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Domingo, Julho 21, 2024

Nós, os que sofremos a história

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Alexandre HonradoUm desses temas é o Calvinismo como ideia e prática. Volto ao assunto, como prometi, já que deixei escrita esta frase, menos explícita embora óbvia, na semana passada: “desconstruir Ângela Merkel é desconstruir o Calvinismo”.

Também afirmei, na altura, que a maior parte dos leitores da mesma frase (e são mais do que eu esperava) nem sequer a entenderiam. É que embora todos já tenham ouvido falar, mais ou menos, da chanceler alemã, poucos reconhecem João Calvino (que usamos para designar o francês Jean Cauvin), nome vinculado ao mais radical ramo da Reforma Protestante do século XVI, o Calvinismo.

Apesar da marca que deixou em tantas áreas, Calvino foi um homem de letras e um teólogo criador de um imponente sistema de interpretação teológica. Quando hoje falamos de Protestantismo, Martinho Lutero e João Calvino aparecem sempre como as suas figuras nucleares, centrais e fundadoras.

Há dias, ao participar numa reunião em que definíamos como vai ser o Congresso evocativo dos 500 anos das teses luteranas – assinalado em 31 de Outubro de 2017 e já em preparação – um dos membros da comissão organizadora dizia que existiria Reforma mesmo sem Lutero e que Calvino seria o responsável por isso.

A verdade é que a sua mentalidade ética terá fornecido o elemento fundamental para o desenvolvimento do moderno capitalismo – leia-se a obra clássica do pensador Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, onde isso é explicado de forma irrepreensível. O debate em torno desta constatação está muito longe de se esgotar. Há quem diga que o século XVI conteve muitos séculos dentro dos seus cem anos arrebatadores.

O século começa com Leonardo da Vinci e o seu homem de Vitrúvio (obra que hoje podemos admirar na gravação de algumas cunhagens da moeda de euro. O homem vitruviano que da Vinci imortaliza é um conceito apresentado na obra Os dez livros da Arquitectura, escrita pelo arquitecto romano Marco Vitruvio Polião, do qual o conceito herda o nome) e acaba com a subida à cena de uma peça de Shakespeare, As You Like It para a inauguração do seu magnífico Teatro Globo.

Pelo meio, o século deixará figuras como Teresa de Ávila e João da Cruz, assinalará a expansão e os Descobrimentos dos portugueses e dos espanhóis pelo mundo, e conterá as maiores e mais sangrentas guerras do espaço europeu, motivadas pela fractura cristã – denominado Reforma Protestante.

Coube ao monge agostinho Martinho Lutero ser o precursor desse movimento. Indignado diante da mercantilização da fé, santificada pelo Papa Leão X e o seu comércio de indulgências (compra do perdão para pecados de qualquer gravidade), Lutero, em 31 de Outubro de 1517 publica suas as “95 teses” dando início à impressionante fragmentação eclesiástica e doutrinária do cristianismo ocidental.

Calvino tinha então oito anos de idade. Entre tantos líderes reformistas que propagaram os novos pressupostos teológicos, o francês João Calvino, será considerado por muitos o seu maior teólogo. Nascido em Noyon (França) em 10 de Julho de 1509, João Calvino, filho de um importante secretário da catedral da cidade, foi inicialmente educado para o sacerdócio, até que o seu pai, em litígio com a liderança eclesiástica da cidade, decidiu encaminhá-lo para a advocacia.

Foi provavelmente entre 1532 e 1533 que ocorreu a sua conversão à Fé Reformada. Provavelmente, não teria a dimensão que teve sem o destaque que lhe deu Max Weber, que tentava, antes do mais, combater ideias marxistas e do materialismo dialético – que tinham reforçado junto de muitos a ideia de que o homem é senhor do seu destino e que o capital lança a dúvida legítima: “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência” .

A guerra religiosa tinha ainda uma outra raiz: negar o papel fundamental dos judeus como fonte do espírito capitalista, Sem hoje passar daqui – porque quero voltar ao tema – acrescento apenas que o pai de Ângela Merkel estudou teologia em Heidelberg e, depois, em Hamburgo. Em 1954, recebeu um pastorado na igreja de Quitzow (perto de Perleberg em Brandemburgo), que então estava na Alemanha Oriental, e a família mudou-se para Templin.

Desconstruir a chanceler, é desconstruir o Calvinismo, diria eu. E ainda repito que nós, os que sofremos a história, exigimos saber.

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