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João de Sousa

Terça-feira, Maio 24, 2022

A grande inventona

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Ingerência russa nas eleições americanas de 2016

  1. A prisão de Igor Danchenko

A fonte principal para a alegada manipulação das eleições norte-americanas de 2016 por Vladimir Putin, Igor Danchenko, foi finalmente preso a 4 de Novembro de 2021. O funcionário da ‘Brookings Institution’ é acusado de, em parceria com agentes reformados da espionagem britânica, inventar toda uma conspiração entre o então candidato Donald Trump e os serviços russos de desinformação para ganhar as eleições de 2016.

O dossier da pretensa conspiração alimentou durante anos a fio a política e a imprensa dos EUA e do mundo inteiro, tendo inclusivamente levado a uma investigação do presidente em funções conduzida por Robert Mueller. Foi apenas uma das inúmeras alegações que foram marteladas anos a fio em todo o mundo por toda uma constelação de instituições que gravitam em torno de serviços de informação ocidentais, que não apenas ou mesmo principalmente a ‘Brookings Institution’.

O carácter efabulatório das acusações desta rede institucional, de que Danchenko é apenas a peça mais em evidência, era já do domínio público há bastante tempo, sendo surpreendente apenas o tempo que as autoridades policiais americanas levaram a proceder criminalmente contra o seu mais destacado protagonista.

A generalidade da imprensa americana está a fazer o seu melhor para menorizar a importância da decapitação desta rede de desinformação, como se as acusações da rede não fossem as determinantes na montagem da ‘inventona russa’ de 2016 e como se a imprensa institucional não tivesse sido essencial na transformação dessa inventona numa grande conspiração, martelando-a ad nauseum.

Na imprensa portuguesa – que normalmente se limita a reproduzir de forma acrítica o que quer que seja que esteja na berra na imprensa institucional ocidental – não encontrei até agora qualquer referência a este escândalo desinformativo.

O universo mediático está assim a fazer tudo para controlar os danos e para que a opinião pública não retire deste caso as necessárias consequências, prevenindo-se assim contra o conspirativismo e a desinformação que a imprensa institucional tem promovido.

  1. A Rússia e a desinformação

A ideia de que o KGB era a principal máquina de desinformação mundial vem do mesmo tempo em que se popularizou a ideia de que a Rússia tinha a capacidade para rivalizar com os EUA não apenas no domínio espacial, mas como em todos, e era amplamente defendida no Ocidente – especialmente nos EUA – como forma de espevitar a necessidade de responder ao desafio soviético.

Não sou especialista na questão e não tenho opinião consolidada quanto à capacidade relativa da máquina de desinformação soviética perante as suas rivais, mas não tenho dúvidas sobre a sua importância.

Quanto aos tempos presentes, constato a existência dessa máquina de desinformação, o que, apesar do declínio do poder russo, é natural e não me parece digno de surpresa. A máquina parece-me não oferecer um grande nível de sofisticação; é certamente menos sofisticada do que a da hidra islamista, ou mesmo do que várias das cabeças dessa hidra.

Qualquer operação de desinformação de qualidade aceitável caracteriza-se por produzir fundamentalmente – e por vezes integralmente – informações verdadeiras, alterando, no entanto, o seu contexto, ou inserindo cirurgicamente no seu seio material inventado.

Que os serviços de informação russos tenham actuado nas eleições norte-americanas é certamente verdade, como é certamente verdade que o recíproco também aconteceu nos momentos mais relevantes da realidade política russa. E o mesmo se pode dizer certamente de outros serviços de informação e de muitas outras circunstâncias.

Que tenha havido um conluio entre o candidato Donald Trump e os serviços russos de desinformação – e foi essa a mensagem directa ou subliminar martelada por todo o lado – isso era uma invenção, como não teria sido difícil de entender.

Que a Rússia tenha tido uma intervenção exclusiva nas eleições americanas ou mesmo mais importante do que outros actores – a começar pelos islamistas – isso foi outra invenção, só possível de manter propositadamente ou por incompetência.

Tudo indica que a teoria da ‘grande conspiração russa’ passou pela inventona do conluio de Putin com Trump, mas que não começou com ela, datando pelo menos de 2015, altura em que Trump ainda não tinha surgido no horizonte e em que ela começa a florescer, tanto nos EUA como na União Europeia.

Para entendermos a facilidade com que se construiu esta teoria da conspiração russa é fundamental ter em atenção que ela não foi contrária aos interesses russos. A apresentação de Putin como capaz de manobrar as eleições americanas e fazer eleger Trump foi largamente utilizada pela propaganda russa para enaltecer a capacidade e o poder do seu líder.

O facto de Igor Danchenko ter passado dois anos no Irão antes de iniciar esta campanha de desinformação parece-me um elemento essencial a reter e que está em perfeita consonância com o papel central de um elemento do regime iraniano na infiltração desinformativa no Conselho da Europa.

A presente campanha de desinformação centrada na grande conspiração russa tem tido como principal efeito o esconder da infiltração e manipulação islamista no Ocidente, e tudo indica que é aí que ela tem origem.

  1. A desinformação e a promoção da guerra

Foi apenas há duas décadas que uma campanha de desinformação sobre ‘armas de destruição massiva iraquianas’ serviu para a manipulação dos EUA e dos seus aliados mais próximos pelo imperialismo teocrático iraniano, levando a que estes abrissem todo o Grande Médio Oriente à influência jihadista iraniana.

Como frequentemente acontece nestas circunstâncias, vários factores contribuíram para o sucesso desta campanha de desinformação, nomeadamente cálculos petrolíferos e erros basilares de compreensão da realidade, mas foi a infiltração iraniana nos círculos de poder ocidentais, especialmente americanos e britânicos, que tornaram a catástrofe possível.

Infelizmente, pouco ou nada se aprendeu com este erro colossal. Nunca foi feito uma análise cabal de como foi possível que os decisores americanos ignorassem ostensivamente as conclusões da Comissão Nacional sobre o 11 de Setembro que evidenciaram que o Iraque nada teve a ver com esse episódio.

Quem não aprende com os seus erros, está condenado a repeti-los. É esta verdade que volta a ser necessário recordar no rescaldo da exposição do essencial da inventona russa de 2016.

 

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