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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

A violência mata

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

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Mas igualmente tão antiga como esta, é a história da resistência a esse modelo onde a hierarquia social é sustentada pela força ou pela ameaça da força.

A peça de Aristófanes, Assembleia de Mulheres, encenada pela primeira vez em 392 a.C., em Atenas, é indício de que a dominação, desde o início, não foi aceite. As mulheres (neste contexto, já sabemos, eram excluídas as escravas e as estrangeiras) demandam a participação no espaço público, mesmo que para isso tenham que recorrer a um disfarce. De igual modo, a comédia Lisístrata, do mesmo autor, apresenta uma greve de mulheres com o objectivo de obrigar os homens, atenienses e espartanos, a estabelecer a paz.

E, foi assim em todas as épocas, desde a Antiguidade passando pela Idade Média e pela Modernidade até hoje: o combate à exclusão aconteceu e apresentou formas muito diversas: escrever, fazer investigação científica, participar em movimentos sociais e lutas políticas.

strike20Foi, também, a tarefa quotidiana de muitos milhares de mulheres que, anonimamente, fizeram dos seus dias uma árdua batalha pela igualdade, rejeitando a violência, a discriminação e a submissão.

A segunda metade do século XX (o mesmo que Vitoria Camps designou como “século das mulheres”) foi pródiga nos caminhos da paridade. Contudo, assistimos nos últimos tempos a um retorno a práticas e a perspetivas retrógradas que considerávamos ter superado. Também, a este nível enfrentamos o perigo de um retrocesso civilizacional.

Concretamente, no que à violência diz respeito, ela permanece e, em muitas situações, continua a ser desculpabilizada por quem tem a obrigação não só moral mas também legal de agir em defesa das vítimas. As agressões físicas e psicológicas continuam a ser as principais formas de violência e, embora com abundante legislação protectora, a cultura machista ainda prevalece e mata muitas mulheres, em muitas partes do mundo.

Esta semana, como resposta a mais um homicídio brutal de uma adolescente de 16 anos, Lúcia Pérez, mulheres de vários países da América Latina levantaram-se em protesto. A 19 de Outubro as mulheres da Bolívia, Uruguai, Chile, México, Paraguai, Guatemala e El Salvador fizeram greves durante uma hora e manifestaram-se contra os homicídios, tentando, dessa forma mostrar a sua resistência e a não submissão a uma cultura de medo e de domesticação.

Na Argentina, a Praça de Maio voltou a ser inundada de mulheres vestidas de preto. E, essa voz coletiva que também chegou a França e a Espanha dizia: “Nem uma menos. Vivas, livres e sem medo.”

Criou-se uma vaga de esperança que, esperamos, contribua para um futuro que não seja regresso ao passado mas um passo na direcção de uma sociedade onde a cooperação se torne lei e oriente a vivência concreta de todos os seres humanos, independentemente do género ou de qualquer outra diferença. Confio que à imposição da força, se contraponha a prática da partilha. Mas sei que este é um caminho sempre a fazer-se, sempre em construção.

Nota do Director

Os artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

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