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Quarta-feira, Outubro 5, 2022

A relação transatlântica

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

No cenário de uma UE fragilizada, dividida e raramente assertiva e de uns EUA cada vez mais enredados na grande desordem mundial que escolheram e alimentam, talvez não reste muito mais que a esperança de ver a sociedade civil e as redes comerciais e de informação a contribuírem para a recuperação de um património histórico e cultural comum

A ideia de uma crise sistémica global, que desde meados da primeira década deste século tem vindo a ganhar sustentabilidade, refere-se essencialmente ao sistema criado nos finais da II Guerra Mundial e em cujo cerne se encontra uma relação transatlântica, EUA-Europa, baseada num conceito de segurança, que serviu de justificação para a criação da NATO em 1949, e de prosperidade económica despoletada pelo Plano Marshall, lançado em 1947 para assegurar o crescimento da economia norte-americana.

Com os EUA a emergirem do conflito mundial como a única economia incólume (tais foram os massivos bombardeamentos realizados nos teatros de guerra europeu e japonês, coroados com o despoletar de dois engenhos atómicos no território asiático) outra coisa não poderia ocorrer senão uma nova ordem americana que se prolongou por três gerações, apesar do poder político norte-americano ter sido grandemente sustentado pelo sucesso económico e moral duma Europa forçada a enfrentar a Guerra Fria.

A partir da queda do Muro de Berlin, em 1989, os EUA, inebriados pelo colapso do império soviético que, esquecendo o papel da diplomacia europeia (o tantas vezes louvado, mas quase sempre esquecido “soft power”) e de movimentações sociais como a polaca e a checa, anunciaram como uma vitória pessoal e passaram a proclamar-se como os senhores do mundo.

Com esta jactância como pano de fundo, a administração de George Bush (pai) usou e abusou do argumento do “fim da história”, oferecido por um Francis Fukuyama incapaz de perceber a verdadeira dimensão dos tempos que vivia e o absurdo da afirmação, para assegurar que “não havia alternativa à liderança americana” e dela rapidamente resultou a primeira Guerra do Golfo em 1990; e nem sequer foi a mais desastrosa pois ao contrário da invasão decretada 13 anos depois por Bush (filho) ainda contou com o apoio consensual da ONU.

Desta opção de liderança mundial por meios militares derivou que os EUA perderam a sua antiga credibilidade moral e começaram a ver-se financeiramente arruinados, pois se há época da implosão da União Soviética o peso da dívida pública no PIB norte-americano era da ordem dos 50% estimativas actuais apontam agora para valores acima dos 100%, tendo mantido a sua posição hegemónica graças ao império monetário que impuseram (o papel do dólar norte-americano como moeda de pagamentos internacionais) e ao tal apoio moral e económico da Europa.

A mesma Europa onde crescia uma percepção que via na aliança transatlântica e no seu braço armado (NATO) um jugo de difícil aceitação – ao qual foi reagindo em sucessivas tentativas de desobrigação, como o lançamento do euro, a recusa no apoio aos EUA na segunda Guerra do Golfo e a progressiva marginalização do Reino Unido pela UE – que culminou com a crise ucraniana e a chegada de Donald Trump à Casa Branca, cuja administração persistiu em forçar a imposição da sua vontade acelerando o afastamento UE-EUA, com a questão do financiamento da NATO e o congelamento do Acordo de Parceria Transatlântica (TTIP).

No cenário de uma UE fragilizada, dividida e raramente assertiva e de uns EUA cada vez mais enredados na grande desordem mundial que escolheram e alimentam, talvez não reste muito mais que a esperança de ver a sociedade civil e as redes comerciais e de informação a contribuírem para a recuperação de um património histórico e cultural comum, ponto no qual a Europa até apresentará a vantagem da experiência resultante das crises que tem atravessado nestes últimos anos e que já originaram ténues mudanças internas.

Se o vínculo euro-americano ainda não se quebrou, não é menos verdade que a reorientação das atenções norte-americanas para a zona do Pacífico (o inevitável confronto sino-americano) e a evidência das suas fragilidades revelada pela pandemia da covid-19, deixam espaço à Europa para afirmar a reorientação das suas preocupações geopolíticas, pois o seu principal problema não é a China ou a Rússia, mas sim o mundo islâmico, ou mais especificamente os problemas originados nas regiões do Médio Oriente e do Norte de África.

Este reposicionamento europeu implica o aparecimento de um efectivo actor geopolítico denominado “Europa”, poderá até originar um relacionamento bilateral com os EUA mais equilibrado, ou até uma ligação Euro-Rússia-EUA com novos níveis de governança nacional e regional, assumidamente interventivo na reformulação de uma nova ordem multipolar dotada de uma administração global comum e sustentada nas novas ferramentas tecnológicas.

A Alemanha, país que assume no próximo dia 1 de Julho a presidência da UE, tem dado alguns sinais da necessidade de um novo centro de gravidade da relação transatlântica, mas não parece ter perdido os seus tiques de germanidade (nem o velho conceito de espaço vital – o “lebensraum” – que levou a uma precipitada integração dos antigos países pró-soviéticos dos Balcãs), e a chanceler Angela Merkel está na fase descendente do seu ciclo político; em Janeiro de 2021 substituiremos a Alemanha, com tudo o que isso tem de positivo (um país com as fronteiras mais antigas e estáveis do espaço europeu e uma velha tradição de exercício diplomático que se poderá revelar de extrema utilidade) e de negativo (um pequeno país da UE ainda mal refeito de uma crise económico-financeira e já mergulhado noutra provocada pela covid-19), e seremos rendidos pela Eslovénia (um pequeno país que integrou a ex-Jugoslávia).

Será a oportunidade para avaliarmos se a Europa aprendeu com os seus próprios erros e se consegue recuperar algum controle sobre o seu próprio futuro. Os riscos serão grandes e a margem de erro mínima.


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