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João de Sousa

Quinta-feira, Fevereiro 29, 2024

O Festival de Cinema de Gramado

Foi positivo para o Festival de Cinema de Gramado a sua 48ª edição ter sido online, ao invés de fechada num cinema daquela cidade. E digo isso pelo fato de sua seleção de filmes determinar mais abertura, incluindo produções de estados como Alagoas e Amazonas que nunca haviam participado.

Abaixo estão comentários que fiz para a mostra competitiva durante os sete dias de duração. Essa mostra, na verdade, trouxe quase trinta filmes produzidos recentemente na América do Sul, o que representa uma visibilidade para aquilo que está sendo produzido ultimamente, apesar de todas as dificuldades. Na mostra, não vimos um cinema excepcional,  mas é o que temos, ao que tudo indica. Vale.

Gramado: festival de um cinema sem densidade

Há uma tradição pela qual sempre observamos que o Festival de Cinema de Gramado nunca apoiou um cinema mais denso do ponto de vista da arte cinematográfica. É sempre um Festival que busca atender a um aspecto mais elitista e não de densidade social, como acontece com o Festival de Cinema de Brasília. E hoje é o que encontramos com os quatro filmes exibidos em Gramado no primeiro dia do 48º Festival de Cinema. O curta “4 bilhões de infinitos”, dirigido por Marco Antônio Pereira, de Minas Gerais, conta uma estorinha em torno de um casal de crianças que vive uma sensação de amor. Um média-metragem, “Receita de caranguejo”, dirigido por Issis Valenzuela, de São Paulo, é também uma estorinha em torno de uma menina que se mostrando entediada tenta brincar de cozinhar caranguejo.

Já o longa brasileiro é uma ficção em torno de um grupo de estudantes de psicologia, e dá atenção a uns dois ou três casos especiais sem aprofundar nada do drama social que deveria existir. É dirigido por Cibele Amaral, de Brasília, e se chama “Por que você não chora?”. E o quarto filme é um draminha argentino, “El silencio del cazador”, dirigido por Martin Desalvo. Ele se passa numa comunidade em decadência, não sei em que região argentina, onde um guarda da floresta briga e se indispõe contra um caçador, isso é contado de uma forma muito ‘en passant’, quase como mero filme comercial. O que nos deixa contra (de certa forma) os filmes, é que, como se trata de um Festival onde os filmes são escolhidos, a pretensão é de que sejam ‘os melhores’ e não os bonitinhos.

Olinda, 19. 9. 2020

 


“La Frontera” no Festival de Gramado

No segundo dia do 48º Festival de Cinema de Gramado, entre os filmes em competição teve um que seguiu a ‘estética da fome’, o “La frontera”, e outro que seguiu a ‘estética da Globo’, o “Todos os mortos”. O longa “La frontera” tem produção da Colômbia e foi dirigido pelo cineasta David David. Ele conta a estória de uma jovem grávida que na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela luta para não ficar presa, para assim livrar o seu filho de ser tomado depois do parto. Todo o filme é uma espécie de aventura dessa jovem. Se realmente a atriz não estava grávida, ela  consegue passar para o espectador a ideia de realismo. O realizador é um jovem cineasta e ele não dispensa uma violência cruel a narrativa no seu filme. Nele, o irmão da jovem grávida está participando da guerrilha nas selvas da Colômbia, enquanto ela vive momentos dramáticos. O interessante é seu comportamento realista durante todas as sequências. “La frontera” é um filme cinematograficamente pobre, mas rico em expressão, e me parece que isso acontece principalmente pela forma de interpretação ou de comportamento da atriz principal e do elenco primeiro.

O outro longa é o melodrama paulista “Todos os mortos”, que foi dirigido por Caetano Gotardo e Marco Dutra dentro da linhagem ‘global’, em que tudo é muito bem organizado e os intérpretes negros interpretam de maneira ‘perfeita’, como se fossem pessoas brancas. Interpretam visualmente e falam com a coordenação vocal ‘correta’. Inclusive todos vivem no século dezenove como se fossem habitantes do século 20. Algo que me pareceu excelente nesse filme é a trilha musical, músicas ligadas à religiosidade negra e muito bem interpretadas. Acho que isso aconteceu ‘apesar’ do cineasta diretor. Ainda tivemos no segundo dia de Gramado 2020 um curta pernambucano interessante, dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho. Mostra a estória de uma moça que sumiu de casa e a mãe descobre que ela foi ‘abduzida’, isto é, sumiu no espaço. Boa a interpretação das mulheres que fazem a primeira parte e boa a técnica de filmagem na segunda parte. Na programação ainda teve o desenho animado “Subsolo”, do Rio Grande do Sul, dirigido por Erica Maradona e Otto Guerra. Boa qualidade técnica.

Olinda, 20. 9. 2020

 


Três filmes cariocas em Gramado

Na programação de 20/09,  no grupo da competição passaram dois curtas e um longa cariocas. E um longa mexicano. O primeiro curta foi “Atordoado, eu permaneço atento”, do RJ, dirigido por Henrique Amud e Lucas H. Rossi dos Santos. Ele exibe um jornalista que deitado num leito, doente, no presente fala com objetividade sobre a grande miséria que foi a tortura durante a ditadura militar de 64, e como ninguém foi punido por esses atos. Sua fala é apresentada de forma direta pelos cineastas, mas com poesia e sem violência. E isso faz um belo documento político.

O segundo curta da noite foi “Blackout”, também do RJ, dirigido por Rossandra Leone, e sua temática envolve a violência policial e particularmente contra os negros. Mas isso numa linguagem quase de ficção científica. De certa forma, a cineasta brinca com o tema, o que pode agradar ao espectador que gosta de violência no cinema, esquecendo a violência na vida real.

O longa carioca é “Um animal amarelo”, do Rio de Janeiro, dirigido por Felipe Bragança. É um filme de memórias envolvendo a vida em Portugal, Moçambique e Rio de Janeiro, que certamente ocupará um espaço no cinema brasileiro e talvez dos outros dois países. O debate que acontece com a equipe mostrou pessoas com muita maturidade e por isso certamente conseguiram esse bom resultado, mesmo que não tivessem um grande orçamento. São memórias críticas e muito do ponto de vista intimista. Parece na verdade alguém escrevendo sobre fatos pessoais como se fosse um escritor. O que é bom pois o roteiro está bem ligado ao diretor.

E por fim o longa mexicano “Dias de invierno”, que foi dirigido por Jaiziel Hernández. A produção tenta falar sobre o México, mas ainda é muito incipiente. A equipe ainda precisa caminhar muito para chegar no bom cinema que conhecemos desse país.

Olinda, 21. 9. 2020

 


Filme do Uruguai no Festival de Gramado

O destaque do quarto dia foi o filme do Uruguai, “El gran viaje al país pequeno”, criado pela cineasta Mariana Viñoles. Ela narra a estória de duas famílias sírias que estavam no Líbano e aproveitaram um programa do governo Mujica para virem morar no Uruguai. No começo parece um filme ‘oficial’, mas depois vemos que não. É um filme que documenta toda a ação, mas a narrativa tem o ritmo de uma ficção. Esse jogo de ficção e realidade foi muito bem jogado pelos realizadores. Muito bem postas as falas e o comportamento das pessoas que na realidade são intérpretes, mas são os próprios imigrantes. E é ainda uma obra que consegue mostrar o quanto é difícil a vida de pessoas que são forçadas a saírem de suas próprias nações. Nunca estão satisfeitas no novo local e esperam sempre a volta.

O primeiro curta da noite foi “Wander Vi” que conta a estória de um jovem que luta para se tornar um artista da canção. Mas os diretores Augusto Borges e Nathalya Brum realmente não tiraram um filme dessa estória. Me parece que não merecia ser selecionado para um festival. O outro curta foi “Extratos”, e junta alguns momentos vividos pelo casal Rogério Sganzerla e Helena Ignês durante o período da ditadura militar. Talvez o título melhor fosse “Retalhos”.

Já o longa brasileiro foi do Rio de Janeiro, dirigido por Angela Zoé e se chama “O samba é primo do jazz”. Conta de forma simples mas correta a estória da cantora Alcione.

Olinda, 22. 9. 2020

 


A TV mudou o Festival de Gramado ou ele nunca foi elitista?

Me sinto obrigado a falar sobre o meu conceito do Festival de Cinema de Gramado, que eu disse no primeiro comentário dessa série que era um festival elitista. Com a programação que estamos tendo esse ano, a verdade é que temos um Festival democrático ou mesmo popular, pois uma direção para agradar a elite não colocaria por exemplo dois documentários longas tendo como tema dois cantores populares como Alcione e Sidney Magal. E nessa edição temos uma ampla variedade de gêneros e certamente o que temos mesmo é o cinema que está sendo feito no momento atual. Se algum grande filme ficou fora da seleção, penso que não foi por culpa da comissão de seleção. O Festival de Gramado teve um período elitista, depois tentou mudar e até ficou sem rumo certo. Talvez este ano sirva para que tomem uma nova caminhada junto ao grande público.

O que realmente falta a esses dois documentários sobre Alcione e Sidney Magal é uma posição do cineasta, lembrando que a força de um filme está na sua direção, na sua linguagem, na sua forma de ser cinema e não simplesmente colocar uma cena na frente da câmera e pensar que essa cena é que é o filme. Então se você gosta do cantor ou da cantora, você gosta do filme. Não é o filme que lhe interessa.

Os dois curtas do dia 23.9.2020 são interessantes. Inclusive o paraibano surpreende como coloca uma ação de forma tão direta. A moça que vai levar o filho para ficar com a avó se comporta de forma bem cinematográfica, é boa intérprete. E engraçado é que o curta paulista também coloca uma ação surpreendente. Do personagem. Temos “Remoinho”, de Tiago A. Neves da Paraíba, e “Você tem olhos tristes” de Diogo Leite de São Paulo.

O longa estrangeiro “Los fuertes”, dirigido por Omar Zúñiga do Chile, é explicitamente um filme homossexual. Trata do amor entre dois rapazes. O mais específico, porém, do ponto de vista cinematográfico é que a estrutura fílmica não explicita isso. É um filme romântico. E as cenas acontecem independente de quem ou de que gênero de gente está sendo filmada. E assim é uma obra comum, que além de mostrar o caso de amor se desenvolve com as outras sequências da vida com o jovem e a irmã, por exemplo. E as cenas da própria vida na comunidade. Foi bom que o tenham escolhido para fazer parte do Festival, fugindo assim ao preconceito.

Olinda, 23. 9. 2020

 

 


Ruy Guerra é um sobrevivente como eu

Mais do que assistir ao filme “Aos pedaços” no Canal Brasil, pelo 48° Festival de Cinema de Gramado, a minha alegria foi ouvir Ruy Guerra falando hoje no debate sobre os filmes no youtube. Esse velho cineasta é ele um pouco mais velho do que eu, e o conheci num festival de Brasília quando participei de uma oficina que Ruy ministrou lá. Eu tive oportunidade de conviver um pouco com ele. Ruy Guerra é um sobrevivente do Cinema Novo e continua fazendo filmes. Quando vi  “Aos pedaços”,  o meu interesse maior foi saber até que ponto era um filme realmente de Ruy. E tive o prazer de ver pelas falas dele, fumando o seu charuto ainda hoje, que o cineasta continua vivo total e capaz de dirigir como aconteceu. “Aos pedaços” foi feito a partir de uma estória criada por Ruy, com elementos que ele ouviu em Cuba e elaborou.

Para ver como Ruy Guerra está íntegro como a pessoa que ele é, registro a sua resposta à pergunta que lhe fez o coordenador do debate sobre a sua ligação com a psicanálise. Ruy simplesmente respondeu de modo apropriado que nunca tinha lido nada sobre Psicanálise e quando leu não entendeu bem. Maravilha de ironia. O importante de “Aos pedaços” é que nele podemos encontrar resquícios do cinema de Ruy Guerra até o ponto de alguém perguntar para saber se as praias que aparecem no filme são a mesma onde foi filmado “Os cafajestes”, o primeiro filme de grande sucesso do cineasta.

O outro longa da noite de 22.9.2020 foi o paraguaio “Matar a un muerto”, dirigido por Hugo Giménez. Realmente não estou com bastante informações sobre ele, mas apenas que trata do período da ditadura de Stroessner lá. E dessa situação o que o filme mostra é quase uma sequência com dois elementos que parecem paramilitares lidando com uma figura que poderá ser guerrilheiro, mas em estado de quase total prostração. No meio disso aparecem dois que parecem militares. O que fica mesmo é uma situação de quase sátira, quase cômica, e no centro de tudo o que todos querem mesmo é saber sobre a situação da então Copa do Mundo, na final vencida pela Argentina. Mas não sabemos se toda a ironia fica mesmo para o governo da ditadura. No olhar brasileiro é difícil definir.

Nesse dia, os curtas são interessantes. “Dominique”, de Tatiana Issa e Guto Barra, do Rio, que conta a estória de uma mulher do Pará que tem três filhas travestis. E “Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé”,  de Janaina Oliveira (Re.Fem) e Rodrigo Dutra, que conta com a voz do próprio e também com a presença de um intérprete. A vida da figura que na época começou a juntar o candomblé com o carnaval, de forma criativa e rica certamente. E por isso sofreu perseguições. Para mim os curtas não dizem novidades, mas são bons para os que não conhecem ainda essas estórias.

Olinda, 23. 9. 2020

 


King Kong en Asunción encerra bem 48° Gramado

Para escrever esse comentário sobre o filme de Camilo Cavalcante, “King Kong en Asunción”, que encerrou a fase competitiva do 48° Festival de Cinema de Gramado, eu percorri um caminho que começou com uma breve conversa com Luiz Joaquim. Na primeira cena ou sequência do filme não consegui ler as legendas da narrativa, tinha muito branco sobre branco e minha vista não conseguiu. Sai então do filme, fui ao google e encontrei então um texto explicativo. Então continuei assistindo. E vi até o fim. A cena final com a música de Mercedes Sosa me deixou então mais tocado e penetrei um tanto no que seria ou será o filme. A minha pergunta era: quem é esse Camilo que fez esse filme que eu não conheço? Quando foi que Camilo conseguiu descobrir esse mundo latino-americano que está em “King Kong en Asunción”?

Com as falas no debate, consegui descobrir um pouco. Enfim, “King Kong en Asunción” me parece o único filme que pode ser classificado nessa mostra como um filme político. E se não é político pela estética, é pela atitude conceitual de como foi estruturado o filme. Colocar essa narrativa em guarani é uma ação extremamente política e isso porque a obra poderia ser toda ela contada sem a narrativa ou ela poderia ser em espanhol ou mesmo em português. O guarani tem uma outra dimensão. Embora pessoalmente eu não gosto da sonoridade, acho agressiva, e mesmo acho que não se coaduna com a imagem. Num comentário maior teríamos que falar com mais densidade sobre os dois principais intérpretes, o pistoleiro e o cabelereiro, muito bons. E temos que observar como o cinema de Camilo busca um caminho aprofundado, onde não se pode esquecer a influência de Win Wenders particularmente mesmo em “Paris Texas”, esse filme tão chocante.

Bons os dois curtas do último dia da competição de Gramado. Tanto o alagoano “Trincheira” de Paulo Silver, quanto “O barco e o rio” do amazonense Bernardo Ale Abinader. Talvez a coordenação do Festival tenha deixado para o fim esses produtos nortistas. Deveria ter sido o contrário, o do Norte e Nordeste  deveriam ter aberto a programação no primeiro dia.

Olinda , 25. 9. 2020

 


por Celso Marconi, Crítico de cinema mais longevo em atividade no Brasil. Referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

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