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João de Sousa

Quarta-feira, Julho 6, 2022

Cólicas sem remédio

Luís Fernando, em Luanda
Luís Fernando, em Luanda
Jornalista, correspondente do Tornado em Angola

Cólicas

Cólicas de político, que são sempre uma grande chatice. Os médicos nunca dão com o remédio certo, porque as cólicas têm sempre causas impossíveis de determinar. E os políticos, sabendo disso, curam os seus males com métodos de autogestão que dificilmente falham o alvo: vão ao WC as vezes que forem necessárias, nem que tenham de deixar por lá partículas segregadas do «escape».

Sérgio Inocente fingiu boa disposição junto do seu staff e repetiu-lhes a cantilena à qual estes já se começam a habituar e, pior, a tomar como verdade líquida. «Vamos ser poder nestas eleições, estamos preparados e fortes».

Quando se trabalha com demagogo metido a político o risco é esse: enlouquece-se com ele, ao mesmo tempo e no mesmo comprimento de onda. Um alinhamento que deixa qualquer agrimensor estupefacto!

Marcou um jantar com a sua equipa de campanha naquele restaurante de esquina, onde toca a banda que mais se bate por aumentozinhos de cachet.

A escolha não foi por causa da banda, até porque detesta o kuduro, mas pelo palco, que é sempre uma chance para «agitar» o eleitorado, com os slogans que copia da retórica dos ídolos que escolheu, como aquele que prometia viagens à lua para a rapazida conquanto lhe fosse garantido o voto.

Ídolo que nunca ganhou um único assento na assembleia do bairro mas isso parecia o que menos importava ao homem. O seu fascínio era a lua e, sobre ela, qualquer alusão era boa, da poesia estrambelhada às viagens irrealizáveis.

À sétima caipirinha de maracujá gigante do Uíge, uma tentação irresistível que andava a mimar desde que começou a sonhar com a vitória eleitoral, Sérgio Inocente sucumbiu ao microfone. Não lhe resistia, de todo. Como também não passava sem a erva do Bengo, que se diz superior em performance a qualquer uma que Bob Marley tenha consagrado ao longo da sua carreira de ganzas e experimentalismos.

E foi quando aos gritos se vangloriou do enorme feito da sua Aliança Patriótica Narcisista, APN: «Temos um ano e dois meses de existência, mas a vitória está no papo».

A plateia formada por comensais sossegados começou a encolher. Parecia uma evacuação num alarme de incêndio. Em dez minutos, iniciaria, ali, uma reunião de militantes do partido no poder. «Como vedes, não há condições para se fazer aqui o nosso encontro. Um maluco entrou por aqui e não fomos a tempo de o parar. Reunimos amanhã noutro local», ouviu-se.
O autor escreve em PT Angola

Nota do Director

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