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Quarta-feira, Dezembro 7, 2022

A disfuncionalidade Europeia

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Concluída a agenda, tirada a foto de família e sem lugar a comunicado final, tais terão sido as dificuldades em negociar um texto que satisfizesse americanos e chineses, ninguém estranhou a irrelevância da UE na ausência de balanço dos trabalhos de mais uma cimeira do G20, tantos e tão conhecidos são os factores explicativos para esta degradante realidade, evidente desde uma constantemente reafirmada subserviência aos interesses norte-americanos – raramente beliscada e agora, com uma guerra em curso no continente, ainda mais absurdamente evidente –, expressa na desconcertante presença de três chefes de governos europeus (Alemanha, França e Itália), agravada por uma bicéfala direcção europeia (que representa a terceira economia mundial em termos de PIB, em paridade de poder de compra, e o segundo mercado em termos de consumo) distribuída entre a presidência da Comissão Europeia e a do Conselho Europeu, num momento em que as relações entre os seus representantes nunca foram tão frias.

Em lugar da natural e indispensável coordenação, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, continuam a evitar-se e a trabalhar com as suas equipas de costas voltadas uns para os outros, salvo para garantirem qualquer sobreposição de itinerário dos respectivos chefes.

A parceria disfuncional não afecta apenas as agendas legislativa e política de uma UE, que depende de um delicado equilíbrio interinstitucional (onde a Comissão é o braço executivo do bloco, com capacidade de propor legislação, o que coloca o seu presidente no centro de quase todas as iniciativas da UE, mas o Conselho é onde os chefes de Estado ou de governo se reúnem para transformar propostas em lei e embora o seu presidente desempenhe apenas um papel de coordenação, moderando o debate entre os verdadeiros tomadores de decisão, a sua posição está indiscutivelmente mais próxima de onde está o verdadeiro poder do bloco); a rivalidade entre a Comissão e o Conselho potenciada pelo sistema bizantino da união (onde o Parlamento Europeu, com o seu próprio presidente, poderia oferecer um terceiro centro de poder, que, felizmente, não é outra coisa senão um parente pobre naquela disputa) está já a ameaçar gravemente a já de si muito reduzida credibilidade da UE no mundo.

Numa relação que nunca primou pela cordialidade, tudo culminou no episódio do “sofagate” (quando, em 2021. num encontro com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, Charles Michel prontamente ocupou a única cadeira ao lado do anfitrião, deixando uma surpreendida von der Leyen sentada num sofá lateral) e continua sem dar sinais de melhoria, num clima de tensão e disfuncionalidade, cuja responsabilidade cabe aos dois – Michel pela sua má gestão de incidentes como o “sofagate” e von der Leyen pela sua tendência controladora – sem que de parte a parte surja um lampejo de sentido de Estado e de compreensão da necessidade de colaboração.

Do choque de personalidade entre a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, estarão ainda a resultar maiores dificuldades na definição das políticas económicas comunitárias além das que obviamente resultam das divisões sobre como lidar com Pequim. Destas derivará a natural indefinição relativamente à abordagem da globalização e do seu futuro (vamos continuar a apostar no modelo de concentração da produção na Ásia ou tentar a relocalização de algumas indústrias mais sensíveis e estratégicas) e entre as primeiras contam-se a da descarbonização das economias – desgraçadamente lançada sem que previamente se tivessem assegurado alternativas economicamente competitivas – e mais recentemente a de uma política energética que, oscilando entre o irrealismo e o dogmatismo, está novamente a abandonar os europeus e as suas economias à voragem especulativa.

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