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Terça-feira, Janeiro 18, 2022

A “vantagem” de ser Refugiado

Nelson Oliveira
Psicólogo clínico, Mestre em Gestão Autárquica e membro de várias instituições desportivas e humanitárias

refugiados
Há em Portugal uma parte da população que considera o Refugiado, um Ser Humano privilegiado. Sim, uma pessoa possuidora de uma condição adquirida invejável dentro da nossa sociedade.

A fazer crer nos comentários que se lêem todos os dias nas caixas de comentários dos jornais online, quando acontece alguma injustiça, erro ou prejuízo sob um qualquer Português, há sempre alguém que lança a sua língua viperina dizendo: “Ah, se fosse um refugiado não acontecia isso, eles tinham direito a tudo”.

O último ataque em massa deu-se esta semana, quando uma notícia do Público reflectia a diminuição brutal das Bolsas de Estudo no ensino superior, concluindo que “é preciso ser duas vezes mais pobre para se ter direito a bolsa”. Esta triste realidade, acentuada pelos sucessivos cortes nos apoios sociais desde 2010, não gerou uma onda de críticas às políticas educativas e sociais no ensino, mas sim um alarve ataque aos refugiados.

Tal como o sujeito parodiado por Eduardo Madeira no programa “Donos Disto Tudo”, uma nova espécie de Terroristas de Teclado, começaram a vociferar nas redes sociais contra a iniciativa de Jorge Sampaio, através da Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios, que ofereceu a cinco alunos sírios, “bolsas de estudo para tirarem licenciaturas nas áreas de gestão e turismo” (LUSA).

Sim, leu bem. 5 alunos! 5 refugiados que tanta inveja provocaram em alguns Portugueses.

É que se há algo difícil invejar, são mesmo os refugiados, seja qual for o mínimo “benefício” que possam obter no futuro.

Se imaginarmos viver na pele de pessoas que viram a sua terra ser bombardeada e saqueada, família esventrada e assassinada, casas arrasadas por balas e bombas e terem depois que fugir da morte percorrendo milhares de quilómetros a pé, à fome, deixando tudo para trás ou permanecer à deriva no mar, partilhando um pequeno bote sobrelotado e com grande probabilidade de morrerem afogados e se, mesmo assim, sentirmos uma pontinha de inveja… é, no mínimo, doentio e execrável.
Como se isto não bastasse, nós, Portugueses, demonstramos esta aversão quando na verdade somos um povo conhecido em toda a nossa história, como um país de emigrantes.

Certamente algumas das pessoas com “inveja” dos refugiados, tem na família ou amigos, pessoas obrigadas a emigrar à procura de melhores condições de vida, mas com o benefício de não terem que fugir da guerra e da morte.

O que diriam os ditos invejosos, se países como a França, Luxemburgo, Canadá, Bélgica, Inglaterra, Suíça, Alemanha ou Estados Unidos, implementassem medidas totalmente restritivas a Portugueses (como aliás já pensaram fazer)? Obviamente que as nossas acusações de racismo e xenofobia subiriam de tom.

Serão estas mesmas pessoas que elogiaram e muito bem, as atitudes de Aristides de Sousa Mendes durante a II Guerra Mundial? Pessoas que propagam palavras de Humanismo, amor ao próximo e solidariedade?

Mudemos este nosso terrível hábito de criticar tudo e todos, nomeadamente perante esta catástrofe humanitária e mundial.

E se um dia nos acontecesse o mesmo? Afinal de contas, também somos um país de “refugiados”.

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