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Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

A dependência energética na UE

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

As ligações pelos gasodutos Nord Stream podem estar moribundas e os líderes europeus podem gabar-se de cortar a sua dependência do gás russo desde que Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, mas a realidade é que as importações de gás natural liquefeito (GNL) russo pela UE aumentaram 46% este ano.

Embora os fornecimentos de gás natural através dos gasodutos tenham caído drasticamente, segundo dados da própria Comissão Europeia, nos primeiros nove meses de 2022 as importações de GNL da Rússia para a UE, por via marítima, aumentaram 46% em relação ao ano anterior. Esta situação, ditada pela necessidade de constituição de reservas para o Inverno, mantem a Europa à mercê de Putin e coloca-a na dependência de outro fornecedor (os EUA, que entre Janeiro e Agosto deste ano, forneceu cerca de 40 mil milhões de m³ de GNL, quase o dobro do valor total do ano anterior) que hoje é visto como fiável, tal como a Rússia já o foi…

Os dirigentes europeus, escolhendo a resposta imediata a um problema de abastecimento energético que eles próprios ajudaram a criar (quando deixaram reduzir o volume de reservas armazenadas em 2021, bem abaixo dos anos anteriores e até da média dos últimos 5 anos, e não preveniram o avolumar das tensões entre a Rússia e a Ucrânia) colocaram-nos novamente numa posição de fragilidade e de dependência, além de contribuírem abertamente para uma subida da inflação ditada pelo aumento dos custos da energia (o gás liquefeito americano, transportado por via marítima, é significativamente mais caro que o gás liquefeito russo, para mais quando recebido por via dos gasodutos) que tentam mascarar com o discurso da necessidade de cortar as receitas russas.

As estatísticas da Comissão mostram que, entre Janeiro e Setembro de 2022, os países da UE importaram 16,5 mil milhões de metros cúbicos de GNL russo (46% acima dos 11,3 mil milhões de metros cúbicos no mesmo período do ano passado), aumento pequeno em comparação com a enorme queda nas importações de gás de gasoduto da Rússia, que caíram para metade (de 105,7 mil milhões de metros cúbicos nos primeiros nove meses do ano passado para 54,2 no mesmo período deste ano). mas o aumento do GNL vai contra a retórica da UE e tem seus próprios riscos que ainda assim não obstaram a que as importações por via marítima tivessem alcançado um novo máximo, com destaque para França, Holanda, Espanha e Bélgica como os principais importadores de GNL russo em 2022, representando a Espanha quase um quarto das remessas russos de GNL para a Europa e a França um terço, algo que não se deve estranhar quando a petrolífera francesa TotalEnergies é accionista de quatro empresas russas do ramo: Novatek (19.4%), Yamal LNG (20%), Arctic LNG 2 (10%) e a TerNefteGaz (49%).

É ainda preciso não esquecer que a UE depende completamente da importação de hidrocarbonetos, especialmente do gás, combustível que, de acordo com os dados do Eurostat é responsável pela produção de mais de um terço da energia eléctrica e calorífera e de quase um quarto da produção industrial comunitária.

Por isso e na ausência de alternativa energética válida, estimativas da IEA (Agência Internacional de Energia é uma organização internacional sediada em Paris ligada à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que actua como a orientadora política de assuntos energéticos juntos dos países membros) admitem que no Verão do próximo ano se registe um défice de 30 mil milhões de metros cúbicos de gás natural para completar as reservas europeias, não será de estranhar que apenas dois países da Europa – o Reino Unido e a Lituânia – tenham suspendido completamente as importações russas de GNL e embora o acréscimo dessas importações acarrete o aumento do potencial para este ser usado como uma arma geopolítica – como sucede com o gás de gasoduto – subsistem as fortes razões económicas para manter as importações de GNL da Rússia para os restantes países europeus, pois interromper esse fluxo para um mercado da dimensão do da UE significaria comprar mais GNL de outras partes do mundo e assim contribuir para o aumento da pressão no sentido de uma subida ainda maior dos preços.

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