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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Prémios do Festival de Cinema de San Sebastián

José M. Bastos
Crítico de cinema

“A Metamorfose dos Pássaros” de Catarina Vasconcelos venceu em ‘Zabaltegi’, a secção mais aberta do certame basco

68º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián

Como referido em texto anterior, a representação portuguesa nesta edição do festival estava concentrada na secção ‘Zabaltegi’ (Zona Aberta) /Tabakalera’, porventura a mais interessante da mostra basca e a que suscita o interesse dos cinéfilos mais inveterados. Um espaço de exibição de filmes menos formais, muitas vezes de experimentação e inovação, tanto na forma como no conteúdo.

Catarina Vasconcelos recebendo o prémio

A Metamorfose dos Pássaros

Por isso, o belíssimo “A Metamorfose dos Pássaros” estava, na nossa opinião na ‘secção certa’ e, felizmente, convenceu um júri que teve que ajuizar obras de Philippe Garrel, Hong Sang-Soo ou Peter Strickland, entre outros. Curiosamente, vimo-lo numa sessão ‘às cegas’ de filmes premiados e portanto sem saber ao que íamos. Uma sala tão cheia quanto possível nesta época de pandemia e com um público em que os acreditados no festival já eram escassos. Foi com grande satisfação que ao começar a ver o filme ficamos a saber quem tinha vencido o prémio “Zabaltegi/Tabakalera”: “A Metamorfose dos Pássaros”.

 

Na secção oficial uma chuva de prémios para o georgiano “Beginning”

Dea Kulumbegashvili carregada de prémios

“Dasatskisi” / Beginning

Não é muito comum ver-se, num festival de cinema, uma concentração de prémios num só filme como a que conseguiu “Beginning” da georgiana Dea Kulumbegashvili: Concha de Ouro para o melhor filme, Concha de Prata para a melhor realização,  Concha de Prata para a melhor actriz (Ia Sukhitashvili) e prémio do júri para o melhor guião.

Nesta altura pensará o leitor que estamos perante um filme extraordinário. E foi isso que o júri terá pensado. Se nos tivessem perguntado qual era o filme menos interessante de quantos estavam em competição não teríamos dúvidas em apontar “Beginning”, mas algo nos deve ter passado completamente ao lado.

“Crock of Gold”

“Druk”

“Any Crybabies Around?”

Quanto aos restantes galardões da secção oficial, o prémio especial do júri foi para “Crock of Gold: A Few Rounds With Shane MacGoowan”, um excelente documentário sobre o músico irlandês, realizado por Julien Temple e produzido por Johnny Depp, a Concha de Prata para o melhor actor recaiu no quarteto de intérpretes – Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e Lars Ranthe – de “Druk” / Another Round, de Thomas Vinterberg (para nós o melhor filme da selecção), e o prémio da melhor fotografia foi para o japonês Yuta Tsukinaga por “Any Crybabies Around?” de Takuma Sato, uma interessante abordagem do universo familiar em que se nota a influência de Kore-Eda, produtor do filme.

 

Outros prémios

  • Prémio Novos Realizadores: “La Última Primavera” de Isabel Lamberti (Espanha/Holanda)
  • Prémio Horizontes: “Sin Señas Particulares” de Fernanda Valadez (México / Espanha)
  • Prémio Nest: “CatDog” de Ashmita Guha (Índia)
  • Prémio Irizar (cinema basco):  “Ane” de David Pérez Sañudo
  • Prémios do Público:  “The Father” de Florian Zeller (Reino Unido) e “El Agente Topo” de Maite Alberti (Chile)
  • Prémio da Juventude: “Limbo” de Bem Sharrock (Reino Unido)

 

Prémio Donostia para Viggo Mortensen

O Prémio Donostia é a distinção de carreira atribuída pelo Festival de San Sebastián. Desde há 35 anos, nomes incontornáveis do mundo do cinema têm vindo a integrar uma impressionante lista de galardoados. Também nestes prémios a edição deste ano foi mais parca. Em 2019 foram três os distinguidos.

Desta vez apenas um: o actor e realizador Viggo Mortensen, nascido em Nova Iorque em 1958, de pai dinamarquês e mãe norte-americana.

A sua presença em San Sebastián foi acompanhada da exibição de “Falling” filme por si escrito, realizado e interpretado.

“Falling” filme escrito, realizado e interpretado por Viggo Mortensen

 

Breves considerações finais sobre o “festival impossível”

Há algumas semanas a pergunta era: será que vai haver de Festival de San Sebastián? Agora pode dizer-se: a 68ª edição do Festival foi realizada!

Apesar de muitas das actividades da ‘Indústria’ terem sido feitas pela internet. Apesar de a lotação das salas ter sido reduzida a 40%. Apesar de muitos não terem podido (ou não terem arriscado) assistir presencialmente. Apesar de as conferências de imprensa não contarem com a presença física de muitos intervenientes nos filmes. Apesar de não ter havido os ‘Encuentros TCM’ e os ‘Desayunos Horizontes’. Apesar de terem sido suprimidas festas e cocktails. Apesar de tudo isto houve Festival!

Sessões com lugares marcados e distanciados. Ausência de filas à entrada e, se as houve, com as pessoas a guardar distâncias. Uso sistemático de desinfectantes. Apelos constantes ao cumprimento das regras sanitárias, dentro e fora das salas de cinema. E ainda houve lugar para expulsar um realizador que, por negacionismo ou por mera parvoíce, se recusou a usar a máscara na apresentação prévia à projecção do seu filme. Com tudo isto se fez o Festival! Dizia-me a ‘Responsable de Prensa Extranjera’: “O importante era fazer o Festival. Não interromper”. Agora pode dizer-se: prova superada e com distinção!

Mas San Sebastian está diferente. Os restaurantes e bares continuam quase todos abertos, mas sem as antigas aglomerações. Nunca foi tão fácil arranjar uma mesa para comer uns ‘pintxos’… Apesar do temporal dos últimos três dias, nos primeiros dias do Festival ainda houve quem tivesse ido até à praia…

E assim foi o (primeiro?) Festival de Cinema de San Sebastián da pandemia. O festival que quase todos diziam ser impossível!


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