermos a democracia social e ambiental.

Era eu criança ainda quando vi o ‘2001 Odisseia no Espaço’ e fiquei siderado com o problema a que, mais de meio século passado, continuo a não saber dar resposta. O progresso científico da humanidade leva inexoravelmente ao questionar da mesma humanidade, e isso quer dizer que devemos parar esse progresso? E se sim, em que ponto? E mesmo se acharmos que sim, isso é realista?

Não tendo eu resposta para estas questões, não penso no entanto que seja possível ignorarmos o quão cada vez mais estamos mergulhados em questões como a do bife. Na minha infância o bife era o inglês que o comia, porque a pobreza agrícola crónica do país tornava-o uma iguaria longe das possibilidades do cidadão.

O bife veio com a democracia – ou pouco antes dela, com o marcelismo – e tornou-se símbolo da ascensão do país. O prego, calão lisboeta, rapidamente se espalhou, seguido do bitoque, do filet mignon e de muitos outros que são ainda novidades para muitos de nós quando chega a notícia da sua ameaça de extinção.

E no entanto, o movimento está em marcha há bastante tempo. O bife sintético continua cada vez mais próximo do prato a preços abordáveis; os falsos bifes, feitos à base de matéria vegetal ganham cada vez uma maior parte do mercado nos mercados ocidentais, onde a sedução pelo vegetarianismo e o horror pela pecuária se vão desenvolvendo.

A vaca aparece como a inimiga pública número 1 do ambiente, porque, pelos métodos intensivos com que é hoje generalizadamente criada, é a mais consumidora de recursos e, suprema das ironias, é também a grande responsável por emissões de metano.

E vai daí, pelo que se lê no ciberespaço, o reitor da Universidade de Coimbra terá decretado a extinção da vaca nos menus da cantina, em gesto entusiasticamente apoiado pelo PAN que quase gerou uma guerra civil e que serviu para dar alguma emoção a uma cinzenta campanha.

Não creio que seja uma guerra que vá terminar tão cedo, e por isso há alguns pontos que me parecem importantes.

Os responsáveis públicos têm de tomar consciência dos desafios a que estão sujeitos. Não, não creio que a solução seja a de fechar fronteiras ou querer obrigar as autoridades pública a promover o consumo do que produzem. Trata-se antes de entender a mensagem e promoverem a adaptação à realidade.

A sociedade civil deveria preocupar-se ser alvo de campanhas deformadas, tentar separar o trigo do joio e habituar-se à ideia de coexistir com várias sensibilidades e opiniões sem por isso entrar em guerra civil.

Os políticos em campanha poderão fazer os seus cálculos e agir em conformidade. Com o nosso Presidente da República a posicionar-se já publicamente como chefe do partido do Bife, trata-se agora de ver como age a concorrência.

Espero no entanto que se tome nota de que há outras guerras em curso que são capazes de ser mais importantes para o nosso futuro próximo, como a da teocracia iraniana pela supressão do seu povo, conquista do Médio Oriente e subjugação ocidental.


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