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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022

Activista norte-americana Angela Davis volta ao Chile

Angela Davis esteve, pela primeira vez, no Chile, em 1972, durante o governo de Salvador Allende e da Unidade Popular.

Regressou agora, depois de mais de quatro décadas, para ministrar uma conferência no Encontro do Instituto Hemisférico de Performance e Política da Universidade de Nova Iorque, sobre o tema “Da abolição carcerária a #BlackLivesMatter: Movimentos sociais e a luta global pela justiça”, organizado pela Universidade do Chile e pelo Conselho Nacional da Cultura e das Artes.

No passado Domingo, 17 de Julho, Angela visitou um povoado, que tem o seu nome, na comuna de Recoleta, na capital, Santiago. “Estou muito emocionada de estar aqui, recebida tão calorosamente por toda essa comunidade”, afirmou.

No dia seguinte deu uma conferência de imprensa onde abordou a actual onda de violência policial nos Estados Unidos.

Embora hoje se dedique às actividades académicas, Angela segue em frente com as mesmas convicções que a tornaram uma lenda na luta por transformações sociais e culturais.

Aos que dela pouco ouviram falar, quem é Angela Davis, qual a sua importância política e que peso tem actualmente no cenário político e cultural de seu país?

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Angela Yvonne Davis nasceu em 1944 em Birmingham, estado do Alabama, um dos mais racistas do país. Alcançou notoriedade mundial na década de 1970 como membro do Partido Comunista dos Estados Unidos e dos Panteras Negras, pela sua militância pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial.

Leitora voraz, aos 14 anos pôde estudar no Greenwich Village em Nova Iorque, onde travou conhecimento com as teorias do socialismo, sendo recrutada para uma organização comunista de jovens estudantes. Na década de 1960, tornou-se militante do partido e participante activa dos movimentos negros e feministas que sacudiam a sociedade norte-americana à época, primeiro como filiada do Student Nonviolent Coordinating Committee (SNCC – Comité de Coordenação Não Violenta Estudantil, em tradução livre) de Stokely Carmichael e depois do Black Power e dos Panteras Negras.

Em 1970, Angela tornou-se a terceira mulher a integrar a Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI, ao ser acusada de conspiração, rapto e homicídio. Durante o verão daquele ano, estava envolvida nos esforços dos Panteras Negras para conquistar a apoio da sociedade a três militantes presos, George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette.

Em Agosto de 1970, Jonathan Jackson, irmão de 17 anos de George, em companhia de dois outros rapazes, interrompeu de armas na mão um julgamento num tribunal, na tentativa de ajudar a fuga do réu. Jonathan e os seus amigos renderam todos no recinto, conduzindo o juiz, o promotor e vários jurados para um veículo estacionado no pátio. Ao entrar na viatura, Jackson gritou que queria os três presos até o meio dia em troca da vida dos reféns.

No tiroteio que se seguiu à perseguição policial, Jonathan e um amigo foram mortos pela polícia, não sem antes matarem o juiz Harold Haley. As investigações que se seguiram identificaram a arma de Jonathan como registada em nome de Angela Davis.

Com a prisão decretada e o FBI no seu encalço, Angela fugiu e desapareceu por dois meses, sendo alvo de uma das maiores caçadas humanas, acompanhada diariamente pelos media, até ser presa em Nova Iorque.

O julgamento que se seguiu colocou uma mulher negra, jovem, culta, defendida por uma brilhante equipa de advogados, no centro das atenções.

Nos longos debates no Tribunal, não apenas o caso criminal veio à tona, mas uma grande discussão sobre a condição dos negros na sociedade norte-americana foi travada. Manifestações diárias pela sua libertação e absolvição ocorriam por todo o país. No entanto foi expulsa da Universidade da Califórnia (UCLA), onde leccionava Filosofia.

Ronald Reagan, então governador do Estado, pressionou para que fosse proibida de dar aulas.

Angela foi julgada inocente de todas as acusações. John Lennon e Yoko Ono lançaram a canção “Angela” e os Rolling Stones gravaram “Sweet Black Angel” em sua homenagem.

O músico cubano Pablo Milanés dedicou-lhe a “Canção para Angela Davis”.

Livre, Angela morou temporariamente em Cuba, seguindo os passos dos seus amigos Huey Newton e Stokely Carmichael. A recepção pelos negros cubanos num concorrido comício foi tão entusiástica que mal pôde discursar.

Angela candidatou-se a vice-presidente dos Estados Unidos em 1980 e 1984 ao lado de Gus Hall, então presidente do Partido Comunista americano, obtendo baixa votação.

Continuou a sua carreira de activista política e escreveu diversos livros, principalmente sobre as condições prisionais no seu país. Não se considera uma reformista prisional, e sim  uma abolicionista. Refere-se ao sistema prisional dos Estados Unidos como um complexo industrial de prisões.

Defende a extinção do cumprimento de penas em presídios, denunciando que a existência de maioria de negros e latinos entre os presos decorre da origem de classe e raça.

Nos anos 1960, foi aluna dos filósofos Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Recebeu o Prémio Lenine da Paz em Moscovo em 1979 e solidarizou-se com a Revolução Sandinista, assim como participou activamente dos protestos no seu país contra a Guerra do Vietname.

Nos últimos anos, profere palestras e continua como figura proeminente na luta pela abolição da pena de morte na Califórnia.

Fonte: Elmostrador

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