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João de Sousa

Sexta-feira, Janeiro 21, 2022

A surpresa que estava reservada para o fim

20h00. As projecções admitiam a hipótese de um a dois deputados para o Partido Democrático Republicano e de um para o recém-formado Livre/Tempo de Avançar. Marinho e Pinto (PDR) e Rui Tavares (Livre) congratularam-se em directo para o país e prometeram que seriam a novidade e a mudança no Parlamento.

21h00. Ambos os partidos começaram a ficar esquecidos pelas televisões nacionais e apenas a subida vertiginosa do Bloco de Esquerda parecia importar. Catarina Martins (BE) consegue colocar o seu partido à frente da CDU de Jerónimo de Sousa e as melhores previsões indicam um aumento de deputados inédito para o BE. A maioria absoluta da coligação Portugal à Frente (PàF) começou a ser posta em causa e um governo minoritário parecia cada vez mais certo.

22h00. Apenas os partidos com assento parlamentar eram focados pelas televisões nacionais. Os pequenos partidos, onde se incluíam o PDR e o Livre, nunca mais foram mencionados. Nem sequer o PCTP/MRPP, que, no final, até conseguiu ter 1,11% dos votos. Os comentadores focavam a pequena diferença de valores entre as duas maiores forças políticas e anteviam já eleições antecipadas.

23h30. Enquanto António Costa (PS) e Pedro Passos Coelho (PSD) pronunciavam discursos de vitória em directo e, este último, até deixa antever um possível entendimento entre ambos, nas redes sociais começam a surgir vozes de esperança para um quase desconhecido e pouco destacado partido.

00h30. Era já dia 5 de Outubro quando a notícia foi dada. Contrariando todas as sondagens e previsões dos comentadores, o PAN – Pessoas, Animais, Natureza, consegue eleger um deputado para a Assembleia da República. André Lourenço e Silva, cabeça de lista do partido por Lisboa, consegue mais de 22500 votos (1,97%), com o PAN a obter, a nível nacional, o melhor resultado de sempre, mais de 74 mil votos (1,39%).

Em declarações às televisões, momentos depois de saber da notícia, o cabeça de lista congratulava-se com o que considerava “ser um dia histórico”, destacando o facto de o PAN ter conseguido eleger o seu primeiro deputado no Dia Mundial do Animal, 4 de Outubro.

A surpresa foi generalizada. Ao fim de 16 anos, haverá um novo partido na representação parlamentar. As redes sociais incendiaram-se com piadas sobre cães e gatos na Assembleia da República. Mas o deputado já ninguém lhes tira. Desta forma, a Assembleia da República passará a contar com sete partidos: PSD, CDS, PS, BE, PCP, PEV e PAN.

Recorde-se que o último partido a ser eleito para a Assembleia da República foi, precisamente, o que mais cresceu nestas eleições legislativas, o Bloco de Esquerda, que, em 1999, elegeu os seus dois primeiros deputados.

Sem grandes comícios e com uma campanha bastante “escondida”, o PAN pode ser um total desconhecido para a maioria dos portugueses. Criado em 2009, ainda sob o nome Partido Pelos Animais (PPA), o agora PAN mudou o seu nome em 2010, antes do anúncio da candidatura no novo partido às eleições legislativas de 2011. A primeira direcção Nacional foi eleita em Abril de 2011, meses antes da grande prova de fogo, em que o PAN surpreendeu ao ser a sétima força política mais votada, com mais de 57 mil intenções de voto.

Quatro anos depois, o partido apresenta-se mais firme e deu a conhecer aos eleitores um vasto e incisivo programa onde, além da defesa intransigente dos direitos dos animais, constam também propostas sobre a discussão pública da eutanásia, a criminalização da zoofilia (actos sexuais com animais) ou a renegociação da dívida.

Sendo certo que a maioria das propostas – e, talvez, as mais mediáticas – estejam relacionadas com os animais e os seus direitos, o PAN demonstra ter também ideias bem definidas no que toca à revisão das Parcerias Público-Privadas ou à criação de um imposto especial sobre os produtos considerados de luxo e/ou com elevado custo ambiental e social.

Do programa constam também propostas para instituir 10 anos de nojo para transições de cargos políticos para cargos privados, implementar um rendimento básico incondicional, passar o horário de trabalho para as 30 horas semanais ou aumentar o salário mínimo para os 600 euros.

Apesar de afirmarem não ser de esquerda nem de direita, as propostas apresentadas pelo PAN demonstram que o partido está mais próximo de uns do que de outros, com ideias semelhantes ao BE ou mesmo ao PS. Ficará agora a cargo do novo deputado eleito dar a conhecer as suas posições no Parlamento.

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