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Domingo, Junho 23, 2024

Lembram-se de Daniel Blake?

João Vasconcelos Costa
João Vasconcelos Costa
Investigador e professor universitário (Virologia Molecular), depois dirigente de um instituto de investigação, ensino e cooperação, hoje reformado.

Supõe-se que esta coluna de opinião é objectiva, sobre a realidade, discutindo problemas ou situações importantes. Mas, por vezes, uma boa história concreta define melhor uma situação do que muitas considerações teóricas. E até mesmo uma história ficcionadas pode valer por uma ou muitas histórias reais.O serviço social e o serviço de saúde no Reino Unido foram o maior exemplo da reforma social-democrata do pós-guerra e do estado social de bem-estar. Foi uma época de grande injecção de capital e em que a ala moderada do capitalismo (democracia cristã) ainda muito vulnerabilizada por algumas cedências ao nazismo, mais a social-democracia, se uniram para constituir uma alternativa aos avanços sociais da URSS. Tiveram sucesso, com a implantação do Estado social de bem-estar como paradigma das aspirações de largas camadas dos povos europeus, que não se reviam nos revolucionários bolcheviques.

A história que se segue vem depois, quando o mundo passou para o reagan-thatcherismo.

Daniel Blake é um competente, mesmo exímio, carpinteiro inglês. Como vemos na sua casa e nas ofertas que dá aos miúdos, como me fazia espadas e tomahawks o mestre Alfredo da minha infância, era mesmo um artista, uma criança grande que continuava a deleitar-se com os mobiles que construía.

Teve um enfarte do miocárdio, no fim dos seus cinquentas, a necessitar de um implante de “pacemaker”, o que obviamente o impede de trabalhar na sua profissão ou qualquer outra actividade essencialmente física. Tem duas possibilidades: pedir uma reforma por invalidez ou procurar trabalho, recebendo imediatamente e entretanto um subsídio de desemprego. Qualquer pessoa vê a incongruência disto, a mistura de estupidez burocrática e economicismo do que é hoje o Reino Unido neoliberal.

Qualquer pessoa? Engano. Vai defrontar-se com uma situação absurda de burocratismo associado a economia de meios neoliberal, pós-thatcher.

A primeira tentativa de Daniel, a mais lógica e aquela que o seu médico lhe tinha aconselhado, foi a de pedir a reforma por invalidez. Ouvimos a história, com inultrapassável simpatia: uma voz quase infantil, de um “call center”, vai-lhe perguntando por variadas doenças, algumas mirabolantes, mas o inquérito não inclui o tristemente banal enfarte do miocárdio. Ele duvida da tecnicidade do inquérito, perguntando pelas qualificações médicas, mas a menina responde-lhe que é “técnica de saúde” (onde é que já ouvimos esta manipulação das designações?).

A resposta ao pedido é negativa e nem lhe deixa margem para opinião do seu médico cardiologista. Vira-se então para a hipótese do sistema de desemprego. Entretanto, as idas ao serviço social para tentar uma revisão do processo de reforma de invalidez são surrealistas, de burocracia, desumanidade, indignidade.

A primeira coisa a que é obrigado é a assistência a um seminário, principalmente para aprender a técnica de boa apresentação a emprego e de redacção de um CV. O preletor é um típico especialista em recursos humanos, que bem conhecemos. Gente que considera os desempregados como objecto dos seus dados de carreira, que lhes aplica receitas padrão, que assimila acriticamente umas regras ditadas pelo “big brother” (as histórias delirantes de “coaching” que eu podia contar do tempo em que a minha mulher esteve numa multinacional dariam uma farsa de partir de riso).

Aqui começa o tormento, em vários andamentos. Primeiro, o tratamento pelos funcionários é execrável. Depois, muito do que se lhe impõe como contactos obrigatórios é evidentemente contrário à sua situação médica.

Numa das intermináveis sessões de atendimento social, conhece uma jovem com dois filhos, que foi desalojada da sua casa em Londres e enviada para procura de uma casa numa cidade “mais favorável”. Bom homem, dedica-se a ela e às crianças, mesmo quando ela tem de se prostituir para sobreviver.

Ela paga-lhe com a maior dedicação e arranja-lhe protecção jurídica. Vão a tribunal e tudo parece indicar sua vitória. Mas a vitória, afinal, à entrada para a sessão, foi a do enfarte do miocárdio fatal.

Este Daniel Blake nunca existiu, embora existam milhares de Daniel Blake. Este é a personagem central de um filme de Ken Loach, o mais empenhado politicamente dos realizadores de cinema actuais. De entre os seus filmes, todos politicamente empenhados sem prejuízo de grande qualidade artística, são exemplos mais conhecidos (mas sem edições de DVD com legendas em português), “Kes”, “Hidden Agenda”, “Raining stones”, “Looking for Eric” ou “The Spirit of ’45″. Podem ser vistos em edição inglesa, com as legendas para surdos ingleses, já que a pronúncia dos populares que enchem os seus filmes são ininteligíveis.

Lembram-se da carta que Daniel Blake deixa e que é lida no funeral pela sua jovem amiga?

I am not a client, a customer, nor a service user. I am not a shirker, a scrounger, a beggar nor a thief.
I am not a national insurance number, nor a blip on a screen. I paid my dues, never a penny short, and was proud to do so.
I don’t tug the forelock but look my neighbour in the eye. I don’t accept or seek charity.
My name is Daniel Blake, I am a man, not a dog. As such I demand my rights. I demand you treat me with respect.

I, Daniel Blake, am a citizen, nothing more, nothing less. Thank you.”

Traduzindo:

Não sou um cliente, nem um consumidor, nem um utente de serviços. Não sou um mandrião, nem um pedinchas, nem um mendigo, nem um ladrão.
Não sou um número de cartão de segurança social, nem uma mancha no ecrã de computador. Pago os meus impostos, nunca fico a dever sequer um cêntimo, e sempre me orgulhei disto.
Nunca me ponho em bicos de pés e viro-me para os outros com os olhos nos olhos. Não aceito nem procuro a caridade.
Chamo-me Daniel Blake, sou um homem, não sou um cão. Como tal, exijo os meus direitos. Exijo que me tratem com respeito.

Eu, Daniel Blake, sou um cidadão, nada mais, nada menos. Obrigado.”

Este artigo evoca todos os Daniel Blake.

E não há por aí muitos Daniel dos Santos?

E não é imperiosa a necessidade, mesmo moralmente, de realizarmos a utopia que eles não puderam viver?

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