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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

A inteligência sensível

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Do Avesso

(um texto que escrevo, a pedido)
Ando em torno de reflexões antigas, dessas que me motivam mais do que os títulos sensacionalistas das excecionais edições dos jornais da manhã.

Sei que, por isso mesmo, pertenço a um grupo pequenito e sem luzes de palco, desses seres sombrios que se sentem na sua zona de conforto quando não têm de sair da sua cabeça porque as ideias vão e vêm com a alegria da sucessão dos dias e das noites ou com o diligente profissionalismo daquelas furgonetas de entregas a domicílio, que levam a casa encomendas dos supermercados, regressando apressadas para a recolha da encomenda seguinte – e lhes servem perfeitamente aos objetivos pré-traçados.

Em textos antigos do antigo século passado, pelos idos de 80, encontro um, de Lévi-Strauss:

“a cultura consiste no conjunto das relações que os homens de uma civilização dada mantêm com o mundo; a sociedade consiste mais particularmente nas relações que esses mesmos homens mantêm uns com os outros.”

A frase seguinte, da mesma origem,  é ainda mais completa:

“a cultura fabrica a ordem: cultivamos a terra, construímos as casas, produzimos objetos manufaturados. Em contrapartida, as nossas sociedades fabricam muita entropia. Dissipam as suas forças e esgotam-se em conflitos sociais, lutas políticas, tensões psíquicas que fazem nascer nos indivíduos. […] As nossas sociedades tendem a pulverizar-se.”

Trump e o DAESH são iguais

Tenho escrito nos últimos tempos, em grandes caudais, sobre a nefasta figura de Donald Trump – infelizmente até na carruagem do metropolitano já ouvi dizer que aquele sim é que tem coragem e vai dar cabo deles todos, sem que se aprecie devidamente que “eles” somos nós, em toda a extensão desse dar cabo.

Em simultâneo, tenho escrito muito sobre o conceito de inteligência sensível, a inteligência integradora, que adquire as diferenças e sabe interpretar a diversidade cultural, a que se reconhece na mundividência (e na mundivivência), que constrói pontes de intercultura e educa para a cidadania, para a coabitação dos diferentes, para a sociedade que respeita os seus contrastes, para as inquietações relativas aos efeitos de um mundo em transformação – numa metamorfose que parece incapaz de levar girinos a rãs completas, ou lagartas asfixiadas a mariposas de céus festivos.

“Olho por olho”

Pois ambos – Donald Trump e o seu “olho por olho” e a inteligência sensível e o seu promover do(s) ser(es) como humano(s) – são matérias de primeira grandeza e prioritárias.

Pelo enunciado de Lévi-Strauss atrás citado, entende-se que

Trump é inculto. Não só por ter bombardeado o Afeganistão e ter dito em público que o tinha feito ao Iraque ou, em alternativa, à Síria, também por não saber as consequências dos seus atos, e sobretudo por ser promotor de desordem, isto é, de não cultura.

Donald Trump não é portanto muito diferente daqueles assassinos do DAESH que aparecem de fardamentos novos e metralhadoras acabadas de sair da fábrica, que oferecem a morte como ideal e a violência como passaporte para alcançá-la.

Nem Trump nem os assassinos do médio oriente são seres sociais. São incapazes de relacionar-se. E distanciam-se de quem faz e é cultura porque destroem a terra cultivada, as casas erguidas como ponto de encontro de afetos, preferem a destruição maciça das armas das suas grandes fábricas enquanto produzimos objetos manufaturados e precisos.

Trump é igual àqueles que combate. E deixa a dúvida de que o faça com uma intenção diferente da do lucro e do proveito próprio. As dúvidas legítimas vêm do passado fraudulento de outros como ele, capazes de criar cenários legitimadores dos seus intentos que afinal não passam disso.

Atos por julgar no tribunal da Humanidade

Ainda hoje descobrimos detalhes das farsas levadas à cena na guerra do Golfo como as das imagens televisivas dos mísseis Scud no Kuweit, muitas criadas em estúdios. Ou procuramos as armas químicas que Saddam Hussein nunca teve. Tentamos descortinar a verdadeira história de Bin Laden; ou o que esteve realmente na origem do 11 de Setembro.

Duvidamos das (outras) armas químicas que há dias, na Síria, justificaram o bombardeamento dos BGM-109 Tomahawk, também conhecidos como Tomahawk Land Attack Missiles, os mísseis de cruzeiro, subsónicos, de longo alcance (desta vez foram lançados 53 mísseis de cruzeiro e só 23 atingiram o alvo, o aeródromo sírio onde os americanos pretendiam neutralizar membros dos grupos terroristas Daesh e Frente al-Nusra, que operam naquele país)… E sonhamos ainda com as garantias dadas na cimeira das Lages, de 2003, por George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso, numa das inventonas históricas que ficou por julgar no tribunal da Humanidade.

Há em Trump e no DAESH um lado sedutor: vidas vãs e desesperadas encontraram-se com os protagonistas das suas ambições. Trump “vai-se a eles”, o DAESH “vai-se a todos”.

Povos à deriva

Povos à deriva escolhem mal os seus destinos – põem Hitler ou Trump no poder – aplaudem ditadores – que morrem de velhos, como Salazar e Pinochet que felizmente já não estão entre nós -; votam no nacionalismo – a fórmula de destruição das pátrias que os outros amam e cuidam.

A inteligência sensível acusa desgaste intenso.

O tempo em que vivemos é insano.

A cultura recua, escavam-se trincheiras entre as relações humanas, separando-nos; chama-se “mãe” a uma bomba gerada para criar órfãos, como aliás todas as outras bombas.

Vergamo-nos como choupos ao vento. Quebrar ou não – é o nosso destino.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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