Diário
Director

Independente
João de Sousa

Sábado, Setembro 25, 2021

A presença ausente

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Um livro de I-Ching, uma estatueta em que Buda parece surpreendentemente magro, paus de incenso que se queimam e emanam um cheiro adocicado muito enjoativo, um quadro na parede com unicórnios, uma gravura com a pouco conhecida Rita Amada de Jesus, beata portuguesa e fundadora do “Instituto das Irmãs de Jesus Maria José”.É assim a decoração da casa da Margarida, nome fictício, por que me pediu o anonimato. Passou várias fases na sua estrutura de crença individual e agora diz-me com orgulho que ouve a missa pela Internet, missa católica apostólica romana, pois que saiba, não há outra a escutar na grande rede, se houvesse, independentemente de credo ou confissão, até seria capaz de arranjar alternativa. Declara-se uma mulher (jovem mulher) muito espiritual, vá lá isso ser alguma coisa. E conversamos sobre religião e mais do que religião, sobre coisas do acreditar, ao modo como eu, também eu, me interesso intelectualmente por esses fenómenos. Fala dos talibã e confessa-se agitada, atraída de forma quase mórbida pelo que se passa na Síria e no autoproclamado estado do Iraque e do Levante. Faz questão de marcar a diferença entre os radicais e os outros todos, mais de um quarto da população mundial que é muçulmana e que não partilha da volúpia dos extremistas. De repente, e sem aviso, vai buscar uma fotografia de três meninos que em 1917 se deslumbraram muito.  E diz-me: os três meninos de Fátima. E explica que as reportagens da época assinalavam que das três crianças, a mais velha Lúcia, via, ouvia e falava com a Senhora. As duas outras, curiosamente, completavam-se, porque uma só via e a outra só ouvia. Três “médiuns diferentes” com duas mediunidades – vidência e audiência. Digo-lhe que essa é a linha “espírita” de interpretação e perdemo-nos em milagres, nós também.

A “Margarida”… Escolhi-a como exemplo porque ainda há dias encontrava (não pessoalmente) uma outra rapariga como ela, a outra curitibana que passou praticamente a vida inteira seguindo preceitos religiosos. Na infância, foi batizada na Igreja Católica e frequentou missas. Depois, participou em grupos jovens mórmons e integrou denominações evangélicas como a Igreja Pentecostal Deus é Amor, a Igreja Internacional da Graça de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular. Mais recentemente, incentivada por um amigo, começou a participar numa comunidade de ateus e agnósticos no Facebook. As discussões on-line levaram-na a repensar as suas crenças e, de forma surpreendente, tornar-se ateia.

Ambas – a Margarida e a jovem de Curitiba – confessam sobretudo a sua alegria de viver.

São Francisco[1], no Speculum perfectionis, afirma:pois não serão os servidores de Deus senão uma espécie de jograis que têm por missão elevar o coração dos homens e conduzi-los à alegria do espírito?”

A verdade é que elas podem muito bem ser o paradigma dos dias que vamos vivendo, dias de presença ausente, em que, como aquelas pessoas que sofreram a amputação de um membro, há quem sinta uma presença invisível nas suas vidas – não sabendo todavia explica-la, procurando-a num colecionar pouco coerente de símbolos e ideias fragmentadas.

O que me atrai na Margarida, e na curitibana, sobretudo, é a sua relação espiritual-tecnológica. Não só ouvem a missa pela internet – tal como alguns milhares de pessoas já o fazem – como leem a Bíblia no seu telefone portátil, onde acumulam textos sagrados que leem enquanto passam horas infinitas nos transportes públicos entre a casa e o emprego. Ou tornam-se ateias depois de frequentarem páginas de Facebook (alguns jovens europeus que combatem nas absurdas e assassinas frentes do terrorismo internacional foram “iniciados” da mesma forma virtual. A ilusão de que pensamos quando pensamos virtualmente traz-nos sempre distorções que não entendemos pela falta de distância que temos do objeto ao complexo que somos).

A relação – quase inesperada e mesmo inusitada – entre fé e tecnologia, entre dois campos de tão aparentes incompatibilidades, faz-me reforçar a crença de que estou, sobretudo, ao serviço das minhas ideias.

[1] AUGUSTINE, Thompson, São Francisco de Assis
Uma Nova Biografia, ed. Casa das Letras, 2012

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -